Quarta-feira, 30 de Março de 2016

Um (pequeno) guião para se compreender melhor este terrorismo e anti-terrorismo

 

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1. Antes de mais, é preciso compreender a natureza específica deste terrorismo de que se está a falar hoje em dia na Europa (e não só), porque sem isso é impossível delinear uma estratégia anti-terrorista eficaz. O perfil dos cidadãos ocidentais que nos últimos anos foram para a Síria e Iraque (a maior parte sunita), para serem islamizados ou para se juntarem às fileiras do Estado Islâmico ou da Frente al-Nusra, é muito diferente daquele que, por exemplo, levou outras tantas pessoas a juntarem-se a grupos muçulmanos no Afeganistão, nos anos 80, ou na Bósnia, nos anos 90. Vejam-se algumas diferenças: um dado interessante é o aparecimento de mulheres europeias neste fenómeno mais recente, não necessariamente na frente de batalha na Síria ou no Iraque, mas em tarefas de apoio, tais como policiamento local ou através de casamentos, de modo a permitir a dupla nacionalidade ou o passaporte a potenciais terroristas; depois, estamos a falar de recrutas muito mais jovens do que aqueles que combateram no Afeganistão ou nos Balcãs; mas muito importante, é desconstruir o mito de que estes jovens europeus que têm ido para a Síria ou para o Iraque não tinham qualquer relação com o islamismo mais extremado. É falso, na verdade, muitos deles, de forma mais ou menos indirecta, tinham uma relação com o jihadismo, já para não falar com práticas de criminosas; outra diferença muito importante prende-se com a facilidade de comunicação e disseminação da mensagem. Embora continue a ser um centro de propaganda muito importante, a mesquita deixou de ser o único canal de comunicação para ideias extremistas. Por exemplo, a revolução de 1979 no Irão e que levou ao poder o regime dos ayatollahs foi praticamente instigada através de discursos gravados em cassetes e reproduzidos em mesquitas iranianas, mas esses tempos já lá vão. Ora, se já a al Qaeda o tinha feito com grande eficácia, o Estado Islâmico apurou e potenciou as ferramentas que actualmente existem ao nível das tecnologias de informação e comunicação para poder levar por diante a sua missão. Ainda no ano passado, entre várias acções nas "redes" e na internet, publicou dois guiões on line para ensinar os seus operacionais a infiltrarem-se e a “sobreviver” no Ocidente, além de todo o tipo de conhecimentos técnicos para produzirem engenhos explosivos, esconderem armas em compartimentos secretos num automóvel, escapar à vigilância policial, entre outros.

 

2. Segundo a Europol, existem actualmente na Europa cerca de 5000 europeus jihadistas que terão estado na Síria e no Iraque. A Bélgica é o principal fornecedor de jihadistas per capita dos países da Europa Ocidental. Por exemplo, cerca de 450 cidadãos numa população de 11 milhões foram para a Síria. Há uma outra estimativa que aponta quase para 600. A maioria deles junta-se ao Estado Islâmico ou à Frente al-Nusra.

 

3. Quanto ao facto de meses depois dos atentados de Paris a Europa voltar a ser assolada por novos atentados, é importante sublinhar que desde 15 de Novembro até hoje não foram feitos, na verdade, muitos progressos ao nível da resposta europeia comum anti-terrorista. Relembre-se que, na altura dos atentados de Paris, a União Europeia não activou a cláusula de solidariedade prevista no artigo 222 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, que implicaria uma resposta coordenada e colectiva dos vários Estados-membros, tendo antes o Governo francês preferido optar pelo artigo 42 do Tratado da União Europeia, que situou a resposta no plano intergovernamental. Isto teve uma razão, que era a França querer total liberdade para responder da forma que pretendia aos atentados e de imediato tomou medidas concretas ao avançar para os ataques aéreos a bases do Estado Islâmico na Síria. O problema é que do lado da União Europeia pouco foi feito à excepção do reforço ou finalização de algumas medidas que já estavam em curso, tais como o fortalecimento das fronteiras externas, o combate ao tráfico de armas, o controlo do financiamento a grupos terroristas, o melhoramento na troca de informação entre Estados-membros ou a finalização do Passenger Name Record (PNR), que está neste momento em avaliação no Parlamento Europeu. Entretanto, está em cima da mesa uma proposta de directiva europeia que pretende actualizar ou melhorar os mecanismos de criminalização de alguns actos associados indirecta ou directamente a terrorismo, tais como alguém viajar com uma finalidade ligada a terrorismo, financiamento, treino, apoio logístico, entre outros. No âmbito da Europol, foi criado o novo centro antiterrorista com sede em Haia e que arrancou com 40 analistas. A questão é que todas estas medidas, além de não serem propriamente novas, não parecem ser suficientemente ambiciosas para lidar com um problema que só pode ser resolvido com acções efectivas comuns de "intelligence", policiais e militares.

 

4. E já agora, faça-se este pequeno exercício: com tanto que se tem falado em terrorismo e anti-terrorismo nos últimos tempos, quantas vezes os jornais ou televisões têm mencionado o nome do Coordenador da Luta Antiterrorista da União Europeia? Que eu me tenha apercebido, poucas ou nenhuma. Aliás, provavelmente, poucos saberão o seu nome. Chama-se Gilles de Kerchove e já está no cargo deste 2007. É sintomático.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:25
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Segunda-feira, 29 de Junho de 2015

A percepção do terror

 

Por mais que custe admiti-lo, o Estado Islâmico (ISIS) tem sido muito eficaz na propagação do terror, ou melhor dizendo, na propagação de uma sensação de terror a uma orla cada vez mais distendida e que já se aproxima, perigosamente, da costa do sul da Europa. E o problema é que basta um atentado para que o ISIS coloque em causa um dos bens mais preciosos de países como a Tunísia: a sua relativa estabilidade de segurança. De facto, a Tunísia, no conjunto dos países do Magreb, sempre foi aquele que melhores condições de segurança apresentou, um vector essencial para a dinamização do turismo e que, aliás, cativou ao longo dos últimos anos muitos portugueses. Ali, com um voo de pouco mais de duas horas entre Lisboa e Tunis, já podiam encontrar um "cheirinho" da cultura árabe, boas praias, bons hotéis, costumes relativamente ocidentalizados e...segurança. Até ontem.

 

Essa estabilidade de que a Tunísia gozava até ontem (excepto durante aquele período mais conturbado da fantasiosa "Primavera Árabe" e de um atetntado mais recente) é hoje uma miragem, não necessariamente em termos objectivos e de segurança, mas naquilo que é a percepção das pessoas. Na verdade, a Tunísia será nos próximos dias um dos países mais vigiados e seguros do mundo, mas não é por isso que milhares de turistas cancelaram as suas férias e tentam regressar a casa.  

 

Este ataque na Tunísia deve alertar as consciências dos líderes políticos de Portugal, Espanha e França, cujas suas costas do sul são fortes atractivos turísticos e, nalguns casos, estão a relativos poucos quilómetros do norte de África.  Porque, qualquer estratego do ISIS saberá que um atentando numa praia do Algarve, da Costa do Sol ou da Côte d'Azur é o suficiente para, além das consequências humanas directas, inflingir danos douradouros na imagem de tranquilidade e calmaria que estes locais hoje em dia representam para milhares de turistas. E como foi dito acima, bastava um atentado, mesmo sem vítimas, para que os objectivos do ISIS se revelassem cumpridos. A percepção mudaria...

 

Publicado por Alexandre Guerra às 14:53
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Segunda-feira, 11 de Maio de 2015

O problema da teoria de Hersh: ninguém consegue guardar segredo em Islamabad

 

Embora se saiba que os governos em geral, e o americano em particular, caem, por vezes, na tentação de camuflar factos, reescrever alguns acontecimentos e, até mesmo, ficcionar a realidade, o Diplomata está com alguma relutância em aceitar a versão do conceituado jornalista, Seymour M. Hersh, sobre os contornos em ocorreu a operação que conduziu à morte de Osama bin Laden, e que coloca em causa a posição oficial da Casa Branca .

 

A nova teoria de Hersh foi publicada esta Segunda-feira no London Review of Books e, entre outras coisas, é referido que, ao contrário do que Washington sempre disse, os chefes dos serviços secretos (ISI) e do Exército paquistaneses teriam conhecimento prévio da operação militar norte-americana para capturar bin Laden. 

  

Ora, além de não identificar qualquer fonte concreta, limitando-se a classificações genéricas, a versão de Hersh admite que as autoridades paquistanesas teriam mesmo bin Laden à sua guarda e que foram informadas por Washington do que estaria prestes a acontecer. Mas é aqui que a questão levanta mais dúvidas ao Diplomata. Conhecendo-se os alinhamentos próximos que existiam nalguns sectores das forças armadas e das secretas paquistanesas com bin Laden, dificilmente não chegaria ao seu conhecimento a informação de que estaria um ataque iminente à residência fortificada de Abbotabad. Porque, a verdade é que um dos grandes problemas de Islamabad no combate ao terrorismo foi a inconsistência e a divisão das suas cúpulas no que ao empenhamento na "caça" a bin Laden dizia respeito.  

 

O Diplomata acredita que se alguém do Exército ou do ISI soubesse que Washington iria desenvolver uma operação militar para capturar ou eliminar bin Laden, seguramente que aquele que era o inimigo número 1 dos Estados Unidos não estaria na noite de 1 para 2 de Maio naquele casa fortificada em Abbotabad.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 19:20
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Quarta-feira, 8 de Abril de 2015

E assim vai o terrorismo...

 

Quando se fala hoje em dia de terrorismo islâmico é importante perceber a suas diferentes nuances, já que não se está a falar exactamente da mesma coisa. Na verdade, existem diferentes realidades em diferentes contextos e que devem ter abordagens interpretativas diferentes. Por exemplo, o fenómeno do terrorismo internacional da al Qaeda não deve ser confundido com o terrorismo que durante anos foi praticado por movimentos ligados à libertação palestiniana. Tal como o terrorismo uigure (muçulmano), na região de Xiangxiang na China, ou aquilo que o PKK fez durante anos na Turquia (e não só), não deve ser comparado com os actos praticados pelo Estado Islâmico. É preciso perceber que por detrás destes diferentes movimentos, existem diferentes motivações e objectivos. 
 
Actualmente, é importante notar que dentro do terrorismo islâmico existem interesses contrários e que estão em confronto em locais como no Iraque ou no Iémen. Basicamente, estes dois confrontos espelham uma rivalidade crónica entre sunitas e xiitas. O Estado Islâmico no Iraque, maioritariamente sunita radical, tem estado a ser combatido por xiitas (apoio do Irão) ou sunitas moderados (iraquianos, sauditas, etc).
 
Já no Iémen, os terroristas Houthi são xiitas radicais e estão a ser apoiados pelo Irão no combate ao Governo de Sanaa. Ao mesmo tempo, o movimento da al Qaeda na Península Arábica,sunita radical e apoiado pela al Qaeda, combate os Houthis e o Governo. Entretanto, o Estado Islâmico também se está a imiscuir no Iémen para enfraquecer a filial da al Qaeda. De notar que estes dois movimentos transnacionais, sunitas, são rivais.     
 
Na Somália, o movimento terrorista al Shabab tem provocado a desestabilização nos últimos anos, levando mesmo à queda do seu Governo. As acções daquele movimento têm igualmente se estendido ao Quénia, país que em 2011 enviou um contingente militar para intervir na Somália, precisamente para combater a al Shabab. Este movimento, ao contrário de outros, não tem ligações fortes nem alinhamentos com polos de poder sunitas (Arábia Saudita) ou xiitas (Irão), já que se trata de um grupo de cariz sobretudo criminoso, assente na pirataria. No entanto, desde 2012 que estabeleceu alguns laços com a al Qaeda, assim como com alguns movimentos africanos, tais como o Boko Haram. 
 
Publicado por Alexandre Guerra às 12:36
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Domingo, 11 de Janeiro de 2015

Da emoção à razão

 

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Manifestação em Paris este Domingo/Foto: Le Monde 

 

Por razões compreensíveis, a emoção levou para a rua milhares de pessoas em várias cidades europeias, num gesto simbólico contra o terrorismo e em defesa dos pilares fundamentais das sociedades ocidentais, mas quando chegar a hora da razão, a pergunta que se impõe é a seguinte: até onde estarão estas mesmas pessoas dispostas a ir quando forem confrontadas com a necessidade de mudarem comportamentos e de o Estado assegurar mais recursos logísticos e financeiros para a luta anti-terrorista e para as operações de "intelligence"?

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:14
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Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

O negócio dos raptos da al Qaeda e afiliadas

 

O New York Times divulgou os valores dos resgates pagos por alguns países, quase todos europeus, à al Qaeda ou a outras organizações terroristas subsidiárias, desde 2008. São cerca de 93 milhões de euros, apesar dos governos negarem sempre quaisquer tipo de pagamentos aos terroristas que têm sequestrado cidadãos das suas nacionalidades. 

 

A França surge no topo da lista, com mais de 43 milhões de euros pagos, seguida da Suíça (9,25 milhões de euros), da Espanha (8,2 milhões) e da Áustria (2,3 milhões). Também o Omã e o Qatar fazem parte desta lista, despendendo ambos 15,2 milhões de euros para libertar cidadãos europeus.

 

O jornal americano salienta que estes são apenas os valores conhecidos, porque é muito provável que muitas outras operações tenham acontecido. Segundo o NYT, a filial da al Qaeda no Magrebe tem sido o grupo que mais tem facturado, com mais de 68 milhões de euros desde 2008.  

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:41
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Segunda-feira, 10 de Março de 2014

O alerta

 

Nas vésperas do décimo aniversário do atentado terrorista de Madrid, o Centro Nacional de Coordenação Antiterrorista (CNCA) espanhol considera que o risco de novas acções islamistas naquele País é "alto".

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:50
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Terça-feira, 5 de Junho de 2012

Drone mata nº2 da al-Qaeda e dá um importante trunfo eleitoral a Obama

 

Abu Yahya al-Libi/Foto: Intelcenter, via Agence France-Presse — Getty Images

 

Numa altura em que a polémica em torno dos drones utilizados pela administração de Barack Obama na guerra contra o terrorismo está bem quente, soube-se esta Terça-feira que os Estados Unidos eliminaram o número dois da al-Qaeda, recorrendo precisamente a um avião não tripulado.

 

De acordo com uma fonte anónima citada pela imprensa americana, Abu Yahya al-Libi terá sido morto ontem numa aldeia da região do Waziristão Norte no Paquistão, numa operação que o New York Times considerou ser "o maior sucesso indiviual na história de oito anos da campanha controversa" de utilização de drones.

 

Apesar do aparente sucesso da operação (falta ainda confirmação oficial), o regime de Islamabad já veio dizer que não deixará de se opôr à utilização dos drones no seu território. 

 

Quem poderá capitalizar com o sucesso desta operação é Barack Obama que vê, assim, refoçada a sua posição no que diz respeito à utilização dos drones. É importante lembrar que o Presidente americano tem defendido este tipo de operação militar, dando-lhe um forte impulso em comparação à administração anterior de George W. Bush. 

 

Além disso, Obama, que era considerado pelos seus detractores uma "pomba" no que dizia respeito à guerra contra o terrorismo, tem vindo a apresentar alguns resultados militares que poderão vir a ser trunfos eleitorais importantes nas presidenciais de Novembro. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:05
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Terça-feira, 29 de Maio de 2012

A influência dos "doutores" da Igreja no “cálculo moral” de Obama

 

 

Num extenso artigo publicado esta Terça-feira no New York Times ficou-se a saber que todas as semanas cerca de 100 elementos das várias agências de segurança e de “intelligence” norte-americanas se reúnem através de videoconferência, propondo e recomendando ao Presidente Barack Obama várias biografias de possíveis alvos terroristas a abater.

 

Destas reuniões, organizadas pela Pentágono, saem as “nomeações” daqueles que irã estar, eventualmente, na mira dos drones, algures no Iémen, no Paquistão, na Somália ou no Afeganistão. Diz aquele jornal que este processo selectivo é uma “invenção” da administração Obama, que tem demonstrado um apetite voraz para os assassinatos selectivos através de aviões não tripulados. Assassinatos, esses, que aumentaram consideravelmente em relação às administrações do antigo Presidente George W. Bush.

 

Antes de qualquer acção militar secreta, os “nomeados” ainda terão que passar pela aprovação final da Casa Branca, nomeadamente, de Obama.

 

Neste processo cirúrgico, o Presidente conta com a ajuda de John O. Brennan, o seu principal conselheiro em contraterrorismo, para fazer aquilo que o próprio New York Times chama de um “cálculo moral”.

 

Um exercício que Obama assume como um desígnio moral e uma responsabilidade intransigente, sempre guiado pelo conceito da “guerra justa”. E o mais interessante, segundo alguns conselheiros do Presidente citados pelo New York Times, é que isto se deve a vários factores, nomeadamente, à influência do estudo do fenómeno da guerra nas obras de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 20:32
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Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Morte de Hussein há 1300 anos é pretexto para xiitas e sunitas alimentarem divisões

 

Imã Hussein na Batalha de Karbala (680) numa luta desigual, acabando por perecer nas mãos dos inimigos/Brookly Museum 

 

O Ashura, celebrado na passada Terça-feira nalguns países muçulmanos, trouxe à luz do dia o conflito crónico entre os dois principais ramos do Islão, xiita e sunita. Em apenas um dia, foram emitidos vários sinais, em diferentes locais e por diferentes intervenientes, que agudizaram o estado de animosidade histórica entre xiitas e sunitas.

 

No Afeganistão, vários atentados suicidas coordenados em Cabul, Kandahar e Mazar-i-Sharif provocaram a morte de pelo menos 59 crentes xiitas que celebravam o Ashura. Uma data importante para aquele ramo do Islão, porque assinala a morte de Hussein, neto de Maomé e considerado pelos xiitas o sucessor do profeta.

 

Apesar da extrema violência que tem assolado o território afegão, é a primeira vez que ocorre um atentado sectário deste género. Embora a minoria xiita tenha estado sob pressão durante o regime taliban, nunca tinha sido alvo de actos violentos direccionados.

 

E, de facto, os taliban rejeitaram de imediato qualquer responsabilidade nos atentados, o que se confirmou na Quarta-feira, com a reivindicação do ataque por parte de um pequeno grupo terrorista baseado no Paquistão. O Lashkar-e-Jhangvi (LeJ) tem ligações fortes à al-Qaeda, de base sunita, e também aos taliban.

 

Não são ainda claras as razões que levaram aquele grupo a atacar a comunidade xiita no Afeganistão, mas alguns observadores falam na possibilidade de se estar a incitar o sectarismo no País, eventualmente, com o objectivo de fragilizar a actual liderança política do Presidente Hamid Karzai e o modelo de governação daquele Estado.

 

O jornal paquistanês Dawn interrogava-se precisamente sobre essa possibilidade e referia que as autoridades afegãs acreditam que estes atentados tinham como objectivo reforçar a insurreição que se prolonga já há dez anos, altura em que os Estados Unidos decidiram invadir o Afeganistão.

 

Uma coisa é certa, sublinhava o mesmo Dawn, os atentados de Terça-feira importaram do Iraque e do Paquistão um estilo de violência sectária até então inexistente no Afeganistão.

 

Ainda nesta lógica de guerra intestina islâmica entre xiitas e sunitas, da Síria vieram sinais reveladores de que os tempos vindouros poderão trazer ainda mais violência sectária. Dominada há décadas pela minoria alauita (xiitas), a Síria é um país predominantemente sunita, embora, por razões óbvias, tenha mantido relações estreitas com o regime xiita do Irão e partilhe com este o apoio a movimentos como o Hezbollah ou o Hamas.

 

Curiosamente, também na Terça-feira, um dos líderes sunitas da oposição ao regime de Bashar al-Assad veio cavar ainda mais as trincheiras.  Burhan Ghaliun, líder do recém criado Conselho Nacional Sírio, avisou que se a Síria vier a ser liderada por si cortará as relações com o Irão, com o Hezbollah e com o Hamas.

 

Reagindo a estas palavras, e também por ocasião da celebração do Ashura, mas desta vez no Líbano, o líder xiita do Hezbollah, Hassan Nasrallah, veio manifestar o seu apoio a Bashar al-Assad. Numa rara aparição pública e falando para milhares de pessoas num bairro a sul de Beirute, um bastião xiita, Nasrallah aproveitou ainda para atacar Ghaliun.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:48
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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