Terça-feira, 28 de Março de 2017

O referendo turco

 

No próximo dia 16 de Abril os turcos vão referendar os novo poderes de Recep Tayyip Erdogan. Se o "sim" ganhar, estaremos perante a presidencialização, com nuances de autoritarismo, do regime político na Turquia, numa lógica muito perigosa, naquilo que Platão veria como uma degeneração da forma de Governo. E o que é preocupante é que no seio das elites políticas e dos iluminados comentadores que por aí andam, instalou-se um histerismo colectivo em relação a alguns senhores e senhoras "populistas" que têm ido (e vão) a votos nalguns países europeus, mas sobre o que está em jogo no referendo da Turquia, com muitas perspectivas de ver o "sim" ganhar, nem uma palavra.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:51
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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

Erdogan a caminho da entronização

 

Recep Tayyip Erdogan inicia hoje a tramitação formal para a sua entronização no poder. O Parlamento da Turquia vai discutir durante as próximas duas semanas um pacote de reformas constitucionais que tem como objectivo presidencializar o sistema político daquele país, um processo que o chefe de Estado turco há muito vem ensaiando, com a adopção de inúmeras medidas, nomeadamente, ao nível da restrição de liberdades e garantias e do afastamento de milhares de funcionários públicos com ligações à oposição do regime. O fim das negociações entre Ancara e Bruxelas com vista a adesão à UE reforçaram ainda mais o distanciamento da Turquia em relação aos valores e princípios europeus. Erdogan já deu claros sinais do caminho que pretende seguir e, hoje, percebe-se que a Turquia vai desligar-se do seu lado mais europeu e cosmopolita para abraçar com mais entusiasmo o seu lado euroasiático.

 

O conjunto de reformas que começa agora a ser discutido vai reforçar, em muito, os poderes de Erdogan e espera-se que seja aprovado sem problemas pelo Parlamento, já que o AKP, partido do poder, conta com uma larga maioria naquela câmara. O vice-primeiro-ministro, Nurittin Canikli, disse esta Segunda-feira que, posteriormente, o projecto de alteração da Constituição deverá ser referendado em Abril. E será neste momento que os turcos, um povo dividido entre a modernidade ocidental e o medievalismo asiático, terão um teste muito importante para o futuro do seu país e das suas vidas. Se votarem favoravelmente às alterações constitucionais, Erdogan assumir-se-á como uma espécie de sultão moderno, mas, se rejeitarem as ambições de Erdogan, então a Turquia ainda poderá reencontrar o seu caminho em direcção à Europa.

      

Publicado por Alexandre Guerra às 11:28
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Domingo, 11 de Dezembro de 2016

Um país sem rumo

 

No site da BBC News o correspondente em Istambul, Mark Lowen, escreveu a propósito dos atentados deste Sábado, sendo que aquilo que ele mais sentia era a raiva e o descontentamento dos turcos perante a violência crescente no seu quotidiano. 2016 foi um dos anos mais turbulentos desde a fundação da Turquia moderna por Kemal Ataturk. Neste ano tudo aconteceu naquele país. Foram os atentados do PKK e do Estado Islâmico, a crise dos refugiados, o reforço do pendor presidencial do regime e a tentativa de golpe de Estado que conduziu a um contra-golpe que cimentou, ainda mais, o poder do Presidente Recep Tayyip Erdogan e levou a um asfixiamento de alguns direitos e liberdades. Como resposta, a União Europeia praticamente condenou de "morte" o processo de adesão da Turquia. Por isto tudo, Lowen dizia que neste momento o sentimento entre os turcos é de raiva, desilusão, medo, uma "mistura tóxica" para um país que parece ter perdido o seu rumo.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 14:33
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Terça-feira, 28 de Julho de 2015

A entrevista do chefe da diplomacia turca ao DN

 

Numa altura em que o Governo de Ancara parece ter declarado guerra a tudo e a todos, vale a pena ler a entrevista que o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Mevlut Çavusoglu, dá hoje ao Diário de Notícias.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:09
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Quarta-feira, 8 de Abril de 2015

E assim vai o terrorismo...

 

Quando se fala hoje em dia de terrorismo islâmico é importante perceber a suas diferentes nuances, já que não se está a falar exactamente da mesma coisa. Na verdade, existem diferentes realidades em diferentes contextos e que devem ter abordagens interpretativas diferentes. Por exemplo, o fenómeno do terrorismo internacional da al Qaeda não deve ser confundido com o terrorismo que durante anos foi praticado por movimentos ligados à libertação palestiniana. Tal como o terrorismo uigure (muçulmano), na região de Xiangxiang na China, ou aquilo que o PKK fez durante anos na Turquia (e não só), não deve ser comparado com os actos praticados pelo Estado Islâmico. É preciso perceber que por detrás destes diferentes movimentos, existem diferentes motivações e objectivos. 
 
Actualmente, é importante notar que dentro do terrorismo islâmico existem interesses contrários e que estão em confronto em locais como no Iraque ou no Iémen. Basicamente, estes dois confrontos espelham uma rivalidade crónica entre sunitas e xiitas. O Estado Islâmico no Iraque, maioritariamente sunita radical, tem estado a ser combatido por xiitas (apoio do Irão) ou sunitas moderados (iraquianos, sauditas, etc).
 
Já no Iémen, os terroristas Houthi são xiitas radicais e estão a ser apoiados pelo Irão no combate ao Governo de Sanaa. Ao mesmo tempo, o movimento da al Qaeda na Península Arábica,sunita radical e apoiado pela al Qaeda, combate os Houthis e o Governo. Entretanto, o Estado Islâmico também se está a imiscuir no Iémen para enfraquecer a filial da al Qaeda. De notar que estes dois movimentos transnacionais, sunitas, são rivais.     
 
Na Somália, o movimento terrorista al Shabab tem provocado a desestabilização nos últimos anos, levando mesmo à queda do seu Governo. As acções daquele movimento têm igualmente se estendido ao Quénia, país que em 2011 enviou um contingente militar para intervir na Somália, precisamente para combater a al Shabab. Este movimento, ao contrário de outros, não tem ligações fortes nem alinhamentos com polos de poder sunitas (Arábia Saudita) ou xiitas (Irão), já que se trata de um grupo de cariz sobretudo criminoso, assente na pirataria. No entanto, desde 2012 que estabeleceu alguns laços com a al Qaeda, assim como com alguns movimentos africanos, tais como o Boko Haram. 
 
Publicado por Alexandre Guerra às 12:36
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Terça-feira, 14 de Outubro de 2014

Um "puzzle" difícil de montar

 

O leitor repare no seguinte "puzzle" geoestratégico: por um lado, os rebeldes curdos sírios apelam ao Governo de Ancara para apoiá-los militarmente na defesa da cidade de Kobani (cidade síria contígua à fronteira sudoeste turca) contra os militantes do Estado Islâmico (ISIS), algo que a Turquia até estaria disposta a fazer, caso os Estados Unidos decidissem por uma intervenção terrestre; por outro lado, ontem, caças F-16 e F-4 turcos bombardearam posições dos guerrilheiros curdos do PKK na província de Hakkari, junto à fronteira do Iraque.

 

Contradições próprias da guerra? Talvez, mas de certa forma compreensíveis à luz daquilo que é a "grande zona cinzenta" das Relações Internacionais. É importante não esquecer que, desde há cerca de três décadas, o Estado turco trava um combate interno com o movimento curdo do PKK, que luta pela independência do Curdistão, na região sudeste da Turquia. Teoricamente, aquilo que poderia ser o "grande" Curdistão incluiria zonas do norte do Iraque e da Síria, onde existem grandes comunidades curdas e que, neste momento, são o principal pilar de resistência aos combatentes do Estado Islâmico naquelas áreas.

 

Sendo o ISIS uma ameaça para todos, sem excepção, começaram a desenvolver-se algumas alianças tácitas, mais ou menos camufladas, mais ou menos improváveis, tais como a de soldados e mercenários americanos a combatentes iranianos na Síria. Outra dessas alianças, seria entre o Governo turco e os rebeldes curdos da Síria, no entanto, Ancara rejeita, para já, qualquer intervenção em Kobani. Uma rejeição que estará a deixar os curdos do PKK revoltados com as autoridades turcas, ao ponto destas terem respondido com os bombardeamentos acima referidos.

 

Neste momento, a questão é saber até quando conseguirá a Turquia manter-se militarmente fora deste conflito, sendo que o mesmo está a decorrer literalmente às suas portas. Além de exigir uma operação militar terrestre, Ancara já fez saber que só intervirá se os EUA definirem também como alvo o regime sírio de Bashar al-Assad. 

 

Ora, para já, Washington parece menos interessada em fazer cair Bashar al-Assad, uma vez que os soldados governamentais sírios são fundamentais no combate aos guerrilheiros do Estado Islâmico dentro da Síria, onde reside o seu principal foco de actividade. 

 

Perante estas variáveis todas e condicionantes, não é de estranhar que o Estado Islâmico tenha conseguido conquistar uma importante área daquela região do Médio Oriente em relativamente pouco tempo e que agora esteja a ser muito complicado expelir aquela estrutura de extensas zonas da Síria e do Iraque.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:16
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Segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Sentido de oportunidade

 

Perante o anúncio da criação de um califado no Iraque e na Síria, por parte do grupo radical sunita do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS), Israel parece querer aproveitar a dinâmica de desmembramento das nações inimigos, e ontem o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu apelou à criação de um Estado curdo independente, que iria retirar território à Síria, Irão, Iraque e Turquia. É caso para dizer que Netanyahu teve sentido de oportunidade.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:03
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Sábado, 23 de Junho de 2012

Um dia destes...

 

Um dia destes os "jogos de guerra" no Médio Oriente ainda acabam mesmo mal.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:38
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011

Na Turquia moderna é a primeira vez que um Governo civil escolhe chefes militares

 

Erdogan e o general Ozel, esta Segunda, no Supremo Conselho Militar (YAS)

 

Sinais interessantes, embora potencialmente preocupantes, aqueles que chegam da Turquia, onde pela primeira vez um Governo civil vai nomear os chefes militares.

 

Alguns analistas estão a ver neste gesto uma vitória do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, que nos últimos tempos se vinha envolvendo num clima de conflito permanente com a instituição militar, por várias vezes acusada de querer interferir e até mesmo derrubar o actual poder político.

 

Na semana passada, os líderes dos três ramos das forças armadas não aceitaram que alguns oficiais fossem detidos sob a acusação de conspiração contra o Governo e, furiosos, pediram a sua demissão, abrindo, assim, caminho para Erdogan nomear novos chefes militares.

 

Também o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, o general Isik Kosaner, juntamente com alguns dos seus comandantes, pediu a sua demissão, apenas poucas horas depois de um tribunal ter acusado 22 generais e outros oficiais de terem encetado uma campanha subversiva na Internet para fragilizar o Governo.

 

Há já algum tempo que o Executivo tem acusado os militares de tentarem interferir no poder político, tendo a relação se deteriorado substancialmente, chegando ao actual momento, em que tudo indica que Erdogan terá conseguido criar as condições para colocar novos líderes militares mais "próximos".

 

Para já, o general Necdet Ozel foi escolhido como o novo Chefe do Estado Maior, devendo ser empossado pelo Presidente Abdullah Gul na Quinta-feira.

 

Entretanto, desde hoje e durante os próximos três dias, Erdogan, juntamente com Ozel, estará a presidir ao encontro anual do Supremo Conselho Militar (YAS), estando em agenda, precisamente, a reformulação da cúpula das forças armadas.

 

A instituição militar tem rejeitado veementemente quaisquer interferências na esfera do poder político, como aliás tem sido a sua tradição desde a fundação do Estado da Turquia.

 

Na verdade, as forças militares têm sido vistas com um garante de estabilidade e de equilíbrio entre a necessidade de progresso e de democratização e a tradição assente sobretudo no islão.

 

Apesar desta evidência, vários têm sido os momentos de conflito, com muitas detenções de militares e vários processos em tribunal. Tem sido assim nos últimos dois anos, provocando um desgaste entre militares e Governo sem paralelo na Turquia moderna.

 

Aliás, são tantos os detidos entre os oficiais de alta patente que se reflecte nas inúmeras ausências no YAS, um encontro que pela primeira vez na sua história não conta com a presença dos chefes dos vários ramos das forças armadas.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:17
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Segunda-feira, 5 de Julho de 2010

A importância das palavras na política internacional

 

A importância das palavras pode adquirir contornos particularmente dramáticos na política internacional. A negociação de um tratado, a celebração de um acordo ou a assinatura de uma declaração de paz são alguns exemplos de momentos que, normalmente, envolvem horas de discussão prévia entre as partes envolvidas.

 

Cada palavra é escolhida cirurgicamente e, se for caso disso, discutida apaixonadamente, muitas das vezes por especialistas ou pessoal altamente técnico.

 

A redacção da Constituição Europeia vai de encontro a esta lógica, tendo sido um processo moroso, com cada palavra a ser escalpelizada ao pormenor. A elaboração do Preâmbulo terá sido o corolário deste projecto que, além de técnico, foi sobretudo político, com cada frase a ter em consideração os interesses de todos os Estados-membro.

 

É um equilíbrio difícil de alcançar, mas vital para se evitar mal entendidos, embaraços diplomáticos ou o possível alheamento de potenciais signatários.

 

A importância das palavras também se pode materializar numa simples declaração política num jornal, numa conferência de imprensa ou num outro qualquer contexto diplomático.

 

Tudo isto para dizer que neste momento o “conflito” diplomático entre a Turquia e Israel, a propósito do raid desastroso levado a cabo por comandos israelitas em Maio último a uma frota de cariz humanitário com bandeira turca e que resultou na morte de nove turcos, parece estar reduzido um jogo de palavras, mas com grandes implicações políticas.

 

Ancara tem ameaçado cortar relações diplomáticas com Israel, embora já tenha anunciado que esta “crise” pode resolver-se com um “pedido de desculpas” por parte do Executivo hebraico. Ora, o Governo turco bem poderá esperar sentado, porque o ministro dos Negócios Estrangeiros isrealita, Avigdor Lieberman, disse que o seu país não tem intenção de fazer qualquer “pedido de desculpa”.

 

Um simples “pedido de desculpa” pode ser um gesto quase inócuo praticado por qualquer líder nas lides da política interna ou cidadão comum, mas poderá ser um gesto de dimensões históricas e dramáticas entre as nações.

 

Ancara e Telavive têm perfeita a noção da importância do que está em causa com o “pedido de desculpas”. É por isso que o Governo turco admite solucionar esta crise diplomática apenas com um “pedido de desculpas” por parte de Israel.

 

Pode parecer pouco, mas tanto a Turquia como Israel sabem que um gesto deste tipo é como que um assumir de culpas por parte do Estado judaico, um acto que simbólica e politicamente tem mais valor do que qualquer outro tipo de compensação.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:16
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