Terça-feira, 18 de Abril de 2017

Não é preciso uma bola de cristal

 

Há quem tenha jeito para antecipar crises na bolsa, choques petrolíferos, oscilações nos mercados, se vai ser rapaz ou rapariga, se o Benfica vai ganhar o campeonato ou até se vai chover ou fazer sol no dia seguinte. Nos Estados Unidos, na localidade de Punxsutawney, na Pensilvânia, até há uma marmota que consegue prever o fim do Inverno e o início da Primavera. Reconheço que não tenho qualquer desses dons premonitórios, mas sempre tive algum jeito para antecipar movimentações ou acontecimentos internacionais. Nunca tive acesso a informação particularmente privilegiada e, muito menos, qualquer inspiração divina ou bola de cristal em casa (embora sempre quisesse ter uma daquelas com raios de electricidade). A receita é simples: alguma informação de background; ver com atenção as notícias e asseverar a credibilidade das suas fontes; ir acompanhando os assuntos ao longo dos anos; e alguma perspicácia na análise. Recordo que foi assim que dei uma manchete ao extinto SEMANÁRIO, com a chegada das forças especiais norte-americanas ao Afeganistão, semanas depois do 11 de Setembro, no mesmo dia em que a imprensa americana dava a notícia. Ou, quando fiz outra manchete com a notícia de um golpe de Estado iminiente na Guiné Bissau (aqui, com a ajuda de algumas fontes), o que veio acontecer meses depois, apesar dos protestos de Bissau àquela notícia.

 

Nos útimas semanas, verificaram-se três acontecimentos cuja sua previsão não era assim tão difícil e aos quais fiz referência ainda antes de acontecerem perante um silêncio quase absoluto sobre os mesmos. A 6 de Março, depois da Coreia do Norte ter testado mais quatro mísseis e de ainda ninguém estar minimamente preocupado com o assunto, escrevia que a "comunidade internacional parece estar bastante permissiva perante esta ameaça, dando muito mais atenção a outros assuntos (importantes, é certo), mas que não têm a gravidade do que se está a passar" naquele país. E mais à frente falava na possibilidade de acções "preemptivas" e "preventivas" contra Pyongyang. Duas semanas depois, o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, admitia que essa hipótese estava em "cima da mesa". A partir daí, o tema rapidamente escalou para o topo da agenda internacional, como se tem constatado. O mesmo aconteceu com o referendo turco, que rebentou com estrondo na Europa, apesar de há muito as "cartas" estarem todas em cima da mesa. E a 28 de Março sublinhava precisamente que o que era "preocupante é que no seio das elites políticas e dos iluminados comentadores que por aí andam, instalou-se um histerismo colectivo em relação a alguns senhores e senhoras 'populistas' que têm ido (e vão) a votos nalguns países europeus, mas sobre o que está em jogo no referendo da Turquia, com muitas perspectivas de ver o 'sim' ganhar, nem uma palavra". Mais, já a 9 de Janeiro dizia que Erdogan ia "caminho da entronização". Por fim, esta Terça-feira, Theresa May anunciou "surpreendentemente" eleições antecipadas no Reino Unido. Ora, mas a surpresa seria assim tanta? A 5 de Setembro do ano passado, em jeito de sugestão à senhora May, propunha isto: "Vislumbra-se uma saída para toda esta questão e que, por um lado, permitiria legitimar popularmente o poder de May e, por outro, abrir uma oportunidade democrática para que o processo [Brexit] pudesse parar. E que via seria essa? Simples, a de eleições antecipadas."

 

O exercício que aqui fiz serve apenas para mostar que os acontecimentos internacionais, regra geral, não surgem do nada, numa espécie de combustão espontânea, para grande espanto de todos. Pelo contrário, há sinais, evidências, um processo, um histórico que nos permite prever ou antecipar determinados cenários ou realidades. Se é verdade que não se exige ao comum dos cidadãos que acompanhe estes assuntos com particular empenho, já os políticos e decisores têm a obrigação de andarem um pouco mais atentos, para depois não serem apanhados de surpresa.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:07
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Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

A cultura do desporto e o poder dos Estados

 

Zho Lulu, atleta chinesa a bater um recorde mundial/Foto: Oficial/London2012

 

Que ninguém se iluda, em Portugal não existe uma cultura desportiva na sociedade e muito menos uma abordagem política ao desporto enquanto factor de poder de um Estado (tal como também não existe para a língua ou para a cultura).

 

E quando se menciona desporto convém referir que não se está a falar de passeatas de Domingo no paredão da marginal ou de algumas futeboladas entre amigos de semana a semana.

 

O desporto, que aqui interessa, é aquele que se insere numa lógica competitiva, que pressupõe a superação diária de dificuldades, um espírito de autossacrifício e a ambição pela perfeição e pelos resultados. O desporto, assim, glorifica os seus intervenientes e prestigia as suas bandeiras.

 

Muitas das vezes, os Estados tentam reflectir nos feitos desportivos (tal como noutras áreas) um certo modelo de sociedade, evoluída e sofisticada. Na verdade, um pouco à imagem do pensamento “platónico”, a integração do desporto no quotidiano dos cidadãos representa um estádio evolutivo da "cidade".

 

Todas as nações com ambições nas Relações Internacionais utilizam o desporto como forma de prestígio e de ascensão mundial. Muitas das vezes de forma perversa, como aconteceu na Alemanha do III Reich, no regime Soviético durante a Guerra Fria ou na China emergente no início dos anos 90. Nestes casos não se podia falar numa verdadeira cultura social pelo desporto, mas antes numa política autoritária/totalitária governamental de “produção” de campeões. Um modelo que, à semelhança do paradigma que regia as suas sociedades, era insustentável e tendia a desabar, como veio a acontecer. A própria China, em plena globalização, foi obrigada a repensar a sua política desportiva, caso quisesse integrar o “concerto” das nações "respeitadas" no sistema internacional.

 

Entre os países mais desenvolvidos o desporto também foi sempre visto como um factor de poder, altamente valorizado, no entanto, o seu enquadramento na sociedade foi feito de forma “democrática” e sustentável.

 

Os Estados Unidos, goste-se ou não, serão o expoente máximo dessa homenagem ao desporto. Paradoxalmente, é um país que cultiva o sedentarismo e o facilitismo, mas ao mesmo tempo existe um entusiasmo genuíno pelo desporto.

 

Um entusiasmo que nasce nas comunidades familiares ou de bairro e que depois amadurece no âmbito do desporto escolar (levado a sério e não como uma brincadeira como acontece em Portugal). Depois é nas universidades que se fazem os campeões.

 

Se nos Estados Unidos a valorização do desporto e das suas várias modalidades é uma realidade intrinsecamente ligada às grandes políticas governamentais, também países como o Reino Unido, a Espanha ou a China são sensíveis a esta matéria.

 

Embora com poucas medalhas nestes Jogos Olímpicos, a Espanha é um caso muito interessante pela forma como tem utilizado o desporto (mas também a sua língua e cultura) para se afirmar no mundo. Mas será a China o melhor exemplo dessa relação do desporto com a imagem do Estado, com os actuais Jogos Olímpicos a espelharem fielmente o poderio emergente do Império do Meio no sistema internacional.

 

Outros exemplos há. Veja-se o Cazaquistão. Herdeiro da predisposição soviética para a valorização do desporto, os seus líderes têm procurado potenciar determinadas modalidades como forma de afirmação daquele país, sobretudo num contexto regional. A sua equipa de ciclismo, a Astana (capital), será o expoente máximo dessa estratégia, com Alexandre Vinokurov à cabeça e que venceu a medalha de outro na prova de estrada destes Olímpicos.

 

Também países como o Quénia ou a Etiópia, com os seus inúmeros campeões de atletismo nas disciplinas de fundo e meio fundo, ou ainda a Jamaica, com os seus velocistas, assumem-se com um alto perfil na cena internacional no que diz respeito ao desporto.

 

O mais interessante nestes Estados é que parece haver uma orientação para os resultados nas disciplinas potencialmente vencedoras, numa estratégia em que os Governos e as respectivas federações nacionais desempenham um papel muito importante.

 

Um dos pontos comuns entre estes países menos avançados e nações como os Estados Unidos ou a Espanha é a focagem concertada e estratégica que passa por uma cultura colectiva permanente de respeito e de gosto pelo desporto e pelas modalidades que são mais acarinhadas nas sociedades.

 

Ora, em Portugal, à semelhança do que tem acontecido com a língua e a cultura, não se pensa o desporto como recurso nacional. À falta de cultura desportiva dos cidadãos, associa-se a ausência de um pensamento estratégico sobre a política do desporto.

 

Os portugueses lá despertam para o “desporto” de quatro em quatro anos. Pelo meio, é futebol, futebol e futebol. Na verdade, Portugal é dos poucos países desenvolvidos onde uma modalidade se sobrepõe de forma tão desequilibrada sobre as outras.

 

Os cidadãos, pouco cultos (desportivamente falando, claro está), não têm predisposição para, regularmente, irem acompanhando o mundo do desporto (com excepção do futebol). E muito menos sensibilidade têm para passar e incutir aos seus filhos os valores do desporto.

 

Dos líderes políticos não se ouve uma palavra sobre o assunto e a imprensa só revela ignorância (com uma ou outra excepção). Veja-se a pobreza do discurso no sequência da falta de medalhas da comitiva portuguesa nos Jogos... Lá veio a mais que previsível discussão sobre as bolsas dadas aos atletas. Hoje, infelizmente, tudo se parece resumir a contas de merceeiro.

 

Mas o problema é que o tema dos apoios só faz sentido ser discutido se primeiro forem feitas as perguntas certas, tais como: “Que desporto Portugal quer ter?”; “Faz sentido levar mais de 70 atletas aos Olímpicos, quando alguns deles não têm argumentos competitivos aceitáveis?”; “Quais são os atletas que estiveram em consonância com as suas marcas do ano e aqueles que estiveram muito abaixo?”; “Que tipo de projecto olímpico faz sentido para Portugal?”.

 

Nem uma destas perguntas foi feita pela imprensa ou pelos decisores. Mais, são poucos os que têm tido a perspicácia de analisar os resultados nacionais verdadeiramente inéditos e importantes que se têm estado a alcançar nestes Jogos Olímpicos. Resultados, esses, (nomeadamente, com algumas meias-finais e finais), que são sustentáveis no tempo e que resultam de um esforço continuado ao longo dos últimos anos.

 

O problema é que à nossa sociedade portuguesa falta-lhe a tal cultura do desporto, inviabilizando qualquer debate profícuo e sério sobre o assunto, assim como a criação de bases sólidas para uma abordagem estruturada ao desporto. O que se vê é antes uma psicose contemporânea obsessiva pelo “saudável” (onde impera a lógica dos ginásios, do “light”, das dietas) que nada tem a ver com desporto nem com os seus valores. 

 

Numa declaração de interesses, o autor destas linhas confessa-se um apaixonado e desde sempre um praticante de desporto. Começou cedo e muito jovem já tinha três a quatro treinos por semana. Antigo competidor de judo nos escalões de infantil, juvenil e de júnior, chegou a ser internacional, com um segundo lugar em França. Para um jovem, são momentos que nunca mais se esquecem e que ajudam a moldar o carácter e a forma de estar em sociedade.

 

Desde então que o desporto é parte integrante da vida. Hoje, e de há 15 a 20 anos a esta parte, o prazer de correr ou de pedalar em BTT (seja em Cross Country ou Enduro/Freeride) faz parte do quotidiano.

 

Para este autor, a paixão pelo desporto não surge de quatro em quatro anos, ela está lá diariamente e faz parte da sua vida. De quatro em quatro anos é, sim, a hora da festa olímpica e da glorificação daqueles semideuses. 

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 06:22
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Sábado, 5 de Novembro de 2011

Ocidente Subjectivo

 

Ocidente Subjectivo é o novo blogue criado por um grupo de estudantes de Relações Internacionais do ISCSP, que pretende abordar aquela área de estudo, com incidência nas temáticas das Informações e da Segurança. O Diplomata não podia deixar de saudar esta chegada à blogosfera, que será, certamente, mais um contributo para o debate e para a análise das questões sistémicas e dos desafios que o mundo enfrenta.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 00:26
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Domingo, 9 de Janeiro de 2011

Uma perspectiva mais artística sobre as relações internacionais

 

No seguimento de alguns textos que já vêm sendo aqui colocados, o Diplomata vai criar uma nova rubrica e todos os Domingos será trazida a este espaço uma forma de expressão artística (música, cinema, literatura, pintura, etc) que, de uma maneira ou de outra, esteja associada a temáticas que se discutem habitualmente nestas linhas.

 

Desde sempre que os artistas procuram inspiração ou se deixam influenciar pelos fenómenos políticos, sociais e económicos que os rodeiam. Por outro lado, também a expressão artística e os artistas têm servido de inspiração aos povos e governantes, marcando, por vezes, tendências e épocas.

 

Com este novo contributo, o Diplomata pretender proporcionar uma perspectiva diferente sobre as relações internacionais.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 22:53
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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