Quinta-feira, 13 de Abril de 2017

A compaixão feminina na Via Dolorosa

 

19378801_ZWsat.jpeg

Uma pintura de Giovanni Cariani (1490-1547) que retrata Verónica a ir de encontro a Jesus Cristo, quando este percorria a Via Dolorosa em direcção ao Calvário, para, com o seu véu, lhe limpar o sangue e suor do rosto, que ficou estampado no tecido. E assim terá ficado eternamente, tendo o "Véu de Verónica" se tornado numa das mais famosas "relíquias" do Cristianismo.

 

"No meio da multidão que O segue, há um grupo de mulheres de Jerusalém: conhecem-No. Vendo-O naquelas condições, misturam-se com a multidão e sobem para o Calvário. Choram. 

 

Jesus vê-as, entende o seu sentimento de compaixão. E, mesmo num momento trágico como aquele, quer deixar uma palavra que ultrapasse a simples compaixão. Deseja que nelas, que em nós não haja apenas comiseração mas conversão do coração. [...]

 

Muitas vezes as situações não melhoram, porque não nos empenhámos em fazê-las mudar. Retiramo-nos sem fazer mal a ninguém, mas também sem fazer o bem que poderíamos e deveríamos fazer. E talvez alguém esteja a sofrer por isso, pela nossa evasão."  

Do Evangelho segundo Lucas 23, 27-28

 

A Semana Santa, além do seu significado religioso, representa um dos acontecimentos políticos e sociais mais importantes da Humanidade: a chegada de Jesus Cristo, o "rei" dos judeus revoltosos contra o domínio de Roma, a Jerusalém. Os dias que se seguiram foram conturbados, de autênticas manobras políticas, conspirações e traições. No fim, a condenação de Jesus Cristo, não sem antes sofrer na caminhada pela Via Dolorosa com a cruz às costas, perante uma sociedade instrumentalizada e instigada. O percurso final de Jesus Cristo para o Calvário, na altura situado numa colina fora da cidade velha de Jerusalém, começa no local onde Pilatos terá "lavado as mãos", desresponsabilizando-se do destino do "rei" dos judeus. A partir daí, a Via Dolorosa vai atravessando parte da cidade velha de Jerusalém, prolongando-se até à Igreja do Santo Sepulcro. 

 

É sem dúvida uma experiência única e de um interesse admirável. Percorri-a algumas vezes, primeiro no Verão de 2001 e depois em 2002, anos marcados pela violência da intifada de al Aqsa (de Setembro de 2000 a 2005), que afastaram por completo os turistas da Cidade Santa. Se é verdade que esse facto provocou um enorme rombo no comércio local, por outro lado, proporcionou-me uma experiência rara, ao permitir a um estrangeiro andar pelas muralhas da cidade de Jerusalém apenas em convívio exclusivo com os (poucos) locais. É muito emocionante percorrer as várias estações que compõem a Via Dolorosa e que assinalam diferentes momentos bíblicos dessa caminhada de Jesus Cristo, realizada nesta altura do ano há cerca de 2000 anos. É um exercício interior e introspectivo, que nos confronta com o mal e sofrimento humano, mas também com a solidariedade e o amor do próximo. Pensando um pouco naqueles acontecimentos, percebemos que são sobretudo as mulheres que vão em auxílio de Jesus Cristo na sua caminhada em sofrimento. Maria, Verónica e depois as "mulheres de Jerusalém", choram pelo filho de Deus e acompanham-No com toda a sua compaixão ao Calvário.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:17
link do post | comentar
partilhar
Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

O nascimento de Jesus Cristo e a política

 

19124964_bMLes.jpeg

The Adoration of the Magi  
ANTONIO VIVARINI (Murano, 1440-1480) 
Gemäldegalerie, Berlin

 

O Natal é vivido pela maioria das pessoas como um acontecimento "familiar", no qual se celebra o nascimento do Rei dos Judeus (embora nas actuais sociedades pós-modernas já muito poucos façam essa associação). Nesta lógica de pensamento, a época natalícia é sobretudo um fenómeno social com um brutal impacto económico. No entanto, e remontando às origens do Natal, na pequena cidade de Belém, vislumbrava-se algo mais do que a componente familiar/social. Efectivamente, não foi preciso muito tempo para que o nascimento de Jesus Cristo fosse assumindo um carácter político e para que lhe tivesse sido atribuído uma dimensão para lá da manifestação familiar/social.

 

O Império Romano acabaria por constatar essa tendência nos seus terrítórios, ao ver transformado um fenómeno social e religioso numa questão política. A fundação da Igreja de Roma por São Pedro, o Pescador, e o respectivo "aval" do Império acabou por ser uma resposta política a um problema que extravasava as esferas social e religiosa. Porém, esta componente política raramente é associada ao nascimento de Jesus Cristo e ao Natal na altura das pessoas se reunirem na noite da Consoada. Aqui, sobressai sempre o espírito familiar daquela noite de Belém. Mas, repare-se que mesmo nesse ambiente surgiu o primeiro sinal político, com a presença de emissários (Três Reis Magos) que, vindos do Próximo Oriente, deslocaram-se à Cisjordânia para ver o recém nascido "rei" dos judeus. Aliás, este acontecimento gerou de imediato preocupações políticas na corte do Rei Herodes, sentindo-se este ameaçado com o nascimento de Jesus Cristo.

 

Tal como se veio a verificar mais tarde, as preocupações de Herodes adensaram-se, tendo o nascimento de Jesus Cristo transformado-se numa problemática de poder para a corte hebraica, originando as mais vis e perversas tácticas de propaganda e contra-informação, de forma a fragilizar o novo "Rei dos Judeus" perante o Império e mais tarde face ao Sinédrio. Apesar disto, a verdade é que o Natal é unicamente associado a uma noite idílica de criação, esquecendo-se quase sempre os ventos turbulentos que tal acto trouxe consigo. Por isso, seria um exercício interessante e curioso se as famílias aproveitassem esta época festiva para se reunirem à mesa não apenas para comer e trocar oferendas, mas para discutir e debater a sociedade que os rodeia, os seus problemas e desafios. Estariam a celebrar verdadeiramente o nascimento de Jesus Cristo.

 

Publicado originalmente a 23 de Dezembro de 2015

 

Publicado por Alexandre Guerra às 09:36
link do post | comentar | ver comentários (5)
partilhar
Terça-feira, 22 de Março de 2016

O privilégio de percorrer a Via Dolorosa

 

50831-road-to-calvary-with-veronica-s-veil-cariani

Uma pintura de Giovanni Cariani (1490-1547) que retrata Verónica a ir de encontro a Jesus Cristo, quando este percorria a Via Dolorosa em direcção ao Calvário, para, com o seu véu, lhe limpar o sangue e suor do rosto, que ficou estampado no tecido. E assim terá ficado, tendo o "Véu de Verónica" se tornado numa das mais famosas "relíquias" do Cristianismo.

 

A Semana Santa, além do seu significado religioso, representa um dos acontecimentos políticos mais importantes da Humanidade: a chegada de Jesus Cristo, o "rei" dos judeus revoltosos contra o domínio de Roma, a Jerusalém. Os dias que se seguiram foram conturbados, de autênticas manobras políticas, conspirações e traições. No fim, a condenação de Jesus Cristo, não sem antes sofrer na caminhada pela Via Dolorosa com a cruz às costas, perante uma sociedade instrumentalizada e instigada. 

 

O percurso final de Jesus Cristo para o Calvário, na altura situado numa colina fora da cidade velha de Jerusalém, começa no local onde Pilatos terá "lavado as mãos" e desresponsabilizado-se do destino do "rei" dos judeus. A partir daí, a Via Dolorosa vai atravessando parte da cidade velha de Jerusalém, prolongando-se até à Igreja do Santo Sepulcro. É sem dúvida uma experiência única e de um interesse admirável. Já o fiz várias vezes, mas em dois anos seguidos conturbados, marcados pela violência da intifada de al Aqsa (de Setembro de 2000 a 2005), que afastaram por completo os turistas da Cidade Santa. Se é verdade que esse facto provocou um enorme rombo no comércio local, por outro lado, proporcionou uma experiência rara, ao permitir a um estrangeiro andar pelas muralhas da cidade de Jerusalém apenas em convívio exclusivo com os autóctones.

 

Efectivamente, andar horas pelas ruelas e vielas dentro das muralhas sem encontrar um único estrangeiro era algo impossível nos anos 90, quando se assistiu a uma revitalização do turismo em Jerusalém, fruto de um clima de desanuviamento entre palestinianos e israelitas. Mas, tudo mudou com o início da intifada de al Aqsa. E, foram tantas as vezes que estive na Igreja do Santo Sepulcro ou no Muro das Lamentações sem um único turista à vista. Esta situação prolongou-se por vários anos, e só até há poucos anos os visitantes começaram a regressar ao Médio Oriente.

 

Regressando à Via Dolorosa, é particularmente emocionante percorrer as várias estações que compõem aquele percurso e que assinalam diferentes momentos bíblicos dessa caminhada de Jesus Cristo, realizada nesta altura do ano há cerca de 2000 anos. É quase como que um exercício interior e introspectivo, aquele de encontrar as placas com as etapas da passagem de Jesus Cristo. Recordo que sem turistas e guias, lá fui descobrindo os vários pontos nas inúmeras vezes que caminhei pelas ruas da Via Dolorosa. Na altura, não deixei de pensar que a violência da intifada de al Aqsa teve consequências trágicas para israelitas e palestinianos, mas, ironicamente, foi essa mesma violência que acabou por criar um ambiente totalmente hostil ao turismo de massa, e que acabou por revelar aquilo que faz de Jerusalém um local especial na história da Humanidade.

 

Para mim, foi um privilégio visitar Jerusalém e percorrer a Via Dolorosa nesses tempos.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:42
link do post | comentar
partilhar
Quarta-feira, 22 de Agosto de 2012

A velhinha que transformou Jesus Cristo num "macaco"

 

O antes e o depois do restauro ao Ecce Homo

 

Quantas vezes ouviu a célebre frase do “faça você mesmo”? Certamente que muitas e, provavelmente, já a terá levado à prática por diversas ocasiões, sobretudo nestes tempos de crise, onde cada euro poupado é um euro ganho.

 

Mas atenção caro leitor, se é verdade que o seu empenho é meritório e louvável, pense bem antes de se meter por territórios desconhecidos, arriscando-se a fazer “borrada” (perdoe-me o leitor a linguagem mais brejeira).

 

Pois, foi literalmente isso que aconteceu numa operação de restauro espontâneo levado a cabo por uma velhinha de 80 anos em Espanha que, perante a deterioração do fresco Ecce Homo, de Elías García Martínez, meteu mãos à obra, e em apenas duas horas, espante-se o leitor, transformou Jesus Cristo em algo parecido com um "macaco bastante peludo na cabeça" (é uma interpretação do correspondente da BBC News e não deste vosso autor)

 

Perante tal “profanação” ou "intervenção artística" (dependendo da perspectiva) daquela obra do Santuário da Misericórdia, que fica situado num topo do monte na localidade de Borja, Saragoça, os alarmes soaram em toda a Espanha.

 

Ninguém dúvida das boas intenções da senhora Cecilia Giménez, residente na paróquia do Santuário, que já veio dizer que o “fez com toda a boa fé do mundo”, para poder meter a igreja mais bonita. Além disso, disse que não fez nada às escondidas porque toda a gente que ia entrando no Santuário a via a pintar. Cecilia Giménez escreveu mesmo uma legenda por debaixo do fresco que dizia: "Este es el resultado de dos horas de trabajo a la Virgen de la Misericordia".

 

Mas o mais irónico desta história, e como referia o El País, desde o meio da manhã desta Quarta-feira já toda a Espanha conhecia o Santuário da Misericórdia e sobretudo o Ecce Homo, uma obra do início do século XIX que não é particularmente valiosa.

 

Ou melhor, não era particularmente valiosa. Porque, depois da intervenção transformista levada a cabo pela senhora Cecilia Giménez, o Ecce Homo é, agora, uma verdadeira obra de arte, certamente com valor de mercado. 

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 20:48
link do post | comentar
partilhar
Domingo, 4 de Abril de 2010

Aldeia síria é o único local do mundo onde ainda se fala aramaico dos tempos bíblicos

 

No dia em que se celebra a ressurreição de Jesus Cristo, o Diplomata sugere uma reportagem da BBC News sobre os esforços que estão a ser feitos numa pequena aldeia perto de Damasco para evitar que a língua do "Salvador" se extinga.

 

Maaloula é o único local no mundo onde ainda existem pessoas, quer cristãos, quer muçulmanos, que falam aramaico praticamente idêntico ao dos tempos bíblicos, no entanto, aquela aldeia "escondida" nas montanhas tem visto, ao longo dos últimos anos, os seus autoctones partirem para outras paragens à procura de melhores condições de vida.

 

Perante esta realidade, as autoridades locais e várias pessoas daquela comunidade estão empenhadas em manter viva a língua de Cristo na aldeia, através de programas especiais de ensino e de outras iniciativas. Mas, a não ser que seja feito um "esforço global", nomeadamente através de institutos estrangeiros, é muito provavel que o aramaico não consiga sobreviver.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 14:58
link do post | comentar
partilhar

About

O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

Facebook

O Diplomata

Promote Your Page Too

Rubricas

Momentos com história; Leituras; Registos; Pontos de interesse; O despacho...; Apontamentos históricos; Dispatches from...

subscrever feeds

Contacto

maladiplomatica@hotmail.com

tags

todas as tags

pesquisa

arquivos