Quinta-feira, 11 de Maio de 2017

Um imprudente despedimento

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O imprudente despedimento do director do FBI tem todos os contornos para se tornar num daqueles casos em Washington que acabam por fazer história pelas piores razões. Donald Trump justificou a sua decisão com a forma como James Comey conduziu a investigação ao caso dos emails privados de Hillary Clinton e com o facto de ter perdido a confiança dos seus pares e subordinados no FBI. A questão é que esses erros, que, efectivamente, o FBI cometeu, acabaram por beneficiar Trump e prejudicar Hillary Clinton e nada indicava que o Presidente fosse despedir Comey por este ter afectado inadvertidamente a campanha da sua adversária. Os democratas não acreditam na boa fé da medida de Trump e acusam-no de estar a querer fazer um encobrimento da investigação que o mesmo Comey estava a fazer às alegadas polémicas relações entre o círculo próximo de Trump e responsáveis russos. Aliás, neste momento, é essa a ideia que começa a passar para a opinião pública norte-americana. Alguns republicanos mostraram-se contra a decisão de Trump, no entanto, não subscrevem o pedido dos democratas para se nomear um procurador-especial para investigar esta questão. Esta tarde, durante a audição no Comité do Senado para as questões de Intelligence, o director interino do FBI, Andrew McCabe, contrariou a Casa Branca ao revelar que toda a estrutura daquela polícia mantinha o apoio a Comey.

 

Esta história começa a ter contornos perigosos para Donald Trump, com muitos já a recuperar o caso Watergate que levou à demissão de Richard Nixon. Caso se prove que o Presidente demitiu Comey para tentar encobrir a investigação que estava a decorrer sobre as relações entre pessoas próximas de si e figuras russas, pode estar aqui aquilo que muitos queriam: uma razão para iniciar o processo de "impeachment". É por isso que os democratas estão a insistir na nomeação de um procurador-especial, porque se olharmos para a história política recente dos EUA, vemos que sempre que um Presidente tem à perna um desses procuradores, raramente o processo deixa incólume o residente da Casa Branca. Basta recuarmos uns anos e vermos os estragos que o populista Kenneth Starr provocou. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:58
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Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

Ser presidencial

 

Donald Trump esta noite foi presidencial. Quando a diplomacia falha e o Conselho de Segurança da ONU entra num lamentável impasse, o Presidente americano assumiu as responsabilidades de liderança da nação mais poderosa do planeta. Num mundo ideal, tudo se resolveria à volta de uma mesa entre chefes de Estado, mas num mundo ideal, também não morreriam homens e mulheres inocentes, crianças, intoxicadas com armas químicas.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 10:07
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Quarta-feira, 29 de Março de 2017

Rollback

 

Com mais ou menos polémica e trapalhada, mais ou menos anúncio espalhafatoso, a verdade é que, até ontem, Donald Trump ainda não tinha concretizado qualquer medida que fosse verdadeiramente maléfica para a Humanidade. Nalguns casos até se mostrou mais moderado em relação à sua posição inicial, como observou (e bem) o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Paulo Portas, esta semana numa conferência em Lisboa, ao lembrar que Trump “fez a revisão do acordo NAFTA, mas não o denunciou, como não denunciou o acordo com o Irão, optando por vigiá-lo” e também “abandonou a ideia de transferir a embaixada [dos EUA] de Telavive para Jerusalém”. E já houve até um ou outro caso de humilhante derrota face àquilo que tinha prometido em campanha, como aconteceu na passada Sexta-feira ao ser obrigado a retirar do Congresso a “ bill” que iria revogar o Obamacare.

 

Mas ontem, não. Ontem, Trump clamou “vitória” e assinou um decreto presidencial na Sala Oval que tem como objectivo reverter muitas das medidas implementadas por Barack Obama em matéria ambiental. Algumas ainda nem sequer estavam em vigor, mas, muito provavelmente, e à luz desta nova orientação, nunca chegarão sequer a concretizar-se. Como também dificilmente se alcançarão as metas definidas nos Acordos de Paris de 2015, aquilo que tinha sido um marco histórico na política ambiental norte-americana.

 

É um autêntico “rollback” na política ambiental da administração Obama, com consequências nefastas a médio e a longo prazo e que depois serão difíceis de reparar. Porque, a questão não se põe só ao nível das medidas que Obama tinha implementado (já por si muito importantes), mas também no exemplo e motivação que os Estados Unidos deram ao mundo para que outras nações, nomeadamente algumas das mais poderosas e poluentes, seguissem políticas mais sustentáveis em termos ambientais. Quando Obama se comprometeu com os Acordos de Paris estava claramente a dar um sinal ao mundo, em nome dos Estados Unidos, para a necessidade de serem adoptados modelos de sustentabilidade nas economias mais desenvolvidas, por modo a fazer-se face à realidade inequívoca das alterações climáticas e do aquecimento global.

 

Ao assinar aquele decreto presidencial, Trump não só deitou por terra todo o esforço e pedagogia que Obama desenvolveu, como legitimou e recuperou as teses mais ignorantes e retrógradas em matéria ambiental. E isso é assustador e triste.

 

Publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:58
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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

Sean Spicer, um porta-voz à medida do seu líder

 

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Depois de Donald Trump ter dado, na Quarta-feira passada, a primeira entrevista em sinal aberto ao canal ABC, no dia a seguir reparei que um dos apresentadores da FOX News não deixou de atirar uma "boca" ao Presidente por ter escolhido a concorrência para tão importante momento televisivo. De facto, nessa altura, só faltava mesmo a "insuspeita" FOX News juntar-se ao coro de críticas que vinham dos media americanos. Trump foi literalmente arrasado durante a primeira semana de mandato, com os principais canais noticiosos americanos a dissecarem até ao tutano os vários disparates que se iam sucedendo. Tive o privilégio de assistir a essa primeira semana da presidência de Trump nos EUA, mas a questão é de que não me recordo de qualquer outro mandato ter começado de forma tão atribulada e polémica. Primeiro, foi a argumentação patética de Trump por causa da assistência que esteve na cerimónia do "inauguration day" em Washington, depois veio a polémica do muro e a questão do imposto de 20 por cento sobre produtos mexicanos. Trump lançou ainda a "bomba" da possível fraude eleitoral, algo que terá passado despercebido nos media europeus, mas que os jornalistas americanos consideraram uma acusação de proporções monumentais, questionando o Presidente por que razão então não concretizava essa acusação e pedia uma investigação federal. E, finalmente, a "immigration order". Muita coisa para apenas uma semana e meia de trabalho. E em todas estas frentes de combate mediático, Trump tem contado basicamente apenas com uma pessoa ao seu lado: Sean Spicer, o seu assessor de imprensa. Nestes quatro casos, Spicer, tal e qual como se estivesse frente a um pelotão de fuzilamento, surgiu perante os jornalistas num exercício penoso e que o próprio um dia deverá recordar como momentos bastante humilhantes na sua carreira.

 

Spicer, num dos briefings da Casa Branca, chegou mesmo a ser interregoado por um dos jornalistas se acreditava mesmo naquilo que estava a dizer. Uma pergunta que eu nem queria acreditar estar a ouvir logo na primeira semana de trabalho de uma presidência. Como era possível que os jornalistas questionassem a palavra do assessor de imprensa do Presidente logo nos primeiros dias de mantado? Mas a verdade é que Spicer tem sido o único porta-voz das trapalhadas de Trump e isso certamente terá custos na sua reputação e credibilidade junto dos jornalistas. Nem mesmo outras figuras republicanas se têm atravessado pelas medidas que o Presidente tem adoptado. Na verdade, as figuras de topo do Partido Republicano ou estão caladas ou as que têm aparecido é para criticarem.

 

Reconheça-se que, apesar dos erros e dos disparates, coragem é coisa que parece não faltar a Spicer porque, mesmo caminhando para o abismo, ele segue em frente. Ou, por outro lado, também pode ser apenas loucura. Lembro-me sempre daquele ministro iraquiano da Informação e que foi o porta-voz de Saddam Hussein durante a invasão americana em 2003, que ficou célebre pela sua propaganda tola (e que divertiu muita gente, incluindo o Presidente George W. Bush), ao repetir convictamente que o Exército iraquiano iria vencer aquela batalha, quando a realidade mostrava os soldados americanos já às portas de Bagdade. Loucura à parte, a verdade é que a partir daí Mohammed Saeed al-Sahaf se tornou uma estrela à escala global até com direito a clube de fãs. Pode ser que Spicer tenha a mesma sorte.

 

Publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:52
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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

Nem tudo é mau

 

Há uns dias acompanhei a audição de confirmação no Senado do novo secretário de Defesa norte-americano, o General James Mattis, e, não o considerando propriamente bem preparado para as perguntas que o senador John McCain lhe ia colocando, achei-o calmo e ponderado nas afirmações que ia proferindo, nomeadamente no que dizia respeito ao relacionamento dos EUA com os aliados e organizações internacionais. Já esta Quinta-feira estive com atenção à primeira conferência de imprensa do novo "press secretary" de Trump e, não tendo uma presença propriamente simpática, penso que Sean Spicer, além de se mostrar moderado nas suas palavras, esteve bastante seguro e bem preparado na resposta aos jornalistas.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:35
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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2017

2017, o ano do renascimento do Czar Putin

 

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A eleição de Donald Trump veio colocar Vladimir Putin numa posição de enorme relevância no sistema internacional, talvez como nunca tenha tido antes, porque, pela primeira vez, tem em Washington um interlocutor que lhe parece reconhecer o seu poder czarista e autoritário sem qualquer constrangimento ou julgamento moral. Mais, Trump parece estar disposto a aceitar e a respeitar as regras do jogo definidas por Putin, naquilo que poderá ser um paradigma com algumas semelhanças ao sistema de Guerra Fria em matéria de delimitação de zonas de influência. Perante isto, e à luz daquilo que se tem vindo a saber, é muito provável que Putin venha novamente a estar num plano de igualdade com o seu homólogo norte-americano. Trump parece querer conceder-lhe esse privilégio, já que não o deverá fazer a mais nenhum chefe de Estado. Além disso, do que se vai percebendo, Trump acreditará que o mundo pode ser gerido novamente pelas duas potências, numa divisão de influências, onde a China e outros Estados emergentes não lhe merecem grande atenção (quantas vezes ouvimos Trump falar do Brasil, da Índia ou até mesmo do Reino Unido ou da Alemanha???). Hoje, mais do que nunca, é importante perceber quem é Putin, como pensa e como age.

Acompanho com atenção o percurso de Vladimir Putin ainda antes de ter sido eleito Presidente da Rússia pela primeira vez em 2000. Quando a 9 de Agosto de 1999 o então já falecido Presidente Boris Yeltsin demitia o seu Governo e apresentava ao mundo uma nova figura na vida política russa, poucos eram aqueles que conheciam Vladimir Putin. Aos 46 anos, Putin, ligado ao círculo de São Petersburgo, e antigo oficial do KGB (serviços secretos), assumia a chefia do novo Executivo, com a motivação manifestada por Yeltsin de que gostaria de vê-lo como seu sucessor nas eleições presidenciais de 2000. Segundo alguns registos, Putin nunca terá tido a intenção de seguir uma carreira política, no entanto, teve sempre um alto sentido de servidão ao Estado, como aliás fica bem evidente na recente biografia de Steven Lee Myers, "O Novo Cazar" (2015, Edições 70). Na altura, terá confessado que jamais tinha pensado no Kremlin, mas outros valores se erguiam: “We are military men, and we will implement the decision that has been made”, disse Putin. Muitos viram na decisão de Yeltsin o corolário de uma carreira recheada de erros e que conduzira o país a um estado de sítio. A ascensão de Putin era vista como mais um erro. Citado pelo The Moscow Times, Boris Nemtsov, na altura um dos líderes do bloco dos "jovens reformistas" na Duma e que viria a ser assassinado em Fevereiro de 2015, disse que Putin causou uma fraca impressão na primeira intervenção naquela câmara. "Não era carismático. Era fraco." Também ao mesmo jornal, Nikolai Petrov, do Carnegie Moscow Center, relembrava que Putin deixou uma "patética imagem", sendo um desconhecido dos grandes círculos políticos, e que demonstrava ter pouco à vontade com aparições públicas, chegando mesmo a ter alguns comportamentos provincianos.

Apesar disso, a Duma acabaria por aprovar a sua nomeação para a liderança do Governo, embora por uma margem mínima. É preciso não esquecer que Putin reunia apoio nalguns sectores, nomeadamente naqueles ligados aos serviços de segurança, que o viam como um homem inteligente e com grandes qualidades pessoais. E, efectivamente, após ter assumido os desígnios do Governo, Putin começou de imediato a colmatar algumas das suas falhas, nomeadamente ao nível de comunicação, e a desenvolver capacidades que se viriam a revelar fundamentais na sua vida política. É o próprio Nemtsov que reconheceu o facto de Putin se ter tornado mais agressivo e carismático, dando às pessoas a imagem do governante que os russos prezam. Características que se encaixaram na perfeição ao estilo musculado necessário para responder às explosões que ocorreram em blocos de apartamentos de três cidades russas, incluindo Moscovo, em Setembro de 1999, vitimando sensivelmente 300 pessoas, colocando o tema da segurança no topo da agenda da vida política russa, para nunca mais sair de lá. Em Outubro desse ano, como resposta, Putin dava ordem para o envio de tropas para a Chechénia.

Nas eleições presidenciais de 2000, Putin obteve 53 por cento dos votos, contrastando com os 71 por cento conquistados quatro anos mais tarde. Por motivos de imposição constitucional que o impedia de concorrer a um terceiro mandato presidencial, Putin teve que fazer uma passagem pela chefia do Gvoerno entre 2008 e 2012, mas era claro que nunca teve verdadeiras intenções de deixar os desígnios da nação nas mãos do novo ocupante do Kremlin. Conhecendo-se um pouco da história política russa e da sua liderança, facilmente se chegaria à conclusão de que Putin era o homem por detrás do poder, enquanto o novo Presidente em exercício, Dimitri Medvedev, seria apenas um "fantoche". Medvedev compreendeu bem o seu papel nesta lógica de coabitação, remetendo-se praticamente a uma mera representação institucional, sem ousar discutir com Putin a liderança da política russa. Como na altura se constatou, a forma seria apenas um pormenor porque o que estava em causa era a substância da decisão. Ouvido pela rádio Ekho Moskvy, na altura, o analista russo Gleb Pavlovsky ia directo à questão central: "We can forget our favourite cliche that the president is tsar in Russia." E neste caso o Czar é Vladimir Putin que tanto o poderia ser na presidência, na chefia do Governo ou noutro cargo qualquer, desde que fizesse as devidas alterações constitucionais e que continuasse acompanhado dos seus "siloviki".

Aparentemente, Putin tem em Washington um parceiro que não o recriminará e que respeitará a sua liderança, desde que o Presidente russo não mexa com os interesses norte-americanos que, diga-se, nem será assim um exercício tão difícil de aplicar. Actualmente, Moscovo joga algumas das suas prioridades geoestratégicas e geopolíticas em tabuleiros que Trump já deu a entender não estar interessado. Agora, é ver a partir de dia 20 de Janeiro como o Czar Putin e o populista Trump se vão entender.

 

Publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:01
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2016

Alguma serenidade, precisa-se!

 

Os alarmes soaram mais uma vez nas chancelarias europeias, com a possibilidade de ser eleito na Áustria o primeiro chefe de Estado de extrema-direita desde a II GM na Europa. Mas, a derrota de Norbert Hofer, ontem, na segunda volta das presidenciais, acabou por esvaziar os maiores receios e, para já, a Áustria "livrou-se" de ter um Presidente do Partido da Liberdade (FPÖ).  A questão é que neste momento parece haver um histerismo excessivo em redor de tudo o que seja a possível emergência de partidos ou factores políticos fora do "mainstream". O "sim" ao Brexit e a eleição de Donald Trump vieram contribuir ainda mais para o pânico generalizado, o que poderá, por vezes, toldar a razão e a capacidade de análise dos líderes políticos, conduzindo a uma situação de precipitação e de ostracismo a grandes franjas do eleitorado que, legítima e democraticamente, fizeram a sua escolha em opções menos convencionais, mas mesmo assim respeitáveis. Ora, quem votou no Trump, no "sim" ao Brexit ou no candidato Norbert Hofer merece igual respeito a quem tenha votado em Clinton, no "não" ao Brexit ou no rival ecologista de Hofer. 

 

O problema é que quanto mais os ditos líderes políticos tradicionais se vão assustando, mais os acontecimentos se vão precipitando e as massas reagindo em sentido contrário, depositando o seu voto em todos e em tudo que seja contra o sistema. Sistema esse que está em pânico e não está a conseguir assimilar os novos fenómenos que vão surgindo.  Além disso, é preciso ter a humildade democrática e perceber que em Democracia, desde que respeitadas as regras, todas as escolhas são válidas e há que aceitá-las serenamente. Porque, uma das virtudes dos mecanismos da democracia é precisamente dar possibilidade aos cidadãos de corrigirem eventuais erros de escolha, caso se sintam desiludidos com o seu voto, já que terão sempre as próximas eleições para poderem "correr" com o político que elegeram.

    

Publicado por Alexandre Guerra às 12:01
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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2016

Escolhas interessantes de Trump

 

Interessantes, é o que se pode dizer de algumas escolhas que Donald Trump tem feito para a sua equipa. Contrariando um pouco a ideia que reinou nos primeiros dias após a sua eleição, de que se estaria perante uma equipa de transição caótica e que se estava perante um "assalto ao poder" por parte de "amigos" e familiares, não deixam de ser curiosos os nomes que Trump escolheu para a Educação, Habitação e Desenvolvimento Urbano e para o lugar de Embaixador dos EUA nas Nações Unidas. Betsy DeVos, na Educação, +e republicana, activista conservadora, filantropista e presidente da American Federation for Children, um grupo de interesse bastante agressivo na defesa da atribuição de vouchers de dinheiro público para que as famílias mais carenciadas possam colocar os seus filhos a estudar em escolas privadas. É claro que por detrás desta medida está uma opção ideológica, com a qual se pode concordar ou não, mas a verdade é que DeVos não é propriamente uma pessoa de quem se possa dizer que é completamente desajustada ao lugar. Penso que, efectivamente, qualquer que fosse o candidato republicano, o seu nome seria visto com normalidade.

 

Para a Habitação e Desenvolvimento Urbano, é surpreendente a escolha de Trump ao ir buscar Ben Carson, negro, neurocirurgião retirado, e que foi seu rival nas primárias. Embora não tenha qualquer experiência governativa, merece pelo menos o benefício da dúvida. Também hoje se ficou a conhecer a Embaixadora dos EUA para as Nações Unidas. Nikki Haley parece ser uma escolha acertadíssima. "Rising star" no Partido Republicano, de 44 anos, era até agora a primeira mulher governadora do estado da Carolina do Sul. É filha de imigrantes indianos e por várias vezes já demonstrou ser uma pessoa defensora dos valores da integração e do diálogo.

 

Ao nomear estas três pessoas, Trump tem, por um lado, o objectivo estratégico de aliviar a pressão sobre si, escolhendo duas mulheres e um negro, passando a ideia de diversidade e escapando ao estigma de que se estava a criar uma administração maioritariamente "branca" ligada aos interesses de grupos de direita mais radical. Por outro lado, e esse é um lado mais curioso, Trump revela algum desportivismo, porque todos estas pessoas foram suas críticas. E a ironia disto é que muitos dos políticos europeus arautos da liberdade que tanto têm criticado Trump (e existem razões para isso) jamais nomeariam alguém que os tivesse criticado. Nesse aspecto, Trump parece estar a dar algumas lições. Logo se verá se é para durar. Até ver...

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:31
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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2016

Há esperança?

 

Enganei-me. Sempre achei que Hillary Clinton iria chegar à Casa Branca. Não por ser uma candidata espectacular, mas por ser aquilo que normalmente orienta as escolhas políticas de cada um de nós: um mal menor. E não digo isto por achar que Donald Trump é mais ou menos capaz, mais ou menos inteligente, mas porque algumas coisas que ele defendeu no seu programa eleitoral representam, para mim, um retrocesso civilizacional em relação àquilo que Obama alcançou. Mas quando esta manhã pensei em homens como Truman ou Reagan, que chegaram à Casa Branca com o rótulo de provincianos impreparados, sendo mesmo alvo de gozo, e saíram de lá como heróis, fiquei com alguma esperança que Trump, também ele visto por muitos como um tolo, possa surpreender e deixar a sua marca positiva na história dos EUA e do mundo.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:42
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Terça-feira, 21 de Junho de 2016

Trump livrou-se do mal para se transformar num outro candidato

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Corey Lewandowski foi até ontem o "campaign manager" de Donald Trump/Foto Getty

 

O dia de ontem na cena política dos Estados Unidos foi dominado pelo despedimento de Corey Lewandowski, nada mais nada menos do que o até agora "campaign manager" de Donald Trump e um dos operacionais responsáveis pela caminhada triunfante daquele candidato até à Convenção do Partido Republicano. A notícia caiu que nem uma bomba, porque apesar das divergências internas no seio da campanha de Trump e que eram conhecidas há algum tempo, os sinais dos últimos dias não anunciavam uma decisão deste genéro e, sobretudo, tomada desta forma tão abrupta. De tal maneira que Lewandowski, em entrevista à CNN poucas horas depois de ter sido despedido (o que por si só já é estranho), afirmou desconhecer as razões que levaram ao seu afastamento. A alguns colaboradores teria dito que seria uma questão de tempo até se demitir ou ser demitido, talvez estando ciente das forças que começavam a crescer contra si. E, talvez por isso, quando na Segunda-feira foi informado por Trump de que os seus serviços não eram mais precisos, Lewandoswki nada disse, levantou-se e quando saiu da sala do quartel-general da campanha na Trump Tower em Manhattan já tinha segurança à sua espera para o acompanhar ao seu lugar, arrumar as suas coisas e abandonar o edifício. Seja como for, não mostrou ressentimento e à CNN manifestou todo o seu apoio a Trump e que tudo faria para ajudá-lo a chegar à Casa Branca.

 

Muitos republicanos viram neste gesto um passo positivo na direcção de um registo mais conservador e menos populista e conflituoso, características que marcaram o estilo de Lewandowski e que chegaram mesmo a criar situações extremadas, nomeadamente na relação com jornalistas. A verdade é que Trump bem pode agradecer ao seu antigo colaborador, mas a questão é que o processo do seu afastamento foi pouco claro, intempestivo e com contornos ainda por esclarecer. Talvez um dia, em livro, Lewandowski conte a história toda. Aquilo que se vai lendo é que Trump terá começado a sofrer muito pressão de alguns dos seus aliados e doadores para mudar a estratégia da campanha, numa altura em que vai iniciar uma corrida nacional e para a qual Lewandowski não estaria preparado. Também os filhos de Trump terão tido um papel no despedimento daquele assessor. Provavelmente, Lewandowski terá sido vítima da sua própria "criação" política, transformando um homem que era gozado pelo seu cabelo num temido candidato presidencial. Como disseram algumas pessoas próximas de Lewandowski, ele neste momento tinha inimigos em todo o lado e, perante este cenário, dificilmente se poderia assistir a outro desfecho.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:22
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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