Segunda-feira, 17 de Abril de 2017

O dia em que entrevistei o "Mandela palestiniano"

 

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Ilustração de Marwan Barghouti da autoria de Durar Bacri/Haaretz

 

Marwan Barghouti é, desde há alguns anos, a maior figura palestiniana na liderança da resistência palestiniana. É aquela que mais carisma tem junto da população da Cisjordânia, sobretudo a que está mais identificada com a Fatah. Para muitos, é visto como o sucessor natural de Yasser Arafat, visto que o actual Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, pelo seu perfil moderado e apagado, nunca despertou grandes paixões numa região que vive diariamente inflamada pelo conflito com Israel. É, por isso, normal, que tanto palestinianos, como líderes mundiais, o vejam como o único homem capaz de conduzir a Palestina à independência. O problema é que Barghouti, que liderou as milícias Tanzim, braço armado da Fatah (uma acusação que ele sempre negou), está encarcerado nas prisões israelitas, sentenciado a passar ali o resto dos seus dias. Tendo sido em tempos secretário-geral da Fatah e alvo de inúmeras tentativas de assassinato por parte dos serviços secretos do Exército de Israel (Shin Bet), Barghouti foi um dos principais líderes da Intifada de al-Aqsa, acabando por ser preso em 2002, em Ramallah, pelas Forças de Segurança Israelitas (IDF). Desde então, a sua popularidade e notoriedade aumentaram exponencialmente, passando a ser uma voz activa atrás das grades e um símbolo da resistência palestiniana, o que lhe valeu a alcunha de "Mandela palestiniano".

 

Este Domingo, voltou a promover uma acção pacífica de contestação, ao dar início a uma greve de fome que envolve 700 reclusos palestinianos ligadas à Fatah, que se estendeu também a mais algumas centenas de prisioneiros da Jihad Islâmica e do Hamas. Esta iniciativa poderá reacender a tensão nas ruas das principais cidades da Cisjordânia e recentrar a problemática israelo-palestiniana no topo da agenda internacional, já que Barghouti tem hoje mais influência política do que tinha há 15 anos. Alguns governantes, como Ehud Barak, e responsáveis militares israelitas, estão conscientes desse facto. Aliás, o próprio Barak, aquando da detenção de Barghouti, ligou para Shaul Mofaz, na altura chefe do Estado-Maior das IDF, e disse-lhe o seguinte: “Have you lost your mind? What’s the story with Barghouti? If it’s part of your struggle against terrorism, it’s meaningless. But if it’s part of a grand plan to make him a future national leader of the Palestinians, then it’s a brilliant scheme, because what’s really missing in his résumé is direct affiliation with terrorism. He will fight for the leadership from inside prison, not having to prove a thing. The myth will grow constantly by itself.”

 

Conheci Barghouti um ano antes, quando ele era secretário-geral da Fatah. Fui entrevistá-lo. No seu escritório em Ramallah, lá estava ele, uma figura de pequena estatura, com ar amistoso e com o seu famoso bigode (hoje anda de barba). Cordial e acessível, embora não exibisse uma simpatia excessiva, o militante da Fatah demonstrou desde logo uma convicção política firme. A entrevista foi partilhada com um jornalista da agência de notícias alemã, e apesar das insistências, Barghouti nunca admitiu que era o líder das milícias Tanzim, responsáveis por vários atentados terroristas contra Israel. Recordo que ele se serpenteava como um verdadeiro político na forma como respondia às perguntas mais sensíveis que lhe eram colocadas, chegando mesmo a dizer que acreditava que a Palestina ia ser independente “dentro de cinco anos” (foi este o título da entrevista depois publicada no jornal Público. No entanto, a História viria demonstrar que Barghouti estava errado). Relembro que dias antes, Barghouti tinha escapado a um atentado selectivo das IDF contra o carro onde viajava. Um ano mais tarde, os soldados israelitas acabariam por deter Barghouti, sendo condenado posteriormente a cinco penas perpétuas. Quando,10 anos depois, foi tornado público um importante acordo de troca de prisioneiros que estava a ser forjado entre o Governo israelita e o Hamas, uma centelha de esperança reacendeu-se para milhares de palestinianos, que viram ali uma oportunidade para fazer regressar a casa o carismático Barghouti. Mas, rapidamente essa esperança se esvaneceu. Sabendo do prestígio e da notoriedade do ex-líder das Tanzim, as autoridades israelitas tiveram o cuidado de deixar bem claro desde o início desse processo de troca de prisioneiros, que Barghouti não estava incluído nas listas dos palestinianos a serem libertados. Mas, a questão é que Ehud Barak foi certeiro quando ligou a Mofaz, porque quanto mais tempo Barghouti estiver preso, mais o seu carisma e a sua capacidade de mobilização popular vão aumentando. É muito provável que, para Israel, Barghouti se torne cada vez mais um problema atrás das grades do que em liberdade. Para já, o "Mandela palestiniano", com apenas 57 anos, vai fazendo a sua resistência pacífica, que lhe poderá vir a ser muito mais eficaz do que os anos de violência que perpetrou na tal luta pela independência que sempre almejou.

 

Publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:47
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Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

À conversa com o "Mandela palestiniano"

 

 

Corria o Verão de 2001. O Médio Oriente estava a “ferro e fogo”. A intifada de al Aqsa estava prestes a entrar no segundo ano, com terroristas suicidas a fazerem-se explodir quase todas as semanas nas cidades israelitas e os territórios ocupados da Cisjordânia e da Faixa de Gaza em autêntico estado de sítio.

 

Em Ramallah, o autor destas linhas, tinha uma entrevista marcada com aquele que era, talvez, o principal líder da segunda intifida, sobretudo junto da população mais jovem.

 

Marwan Barghouti, destacado dirigente da Fatah (então secretário-geral) e, alegadamente, fundador das milícias Tanzim, uma espécie de braço armado daquele movimento político, era há algum tempo um dos homens mais procurados pelas forças de seguranças israelitas (IDF).

 

No seu escritório em Ramallah, lá estava Barghouti, uma figura de pequena estatura, com ar amistoso e com o seu famoso bigode. Cordial e acessível, embora não exibisse uma simpatia excessiva, o militante da Fatah demonstrou desde logo uma convicção política firme.

 

A entrevista foi partilhada com um jornalista da agência de notícias alemã, e apesar das insistências, Barghouti nunca admitiu que era o líder das milícias Tanzim, responsáveis por vários atentados terroristas contra Israel.

 

Serpenteava-se como um verdadeiro político na forma como respondia às perguntas mais sensíveis que lhe eram colocadas, chegando mesmo a dizer que acreditava que a Palestina ia ser independente “dentro de cinco anos” (Foi este o título da entrevista depois publicada no jornal Público. No entanto, a História viria demonstrar que Barghouti estava errado).

 

Quem não estava errado eram os interlocutores de Barghouti, quando o confrontaram com a sua relação com as Tanzim, já que hoje não parece haver muitas dúvidas quanto a esse facto. Aliás, uma relação que Israel nunca duvidou da sua existência. De tal forma, que dias antes desta entrevista, aquele militante palestiniano tinha escapado a um atentado selectivo das IDF contra o carro onde viajava.

 

Um ano mais tarde, os soldados israelitas acabariam por deter Barghouti, sendo condenado posteriormente a 5 penas perpétuas.

 

Quando, na semana passada, foi tornado público o acordo de troca de prisioneiros que estava a ser forjado entre o Governo israelita e o Hamas, uma centelha de esperança reacendeu-se para milhares de palestinianos, que viram aqui uma oportunidade para fazer regressar a casa o carismático Barghouti. Mas, rapidamente essa esperança se esvaneceu.

 

Sabendo do prestígio e da notoriedade do ex-líder das Tanzim, a quem muitos chamam de o “Mandela palestiniano”, as autoridades israelitas tiveram o cuidado de deixar bem claro desde o início deste processo de troca de prisioneiros, que se prolongará durante os próximos meses, que Barghouti não estava incluído nas listas dos palestinianos a serem libertados.

 

Texto originalmente publicado no Forte Apache.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 10:57
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Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Percepções de quem não acredita na criação de um Estado nos próximos cinco anos

 

 

Mahmud Hams/Agence France-Presse/Getty Images

 

Khalil Shikaki, director do Palestinian Center for Policy and Survey Research, escreveu, em artigo de opinião no New York Times, que o apoio popular na Palestina a ataques armados contra judeus civis em território  israelita tem vindo a aumentar consideravelmente. De tal forma, que os índices de hoje são mais elevados do que em 2005, o que não deixa de ser algo surpreendente, tendo em conta que naquele ano ainda estava a decorrer a intifada de al-Aqsa. 

 

O Diplomata desconhecia estes dados mais recentes, mas tendo em conta o prestígio de Shikaki, talvez o especialista mais credível palestiniano em termos de estudos de opinião e de sondagens, não existem razões para duvidar da informação que agora divulga.

 

Perante aquilo que Shikaki escreveu nas páginas do NYT, o Diplomata foi à descoberta do estudo para tentar compreender as razões que sustentam a opinião dos palestinianos. Uma das explicações poderá estar no facto do inquérito ter sido realizado entre 5 e 7 de Março na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, poucas semanas após o fim dos ataques israelitas naquele enclave.

 

É bastante provável que o conflito de 22 dias na Faixa de Gaza tenha alimentado o sentimento anti-israelita para níveis muito altos. Mas, o estudo de opinião apresenta outras conclusões igualmente bastante preocupantes quanto à percepção da opinião pública palestiniana.

 

O Hamas e o seu líder em Gaza, Ismail Haniyeh, parecem estar a fortalecer a sua popularidade junto dos palestinianos, ao mesmo tempo que a Fatah e o Presidente Mahmoud Abbas estão a perder influência. Também o moderado primeiro-ministro Salam Fayyad, que o Diplomata conheceu e entrevistou há uns anos em Gaza, vê a sua legitimidade a decrescer.

 

Apesar desta tendência na opinião pública, a Fatah continua a verificar valores de popularidade mais elevados que o Hamas, sobretudo devido à forte implantação da primeira na Cisjordânia. Porém, se fossem realizadas neste momento eleições presidenciais, Haniyeh ganharia com 47 por cento dos votos contra os 45 por cento de Mahmoud Abbas.  

 

Curiosamente, Haniyeh, embora sendo do Hamas, é mais popular na Cisjordânia do que Abbas. Este, por sua vez, receberia mais votos na Faixa de Gaza do que o primeiro. Aqui, a explicação poder-se-á encontrar na predisposição mais primária dos eleitores em criticarem os seus líderes mais directos: Abbas na Cisjordânia e Haniyeh na Faixa de Gaza.

 

Sobre o processo de paz as conclusões são igualmente pessimistas. 73 por cento dos palestinianos têm poucas expectativas sobre a possibilidade de nos próximos cinco anos ser criado  um Estado palestiniano independente.

 

Quando se associa a política israelita ao processo de paz, 70 por cento dos palestinianos não vislumbra diferenças entre os partidos da direita, do centro ou da esquerda.

 

O Diplomata vai voltar a este estudo para falar sobre uma outra personagem palestiniana, sem dúvida a mais popular desde que Yasser Arafat morreu, e que entretanto está cumprir pena perpétua numa cadeia israelita: Marwan Barghouti

  

Publicado por Alexandre Guerra às 09:08
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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