Quarta-feira, 18 de Março de 2015

Sem surpresa

 

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Foto: Tomer Appelbaum/Haaretz

 

É difícil compreender como alguns jornais internacionais classificam de "surpreendente" a vitória do Likud de Benjamin Netanyahu nas eleições legislativas de ontem em Israel. É certo que à luz de algumas sondagens, a vitória, tangencial, estaria entregue à coligação de centro-esquerda. Mas, para quem conhece minimamente aquele país e a sua história política, sabe que tudo é possível no que diz respeito ao seu sistema eleitoral. Surpresas, mesmo, só para quem andasse muito distraído. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:15
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Terça-feira, 15 de Julho de 2014

Um conflito, dois Estados

 

Ataque das IDF sobre a Faixa de Gaza/Foto: Haaretz 

 

Vendo bem as coisas, poder-se-á classificar a guerra entre Israel e a Faixa de Gaza como um conflito entre Estados. É certo que não é exactamente nos moldes clássicos, mas nem por isso deixa de ser um conflito que opõe um Estado de jure e de facto (Israel) a uma outra entidade que, na prática, é, de há uns anos a esta parte, um Estado de facto (Faixa de Gaza). 

 

Um Estado que, com as suas autoridades próprias, muito pouco tem a ver com a realidade política da Cisjordânia. Também social e culturalmente existem algumas diferenças consideráveis entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, tornando-as duas realidades cada vez mais distintas. 

 

Gaza é um Estado que, apesar de exíguo, consegue ser substancialmente maior e com mais população que muitos micro-Estados que existem no sistema internacional. Com 40 quilómetros de comprimento e dez de largura, a Faixa de Gaza alberga 1,7 milhões de palestinianos. No entanto, 21 por cento da população vive em pobreza absoluta e a taxa de desemprego está acima dos 40 por cento, um valor superior àquele que se verifica na Cisjordânia.  

 

É um Estado pobre, isolado por mar e por terra, e cuja economia assenta sobretudo no comércio de contrabando com o Egipto, através dos famosos túneis que ligam o enclave ao deserto do Sinai. É uma economia muito débil, mas funciona minimamente, tendo em conta a conjuntura.

 

O poder está formalmente entregue ao Hamas e é exercido, dentro das possibilidades, na gestão dos serviços públicos. Ou seja, o poder não está na rua, embora esteja nas mãos de um partido ou movimento que está claramente associado a actividades terroristas e a uma ideologia radical, que vê na destruição de Israel o seu maior objectivo. É verdade que o Hamas tem uma vertente social na Faixa de Gaza que não pode nem deve ser descurada, mas que em última instância está orientada para uma determinada forma de se ver a realidade do Médio Oriente e, em concreto, a dinâmica israelo-palestiniana.

  

A Faixa de Gaza não é nem mais nem menos do que muitos Estados pobres e exíguos, sem recursos, e geridos por um poder legítimo (eleições), mas altamente discutível quanto aos seus padrões. Porque, vendo bem, a Faixa de Gaza tem os três elementos constitutivos de um Estado: território, população e (quase) soberania. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:53
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Segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Sentido de oportunidade

 

Perante o anúncio da criação de um califado no Iraque e na Síria, por parte do grupo radical sunita do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS), Israel parece querer aproveitar a dinâmica de desmembramento das nações inimigos, e ontem o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu apelou à criação de um Estado curdo independente, que iria retirar território à Síria, Irão, Iraque e Turquia. É caso para dizer que Netanyahu teve sentido de oportunidade.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:03
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Quarta-feira, 29 de Maio de 2013

UE "abre as portas" à internacionalização do conflito na Síria

 

Forças leais a Bashar al-Assad treinam em local incerto, 22 de Maio de 2013/Foto: Reuters

 

A decisão do último Conselho Europeu dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, reunido durante 12 horas, abriu formalmente as portas à internacionalização e à escalada do conflito na Síria, ao deixar, na prática, a cada Estado-membro o critério de enviar armas para os rebeldes sírios.

 

Apesar dos 27 se terem comprometido a não enviar qualquer material bélico para aquele país até ao dia 1 de Agosto, altura em que será revista esta posição, este gesto não é mais do que uma declaração de princípios, já que formalmente o embargo de exportação de armas que tinha sido imposto pela UE à Síria não foi renovado. 

 

Mais do que internamente -- porque é bastante provável que nenhum dos 27 vá enviar armas para a Síria até Agosto --, esta decisão do Conselho Europeu tem implicações na percepção que algumas potências terceiras com interesses na Síria possam ter. O caso mais imediato é o da Rússia que já reagiu com desagrado à posição da UE.

 

Para o Kremlin, a diplomacia europeia está a enviar sinais claros de que pretende, a curto prazo, começar a fornecer armamento à oposição síria. Uma interpretação que o autor destas linhas considera ser pertinente, atendendo à deterioração que se vai sentido no terreno, com mais de 80 mil mortos e 1,5 milhões de refugiados.

 

Na verdade, a situação está a tornar-se insustentável para as chancelarias ocidentais mais poderosas, que começam a ter muitas dificuldades para explicar a passividade em relação ao que se passa na Síria, ao mesmo tempo que prestam apoio militar noutros cenários de guerra, provavelmente nesta altura bem menos dramáticos e sangrentos.

 

Neste sentido, o chefe da diplomacia britânica, William Hague, fez questão de sublinhar que o dia 1 de Agosto não representa qualquer "deadline", porque o Reino Unido poderá começar a partir de agora a armar os rebeldes sírios, no entanto, não existem planos para tal. Pelo menos até à ronda de negociações de Genebra agendada para meados de Junho.

 

Quem não vai esperar pela próxima ronda de negociações é a Rússia, que reagiu de imediato à decisão do Conselho Europeu com o anúncio do envio do poderoso sistema de míssil terra-ar S-300 comparável ao famoso sistema americano Patriot.

 

A decisão do Kremlin veio dar uma nova dimensão ao conflito sírio, uma vez que Israel já avisou, através do seu ministro da Defesa, Moshe Yaloon, que não tolerará a instalação dos S-300 na Síria. Para já, o Governo hebraico informa que os sistemas S-300 ainda não saíram da Rússia. Por outro lado, surgem notícias de que o Kremlin poderá aproveitar esta situação para negociar com Israel. Ou seja, recua na questão dos S-300 em troca do compromisso israelita de não efectuar raides aéreos sobre território sírio. 

 

Por esta altura em Israel as forças armadas hebraicas (IDF) devem estar em alerta máximo, perante a volatilidade na Síria e o crescente envolvimento de mais actores. Como escrevia o Haaretz, Israel está entre os guerrilheiros do Hezbollah e os mísseis russos, jogando cada vez mais os seus interesses em território sírio.

 

Neste momento, existe a ideia em Israel que uma derrota massiva do Hezbollah na Síria poderia representar um golpe fatal para aquela organização terrorista no Irão e no Líbano. E nesta lógica, Telavive pretendia aproveitar o apoio europeu aos rebeldes sírios para ajudar a combater os  homens do Hezbollah, porém, a movimentação mais recente da Rússia veio alterar esse cenário.

 

Em Washington, bem longe, a administração do Presidente Barack Obama critica a atitude da Rússia ao mesmo tempo que se congratula com a decisão do Conselho Europeu. Mas para já, a Casa Branca não parece muito disposta a enviar armamento para os rebeldes, apesar das pressões de muitos republicanos nesse sentido. 

 

Caso esta escalada se acentue, a Síria poderá tornar-se no palco de um potencial conflito regional. As perspectivas não são animadoras, até porque não se esperam grandes resultados da conferência de Genebra.

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 00:05
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Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Os esforços da Liga Árabe para reanimar a iniciativa de paz de 2002

 

Imagem: The Economist


Publicado por Alexandre Guerra às 18:29
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Terça-feira, 12 de Março de 2013

Benjamin Netanyahu "liberta-se" dos ultra-ortodoxos

 

 

Uma das consequências do espinhoso processo de formação de Governo em Israel actualmente em curso é o afastamento das formações partidárias ultra-ortodoxas do espectro político executivo que, de uma maneira ou de outra, têm marcado presença ou influência nos governos de direita desde a fundação do Estado hebraico em 1948.

 

Benjamin Netanyahu, vencedor das últimas eleições, deverá optar por alianças com partidos mais moderados, libertando-se, assim, dos constrangimentos impostos pelos ultra-ortodoxos. Porque, o problema que se tem colocado ao longo dos anos na coabitação com aquelas formações não é apenas político. É sobretudo um choque permanente entre diferentes modelos de sociedade. Nem "falcões" como Netanyahu se identificam com o paradigma apregoado pelos ultra-ortodoxos. 

 

Além disso, a classe política e a opinião pública em geral começam a demonstrar uma insatisfação crescente perante aquilo que consideram ser a imposição moral e religiosa de um grupo privilegiado de pessoas que vivem à margem da sociedade e que, sob o pretexto do ensino dos valores basilares da Torah, vão obtendo regalias. Financiamentos governamentais ou a excusa de serviço militar obrigatório são apenas alguns exemplos dos benefícios da comunidade ultra-ortodoxa.

 

Actualmente, cerca de 10 por cento dos israelitas são ultra-ortodoxos, um número que deverá aumentar para 15 por cento em 2025. É uma questão sensível, já que a lógica de ensino ultra-ortodoxo assenta quase exclusivamente no estudo da Torah, excluindo áreas de saber como Matemática, Inglês ou ciências. A par desta realidade, os mais velhos continuam a estudar a tempo inteiro graças aos apoios estatais. 

 

Com a comunidade ultra-ortodoxa "fechada" ao resto da sociedade e virada para si mesma, a consequência natural é um maior desemprego e uma taxa de pobreza mais elevada comparativamente ao resto da sociedade.

 

Mas, talvez o principal desafio para os governantes nos próximos tempos seja gerir a fricção crescente entre a comunidade ultra-ortodoxa e o resto da sociedade israelita (já para não falar dos palestinianos).

 

Recentemente, os activistas ultra-ortodoxos defenderam algumas medidas consideradas radicais e que estão a gerar desconforto entre os israelitas, nomeadamente a tentativa de incutir alguns costumes restritivos na indumentária das mulheres judaicas.

 

Ainda mais preocupante e polémica é a medida que prevê práticas consideradas segregacionistas, tal como a utilização de autocarros e passeios exclusivamente para ultra-ortodoxos, estando os palestinianos proibidos de coabitarem naqueles espaços.

 

Netanyahu, talvez já com pouca paciência para os ensinamentos dos ultra-ortodoxos e antecipando futuros problemas, está a tentar libertar o seu novo Governo das amarras dos radicais da Torah, o que também poderá ser visto com alguma esperança pela sociedade israelita mais "mainstream".  

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 22:39
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Segunda-feira, 4 de Março de 2013

Obama não faz "bluff" em relação ao Irão, diz Biden

 

Joe Biden, vice-Presidente dos Estados Unidos/Chip Somodevilla/Getty Images

 

Joe Biden falou esta Segunda-feira na conferência anual da Aipac, o maior lobby pro-israelita nos Estados Unidos, para dizer palavras que certamente agradaram à comunidade judaica naquele país. O vice-Presidente dos Estados disse que a ameaça de uso da força contra o Irão feita por Barack Obama não é um "bluff".

 

Biden deixou bem claro que a opção militar continua "em cima da mesa" perante a intransigência do Irão em cessar o seu programa nuclear, no entanto, sublinhou que Washington privilegiará sempre a via diplomática. 

 

Ora, mas é precisamente esta hesitação e inacção demonstrada pela Casa Branca em relação a Teerão que a comunidade judaica nos Estados Unidos não compreende. Para os sionistas e judeus mais radicais a solução defendida é uma acção militar preventiva, do estilo de um ataque nocturno às principais instalações nucleares iranianas.

 

É por esta solução que a comunidade judaica faz agora lobby junto de Obama. Resta saber até quando irá resistir o Presidente americano às pressões do lobby judaico, sobretudo se, entretanto, o Irão voltar a desafiar a comunidade internacional com o anúncio de mais etapas no seu programa nuclear. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:10
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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013

A bomba ainda está longe, mas o dossier iraniano serve os interesses de Netanyahu

 

 

Em Outubro último, e já depois da intervenção cénica do primeiro-minisro israelita, Benjamin Netanyahu, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o Diplomata escrevia que "qualquer observador mais atento sabe que Israel jamais permitirá que Teerão chegue a um estádio próximo da bomba atómica". E acrescentava ainda "que se até aqui não houve qualquer acção militar israelita, isso deve-se não tanto às pressões de Washington para a contenção, mas sim ao facto de Israel ainda não se sentir verdadeiramente ameaçado com o poder nuclear iraniano".


O Diplomata continua acreditar nesta lógica, reforçada pelas declarações proferidas esta Quinta-feira por Netanyahu, durante o tradicional encontro anual com os embaixadores israelitas colocados no estrangeiro. "Bibi" disse que o Irão ainda não passou a tal "linha vermelha" traçada por Israel. 


Provavelmente, o Irão ainda estará longe de chegar a essa "linha vermelha" que, de acordo com Israel, será quando 90 por cento do processo já estiver concluído. Netanyahu tem dito que isso pode acontecer já na Primavera ou no Verão. O Diplomata dúvida, embora compreenda o "jogo" de Netanyahu, que vai gerindo o dossier nuclear iraniano em conformidade com os seus interesses.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 19:22
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Terça-feira, 27 de Novembro de 2012

A relatividade das palavras no Médio Oriente

 

Em Israel o impacto das palavras esbate-se com a dureza da realidade, e aquilo que poderia ser visto como um autêntico disparate em qualquer outra parte do mundo, é interpretado em terras judaicas como mais uma opinião (válida) no meio de tantas outras no que diz respeito ao relacionamento do Estado hebraico com os seus vizinhos inimigos.

 

É por isso que quando Robert Eisenman, conhecido escritor, investigador de assuntos bíblicos e professor de religião, defende no Jerusalem Post a reocupação do Sinai (Egipto) por parte de Israel, não se ouvem vozes de protesto ou de espanto.

 

Eisenman, que não é propriamente um desconhecido, defende na prática a invasão de um Estado soberano, mas nem por isso motiva qualquer reacção inflamada, seja de quem for.

 

As palavras daquele judeu americano são vistas como “normais” no contexto anormal do Médio Oriente. São apenas mais uma perspectiva. Aliás, há algumas bem mais radicais. Há judeus ortodoxos que defendem a expansão dos colonatos e a ocupação de todo o território da Cisjordânia.

 

Mas também do lado palestiniano há quem deseje convictamente que os judeus sejam todos “empurrados” para o Mar Mediterrâneo.

 

E o mais extraordinário é que todas estas opiniões são expressas de forma mais ou menos livre por aqueles lados do globo, seja em jornais, rádios, televisões ou na rua, sem que haja qualquer estranheza ou repulsa, mesmo por parte dos mais moderados ou de entidades com responsabilidades na sociedade.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:40
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2012

A dúvida em relação ao Egipto: privilegiar o Hamas ou o "status quo" com Israel?

 

Atendendo aos acontecimentos violentos das últimas horas no Médio Oriente entre Israel e palestinianos na Faixa de Gaza, vai ser muito interessante observar o posicionamento desta nova liderança política do Egipto face ao conflito, já que é claramente bem mais próxima do Hamas do que o antigo Presidente Hosni Mubarak.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 08:32
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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