Sexta-feira, 9 de Junho de 2017

O ensinamento

 

Há um ensinamento que li em tempos, penso que desse general e filósofo eternamente citado, Sun Tzu, que dizia qualquer coisa como isto: nunca devemos ir para uma batalha se não estivermos certos de que a vamos ganhar. Caso contrário, o melhor é evitar o conflito. Quando Theresa May se lançou, há uns meses, no desafio de legitimar a sua autoridade ao convocar eleições, sabia que estava a jogar uma cartada muito arriscada, mas estava convicta de que iria ganhar a batalha, talvez com base nas sondagens que, na altura, lhe chegaram a dar uma vantagem de 20 pontos face a um então moribundo Jeremy Corbyn. A questão é que na política (tal como na vida) nunca devemos dar nada por adquirido por mais favoráveis que sejam as circunstâncias do momento e risonhas as hipóteses de sucesso. Moral da história: quando se quer muito algo, é lutar até ao fim com inteligência e determinação e isso May não fez.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:48
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Quinta-feira, 16 de Março de 2017

It’s not the economy

 

Na campanha presidencial de 1992 contra Bush pai, o staff de Bill Clinton tinha como uma das mensagens-chave a famosa expressão “the economy, stupid”, forjada pelo estratego James Carville (ex-CNN e actual FOX News). Mais tarde, quando esse conceito transbordou para a esfera pública, a frase foi usada e abusada ao longo dos anos na sua versão mundialmente conhecida: “It’s the economy, stupid”. Ainda hoje aquela expressão é utilizada vezes sem conta por comentadores e opinion makers nas suas colunas de jornais e revistas. A questão é que além daquela frase ser completamente datada, o seu conteúdo (que na verdade nunca terá sido bem interiorizado por muitos que ainda hoje a utilizam), pouco ou nenhum sentido faz nos dias que correm se olharmos com atenção para as realidades políticas e eleitorais de alguns países, nomeadamente os Estados Unidos ou o Reino Unido.

 

Na altura, o ainda governador do Arkansas colocou a economia como tema central da campanha, talvez não tanto pela questão do estado real dessa mesma economia americana (que embora não sendo famosa, não era dramática), mas porque, no fundo, Carville sabia que era necessário encontrar um factor de contraste evidente com o mandato de George H. W. Bush que, pela força das circunstâncias, foi dominado pela política espectacular dos grandes acontecimentos mundiais e das grandes cimeiras. Para quem se recordará desses tempos ou tem algum conhecimento das relações internacionais, dificilmente encontrará um período da História recente tão “político”, interessante e entusiasmante como aquele que Bush pai viveu enquanto Presidente entre 1989 e 1993.

 

Foi aquilo a que os especialistas chamam de período de transição sistémica. Hoje é um assunto arrumado de que o século XX acabou ali. Para trás, ficaram décadas de Guerra Fria, onde a economia jamais tinha suplantado a política enquanto tema de campanha ou de topo de agenda mediática. Em quatro anos, e apesar dos problemas da economia dos EUA, o mundo assistia à morte do comunismo, à queda do Muro de Berlim, à implosão da União Soviética, às reformas na China, à primeira Guerra do Golfo, à intervenção americana no Panamá e na Somália, já para não falar na Guerra da Bósnia. Aliás, já antes, Ronald Reagan tinha ficado para a História como o homem que vencera a Guerra Fria.

 

Poder-se-á dizer que os acontecimentos de política externa pouco ou nada interessavam aos americanos perante as dificuldades que enfrentavam no seu dia-a-dia. Pois, mas a questão é que nem os problemas da economia americana eram assim tão dramáticos, como alguns desses acontecimentos internacionais entraram no quotidiano dos americanos de uma forma bastante intensa. Além disso, é preciso notar que a América já tinha vivido períodos bem mais difíceis em termos de economia em décadas anteriores, bastando referir, por exemplo, o processo de desindustrialização nos anos 70 e 80, nomeadamente no sector automóvel, com o surgimento da concorrência asiática.

 

A verdade é que olhando para os tempos de Guerra Fria não havia grande “espaço” para a prevalência da economia sobre a política na condução dos Estados e muito menos para os comentadores económicos e para as análises económicas híper-amplificadas nos media (os canais também eram diminutos, note-se). A política pura e dura dominava e os tempos que se viviam eram deveras muito interessantes. É certo que a partir do início dos anos 90, com o advento da globalização e com as teorias do Fim da História e outras, a política vai perdendo relevância para dar lugar à economia enquanto móbil da História. Os grandes líderes e estadistas foram desaparecendo e surgiram os tecnocratas ou os dirigentes orientados por critérios quantitativos. Começa-se a criar uma ideia (errada) de que a política acabou e as sociedades ocidentais entram num Fim de História, dominadas pelo capitalismo e democracias liberais.

 

A euforia durou até 11 de Setembro de 2001, que foi uma espécie de “wake up call”, mas foram precisos vários anos e muitos acontecimentos geopolíticos para se perceber que, afinal, o mundo está longe de ser “plano” e que a política impera naquilo que é a história dos Estados e as Relações Internacionais. Aliás, olhando para os fenómenos eleitorais mais recentes, com resultados que muitos consideraram de “protesto”, como foram os casos dos EUA, com a eleição de Trump, e do Reino Unido, com o referendo ao Brexit, constata-se que as motivações da maioria do eleitorado pouco ou nada tiveram a ver com economia, pelo menos numa lógica directa, já que ambos os países apresentam índices bastante satisfatórios nestas matérias, quer em crescimento do PIB, quer em taxa de desemprego.

 

Publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:05
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Quinta-feira, 2 de Março de 2017

Ensinamentos políticos

 

Para lá das questões espirituais, alguns episódios bíblicos, seja no Antigo como no Novo Testamento, têm ensinamentos políticos que merecem reflexão e estudo. Um deles tem a ver com o conceito de Justiça, não aquela dos tribunais, mas a da Divina Providência. Não é aquela justiça que separa o legal do ilegal, é aquela justiça que separa o bem do mal, o justo do injusto. A justiça bíblica, de uma forma até algo teatral, hiperbólica e sangrenta,acaba sempre por castigar sem piedade os ímpios. E muitos deles são aqueles homens e mulheres que, de forma mesquinha e perversa, se mexem e conspiram nos meandros políticos da altura. Figuras como Jezabel, Salomé, Judas ou Pilatos, apenas para citar algumas, traíram aliados e trataram o próximo sem qualquer respeito ou consideração. O seu fim estava traçado. É claro que estamos perante meras imagens ou conceitos abstractos de justiça poética, mas o que nos demonstram é que a Divina Providência pode tardar, mas nunca falha.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 12:38
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

O nascimento de Jesus Cristo e a política

 

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The Adoration of the Magi  
ANTONIO VIVARINI (Murano, 1440-1480) 
Gemäldegalerie, Berlin

 

O Natal é vivido pela maioria das pessoas como um acontecimento "familiar", no qual se celebra o nascimento do Rei dos Judeus (embora nas actuais sociedades pós-modernas já muito poucos façam essa associação). Nesta lógica de pensamento, a época natalícia é sobretudo um fenómeno social com um brutal impacto económico. No entanto, e remontando às origens do Natal, na pequena cidade de Belém, vislumbrava-se algo mais do que a componente familiar/social. Efectivamente, não foi preciso muito tempo para que o nascimento de Jesus Cristo fosse assumindo um carácter político e para que lhe tivesse sido atribuído uma dimensão para lá da manifestação familiar/social.

 

O Império Romano acabaria por constatar essa tendência nos seus terrítórios, ao ver transformado um fenómeno social e religioso numa questão política. A fundação da Igreja de Roma por São Pedro, o Pescador, e o respectivo "aval" do Império acabou por ser uma resposta política a um problema que extravasava as esferas social e religiosa. Porém, esta componente política raramente é associada ao nascimento de Jesus Cristo e ao Natal na altura das pessoas se reunirem na noite da Consoada. Aqui, sobressai sempre o espírito familiar daquela noite de Belém. Mas, repare-se que mesmo nesse ambiente surgiu o primeiro sinal político, com a presença de emissários (Três Reis Magos) que, vindos do Próximo Oriente, deslocaram-se à Cisjordânia para ver o recém nascido "rei" dos judeus. Aliás, este acontecimento gerou de imediato preocupações políticas na corte do Rei Herodes, sentindo-se este ameaçado com o nascimento de Jesus Cristo.

 

Tal como se veio a verificar mais tarde, as preocupações de Herodes adensaram-se, tendo o nascimento de Jesus Cristo transformado-se numa problemática de poder para a corte hebraica, originando as mais vis e perversas tácticas de propaganda e contra-informação, de forma a fragilizar o novo "Rei dos Judeus" perante o Império e mais tarde face ao Sinédrio. Apesar disto, a verdade é que o Natal é unicamente associado a uma noite idílica de criação, esquecendo-se quase sempre os ventos turbulentos que tal acto trouxe consigo. Por isso, seria um exercício interessante e curioso se as famílias aproveitassem esta época festiva para se reunirem à mesa não apenas para comer e trocar oferendas, mas para discutir e debater a sociedade que os rodeia, os seus problemas e desafios. Estariam a celebrar verdadeiramente o nascimento de Jesus Cristo.

 

Publicado originalmente a 23 de Dezembro de 2015

 

Publicado por Alexandre Guerra às 09:36
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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2016

Bons conselhos

 

"As eleições não são ganhas com base nas realizações políticas, mas no que se promete para o futuro." Ao ler esta frase de Boris Johnson, ex-Mayor de Londres e actual ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, lembrei-me imediatamente de uma tirada de Josh Lyman, o principal assessor político da série The West Wing: "Campaigns is about promesses,  governing is about achievements". Bons conselhos para quem estiver interessado em segui-los, numa altura em que começam a haver algumas movimentações de bastidores, com vista à montagem das estratégias comunicacionais para as autárquicas do próximo ano. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:40
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Domingo, 28 de Agosto de 2016

Política e emoções

 

"Fala-se de política e o teu sentido de humor desaparece", diz Robert Redford, no papel do charmoso e descontraído Hubbell Gardiner, numa das muitas discussões políticas com Barbara Streisand, na pele da activista radical Katie Morosky, sua mulher. A passagem pertence ao intenso The Way We Were (1973) de Sidney Pollack, considerado por muitos como um dos grandes romances do cinema. Mas mais do que uma simples história de amor, o notável deste filme é a forma como Pollack consegue, muito ao estilo dele, envolver um drama emocional com a conjuntura política que se vai vivendo ao longo dos vários anos em que se vai desenrolando a acção. Da guerra civil espanhola, passando pela ameaça Nazi na Segunda Guerra Mundial, até à histeria anti-comunista da "caça às bruxas" levada a cabo pelo senador Joseph McCarthy, a dinâmica no ecrã criada entre Redford e Streisand é simplesmente arrebatadora. Um desses momentos é quando Streisand, na companhia de Redford, acaba de sair do Senado, após se ter manifestado contra o Governo norte-americano, e tem que enfrentar uma série de protestantes violentos. Redford, em defesa da sua mulher, acaba por ser agredido e ambos têm que se refugiar numa sala e é quando este se vira para Streisand e verbaliza a sua revolta contra o idealismo ingénuo e radical: "Isto é política de gente crescida. E é estúpida e perigosa."

 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 19:06
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Terça-feira, 7 de Junho de 2016

Da política às mulheres, a Itália é tudo menos recatada

 

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Segundo aquilo que se leu na imprensa, desde a semana passada que vigora um novo código de indumentária na RAI (televisão pública italiana), para que as suas pivots de informação tenham “uma imagem mais recatada, menos provocadora”. Decotes, vestidos justos e outros trajes que possam ser considerados mais arrojados estão proibidos. Em qualquer outra televisão pública europeia ou de outra parte do mundo esta medida até passaria despercebida e até poderia ser compreensível. Mas fazer isto na RAI é quase o mesmo que vestir uma tanga ao David de Miguel Ângelo. 

 

A Itália é um país fascinante a vários níveis e a RAI é também um pouco o espelho da realidade daquele país, com tudo o que tem de bom e de mau. A arte, a história, a cultura, a beleza, a elegância, o prazer, a gastronomia, a paisagem, tudo se conjuga de uma forma desorganizada, mas ao mesmo tempo irresistível. E com a política italiana passa-se o mesmo. Apesar de, por vezes, ser dominada por uma total ausência de ordem e lucidez, a verdade é que é impossível ficar-se indiferente ao que por lá se vai passando. De certa maneira, assemelha-se a uma arena romana que vai servindo para entreter o povo, onde tudo é possível, mesmo as maiores barbaridades, mas os aplausos não deixam de soar.

 

Em Itália tudo é vivido com intensidade, paixão e irracionalidade, para o melhor, mas também para o pior. Nada é inconsequente. Só em Itália se encontram fenómenos como o da deputada Cicciolina (hoje seria apenas uma pequena excentricidade, mas como explicar uma coisa destas ainda nos anos 80) ou de Sílvio Berlusconi (imagine-se, o político que se manteve durante mais tempo no cargo de primeiro-ministro desde a II GM). Ou nos anos mais recentes, o da ascensão meteórica de um palhaço (no sentido literal) na cena política transalpina. É por isso que o sistema político italiano é um autêntico laboratório. Em Itália tudo é possível e tudo é aceite com a maior das normalidade. Regras e normas ficam para os europeus "normais", já que os italianos preferem a incerteza do dia seguinte e a animação da anarquia sistémica. Mas, o curioso é que o sistema político italiano lá vai funcionando. À sua maneira, é certo.

 

Texto publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 13:28
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Terça-feira, 22 de Março de 2016

O privilégio de percorrer a Via Dolorosa

 

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Uma pintura de Giovanni Cariani (1490-1547) que retrata Verónica a ir de encontro a Jesus Cristo, quando este percorria a Via Dolorosa em direcção ao Calvário, para, com o seu véu, lhe limpar o sangue e suor do rosto, que ficou estampado no tecido. E assim terá ficado, tendo o "Véu de Verónica" se tornado numa das mais famosas "relíquias" do Cristianismo.

 

A Semana Santa, além do seu significado religioso, representa um dos acontecimentos políticos mais importantes da Humanidade: a chegada de Jesus Cristo, o "rei" dos judeus revoltosos contra o domínio de Roma, a Jerusalém. Os dias que se seguiram foram conturbados, de autênticas manobras políticas, conspirações e traições. No fim, a condenação de Jesus Cristo, não sem antes sofrer na caminhada pela Via Dolorosa com a cruz às costas, perante uma sociedade instrumentalizada e instigada. 

 

O percurso final de Jesus Cristo para o Calvário, na altura situado numa colina fora da cidade velha de Jerusalém, começa no local onde Pilatos terá "lavado as mãos" e desresponsabilizado-se do destino do "rei" dos judeus. A partir daí, a Via Dolorosa vai atravessando parte da cidade velha de Jerusalém, prolongando-se até à Igreja do Santo Sepulcro. É sem dúvida uma experiência única e de um interesse admirável. Já o fiz várias vezes, mas em dois anos seguidos conturbados, marcados pela violência da intifada de al Aqsa (de Setembro de 2000 a 2005), que afastaram por completo os turistas da Cidade Santa. Se é verdade que esse facto provocou um enorme rombo no comércio local, por outro lado, proporcionou uma experiência rara, ao permitir a um estrangeiro andar pelas muralhas da cidade de Jerusalém apenas em convívio exclusivo com os autóctones.

 

Efectivamente, andar horas pelas ruelas e vielas dentro das muralhas sem encontrar um único estrangeiro era algo impossível nos anos 90, quando se assistiu a uma revitalização do turismo em Jerusalém, fruto de um clima de desanuviamento entre palestinianos e israelitas. Mas, tudo mudou com o início da intifada de al Aqsa. E, foram tantas as vezes que estive na Igreja do Santo Sepulcro ou no Muro das Lamentações sem um único turista à vista. Esta situação prolongou-se por vários anos, e só até há poucos anos os visitantes começaram a regressar ao Médio Oriente.

 

Regressando à Via Dolorosa, é particularmente emocionante percorrer as várias estações que compõem aquele percurso e que assinalam diferentes momentos bíblicos dessa caminhada de Jesus Cristo, realizada nesta altura do ano há cerca de 2000 anos. É quase como que um exercício interior e introspectivo, aquele de encontrar as placas com as etapas da passagem de Jesus Cristo. Recordo que sem turistas e guias, lá fui descobrindo os vários pontos nas inúmeras vezes que caminhei pelas ruas da Via Dolorosa. Na altura, não deixei de pensar que a violência da intifada de al Aqsa teve consequências trágicas para israelitas e palestinianos, mas, ironicamente, foi essa mesma violência que acabou por criar um ambiente totalmente hostil ao turismo de massa, e que acabou por revelar aquilo que faz de Jerusalém um local especial na história da Humanidade.

 

Para mim, foi um privilégio visitar Jerusalém e percorrer a Via Dolorosa nesses tempos.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:42
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Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2015

O nascimento de Jesus Cristo e a política

 

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The Adoration of the Magi  
ANTONIO VIVARINI (Murano, 1440-1480) 
Gemäldegalerie, Berlin

 

O Natal é vivido pela maioria das pessoas como um acontecimento "familiar", no qual se celebra o nascimento do Rei dos Judeus (embora nas actuais sociedades pós-modernas já muito poucos façam essa associação). Nesta lógica de pensamento, a época natalícia é sobretudo um fenómeno social com um brutal impacto económico. No entanto, e remontando às origens do Natal, na pequena cidade de Belém, vislumbrava-se algo mais do que a componente familiar/social. Efectivamente, não foi preciso muito tempo para que o nascimento de Jesus Cristo fosse assumindo um carácter político e para que lhe tivesse sido atribuído uma dimensão para lá da manifestação familiar/social.

 

O Império Romano acabaria por constatar essa tendência nos seus terrítórios, ao ver transformado um fenómeno social e religioso numa questão política. A fundação da Igreja de Roma por São Pedro, o Pescador, e o respectivo "aval" do Império acabou por ser uma resposta política a um problema que extravasava as esferas social e religiosa. Porém, esta componente política raramente é associada ao nascimento de Jesus Cristo e ao Natal na altura das pessoas se reunirem na noite da Consoada. Aqui, sobressai sempre o espírito familiar daquela noite de Belém. Mas, repare-se que mesmo nesse ambiente surgiu o primeiro sinal político, com a presença de emissários (Três Reis Magos) que, vindos do Próximo Oriente, deslocaram-se à Cisjordânia para ver o recém nascido "rei" dos judeus. Aliás, este acontecimento gerou de imediato preocupações políticas na corte do Rei Herodes, sentindo-se este ameaçado com o nascimento de Jesus Cristo.

 

Tal como se veio a verificar mais tarde, as preocupações de Herodes adensaram-se, tendo o nascimento de Jesus Cristo transformado-se numa problemática de poder para a corte hebraica, originando as mais vis e perversas tácticas de propaganda e contra-informação, de forma a fragilizar o novo "Rei dos Judeus" perante o Império e mais tarde face ao Sinédrio. Apesar disto, a verdade é que o Natal é unicamente associado a uma noite idílica de criação, esquecendo-se quase sempre os ventos turbulentos que tal acto trouxe consigo. Por isso, seria um exercício interessante e curioso se as famílias aproveitassem esta época festiva para se reunirem à mesa não apenas para comer e trocar oferendas, mas para discutir e debater a sociedade que os rodeia, os seus problemas e desafios. Estariam a celebrar verdadeiramente o nascimento de Jesus Cristo.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:37
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Segunda-feira, 23 de Novembro de 2015

Saber estar em política...

 

No filme Cleópatra (1963) há uma cena em que Júlio César chega à cidade de Alexandria e vê da sua galé que é dia de mercado semanal junto ao porto, apercebendo-se que o Rei egípcio Ptolomeu não lhe providenciou qualquer guarda de honra de boas vindas, na esperança de que os populares se revoltassem contra o líder de Roma assim que este tentasse abrir caminho com os seus próprios soldados. Perspicaz, César abdicou da sua escolta pessoal e aparato imperial, dizendo simplesmente aos seus generais: "Vamos às compras!"

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:46
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