Quinta-feira, 10 de Abril de 2014

Desta vez, os líderes europeus tiveram alguma sorte

 

No meio de toda esta crise entre a Ucrânia e a Rússia, os líderes europeus têm pelo menos uma razão para respirar de alívio: o início da Primavera. Com a chegada do bom tempo e a menor necessidade dos europeus recorrerem ao consumo de gás natural para aquecimento, o Kremlin vê enfraquecer uma das suas principais "armas" de pressão político-diplomática.

 

O presidente Vladimir Putin já veio avisar a Europa, através de uma carta enviada os seus líderes, que poderão haver cortes no fornecimento de gás natural, tendo em conta os atrasos de pagamentos da Ucrânia à fornecedora Gazprom.

 

São avisos (leia-se ameaças) que a Europa deve levar a sério, é certo, até porque no passado já houve crises energéticas, precisamente, por causa do corte do abastecimento de gás natural por parte da Rússia. No entanto, o efeito pretendido por Putin não terá os mesmos resultados se esta situação estivesse a acontecer em pleno pico do Inverno, como foi o caso das crise anteriores.

 

Desta vez, e apesar de todos os erros que a Europa tem cometido neste processo, os líderes europeus tiveram alguma sorte com os timings desta crise. Para já, têm alguns meses de menor dependência energética da Rússia, os quais poderão aproveitar para resolver ou, pelo menos, estabilizar a situação dos pagamentos entre a Ucrânia e a Gazprom.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:06
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Quarta-feira, 5 de Março de 2014

A importância da Crimeia na génese do jornalismo de guerra

 

A famosa e icónica (e também mais polémica) foto de Roger Fenton, no "Vale da Sombra da Morte" (Crimeia), supostamente tirada após um bombardeamento de três horas sobre os aliados

 

A propósito dos acontecimentos dos últimos dias na Ucrânia, o autor destas linhas foi recuperar os apontamentos que tinha dos tempos de universidade sobre a Guerra da Crimeia de 1853-56, até porque estava a preparar um post sobre o tema para outro poleiro. E uma das curiosidades que já estava esquecida era o facto daquele conflito ter sido o primeiro a ter uma cobertura mediática verdadeiramente efectiva e diária, através de artigos e fotografias enviadas pelos "correspondentes de guerra" William Russell (1821-1907) e Roger Fenton (1819-1869). 

 

Na verdade, não se trata de uma curiosidade, mas sim de um elemento muito importante naquilo que viria a ser percepção dos povos em relação à evolução diária dos conflitos. A figura do "correspondente de guerra" veio abrir "janelas" (mais tarde seria em tempo real) para os palcos de conflito, permitindo à opinião pública ficar informada sobre os acontecimentos. 

 

No caso da Guerra da Crimeia de 1853-56, o jornalista William Russel, enviado do The Times, e o fotógrafo Roger Fenton, fizeram história ao relatarem diariamente para todas as nações envolvidas no conflito os acontecimentos na pensínsula da Crimeia. Fenton, que se tornou mundialmente famoso precisamente com a cobertura dessa guerra, fez um trabalho exaustivo e extraordinário na cobertura do conflito.

 

Ao contrário de Russel, Fenton foi enviado para a Crimeia por uma editora de Manchester com o objectivo de documentar o conflito. Vendo aqui uma oportunidade para tranquilizar a opinião pública, o Governo britânico apoiou esta iniciativa,já que se esperava uma abordagem mais artística e, de certa forma, parcial da cobertura. No entanto, como mais tarde se viria a constatar, os ecos da guerra acabaram por ter um efeito negativo no Executivo, levando mesmo à sua queda (provavelmente, não há casos de conflitos pós-modernos que sejam benéficos a médio prazo nas sondagens para os governantes envolvidos).

 

William Russell, correspondente do The Times, fotografado por Roger Fenton

 

Fenton desenvolveu o seu trabalho no terreno com grande sacríficio físico e, apesar de não ter sido um trabalho "imparcial", foi um registo histórico e comunicacional de grande valor. Acabou por ser considerado o primeiro trabalho de fotojornalismo de guerra.

 

Também William Russell, jornalista do The Times, é considerado um dos primeiros "correspondentes de guerra", devido ao trabalho que desenvolveu no conflito da Crimeia. Foram quase dois anos de cobertura no terreno. Uma nota curiosa: terá sido durante o relato ao cerco dos aliados ocidentais a Sebastopol que Russell reproduziu o nome de uma operação militar que viria a tornar-se famosa, "the thin red line".

 

Num artigo de opinião do New York Times, de há três anos, Louis P. Masur director do programa de Estudos Americanos no Trinity College (CT) e autor de “The Civil War: A Concise History”, escrevia que Russell tinha regressado a Inglaterra como um "herói" após o fim da guerra. E acrescentava o seguinte: "His dispatches brought the war home to readers. He wrote with clarity and vitality about the grandeur and the horror of battle."

 

Já mais recentemente, no The Guardian, Roy Greenslade referia-se a Russell como o "pai do jornalismo de guerra" e que, como tal, também experimentou os problemas que os seus seguidores doravante iriam sentir: "Russell's problems as a war reporter in the Crimea prefigured those that all war reporters have since faced - official hostility, questioning of his honesty and accusations of treachery (for sapping morale and revealing information useful to the enemy)." 

 

A coragem e o espírito de sacrifício de Russell e Fenton foram factores determinantes para que o seu trabalho pudesse chegar às várias opiniões públicas dos países aliados envolvidos no conflito e, assim, abrir um novo período no jornalismo e na comunicação em tempo de guerra.

 

*Texto publicado originalmente no PiaR

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:09
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Terça-feira, 4 de Março de 2014

A escalada da Guerra da Crimeia de 1853-56 e as semelhanças com a crise actual

 

Tropas aliadas no Planalto de Sebastopol entre 1855 e 56/Foto: Fenton Roger (1819-1869)

 

O Ocidente e os seus líderes sempre tiveram alguma dificuldade em ler e compreender o espírito russo e as acções dos seus governantes. É uma evidência histórica que tem conduzido a momentos de tensão e, por vezes, de confrontação. Talvez essa dificuldade surja do facto do modelo de análise utilizado não ser o mais correcto para se poder enquadrar ou antecipar comportamentos e decisões de líderes russos. 

 

Na verdade, qualquer olhar sobre a Rússia deve ser feito com uma perspectiva histórica que remonte, pelo menos, ao século XIX. De certa maneira, foi com base nesse modelo que Henry Kissinger fez a sua leitura realista das relações internacionais durante a Guerra Fria. A sua obra "Diplomacia" reflecte precisamente isso, ou seja, compreender as atitudes do império soviético do século XX à luz de um paradigma de actuação da Rússia do século XIX.

 

É verdade que a actual crise na Ucrânia, mais concretamente na Crimeia, irrompeu sem que ninguém a tivesse visto chegar, no entanto, não pode ter surpreendido todos aqueles que têm um conhecimento mínimo da história imperialista russa desde o século XIX e, sobretudo, da alma do seu povo.

 

 

Vejam-se os acontecimentos que levaram à Guerra da Crimeia de 1853-56. O pretexto teve a ver com a distribuição dos lugares santos entre as comunidades católica e ortodoxa do Império Otomano, mas a questão principal era o antagonismo entre as potências ocidentais e a Rússia quanto às zonas de influência a Oriente da Europa. Perante um Império Otomano que o Czar Nicolau I considerava moribundo, a Rússia queria assegurar protectorados sobre os povos cristãos ortodoxos que ainda estavam sob a governação do Sultão. 

 

E para isso, Moscovo procedeu a uma estratégia de pressão e de intromissão forçada nos assuntos religiosos ortodoxos no Império Otomano. A tal ponto que o Sultão, aconselhado pelas potências ocidentais, rejeitou a concessão a Moscovo das competências da Igreja Ortodoxa, porque isto na prática significava que a Rússia ficaria com o controlo dos privilégios espirituais e administrativos de toda a comunidade ortodoxa da Sublime Porta. 

 

Perante isto, o Czar fez um ultimatum a Constantinopla que acabou por escalar a situação, com as potências ocidentais a deslocarem as suas esquadras para o Mar da Mármara. Daí até à declaração de guerra por parte do Sultão à Rússia foi um instante. Um gesto seguido pelas potências ocidentais. Estas, defendiam a integridade do Império Otomano. A Rússia, por seu lado, queria impor os seus protectorados.

 

No palco do conflito, a frota russa do Mar Negro destruía a esquadra Otomona ao largo de Sinope o que levou à movimentação dos navios de guerra europeus para aquele mar. De forma muito resumida, as potências europeias acabaram por cercar Sebastopol (Crimeia), conseguindo a sua "queda" em Setembro de 1855. A 16 de Janeiro de 1856 a Rússia era obrigada a aceitar a paz e a 30 de Março era assinado o Tratado de Paris. 

 

Não se pretende agora analisar as consequências daquele tratado nos destinos da Europa, mas, sim, todo o processo que conduziu ao conflito, já que encontra muitos paralelismos com a situação que se vive nos dias de hoje. Tais como:

 

- Perfil imperialista da Rússia 

- Projecção da influência russa para regiões com povos eslavos e cristãos ortodoxos.

- A exploração de motivos menores para criar um pretexto de intervenção militar ou, até mesmo, um "casus belli".

- Bipolarização do conflito entre a Rússia e potências ocidentais.

- O palco do conflito é normalmente para lá do "espaço vital" dos beligerantes. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 21:45
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Portugal e Espanha a salvo de um eventual corte de gás natural vindo da Rússia

 

Portugal e Espanha são dos poucos países da Europa que não dependem do gás natural da Gazprom. Estes dois países são fornecidos pelo gasoduto do Norte de África ou então através de transporte marítimo, mas neste caso de GNL (Gás Natural Liquefeito).

 

Publicado por Alexandre Guerra às 21:29
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A Ucrânia na rota do gás natural

 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:08
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Segunda-feira, 4 de Novembro de 2013

34 anos depois do início da crise dos reféns

 

 

Assinalam-se hoje 34 anos sobre o início da crise iraniana dos reféns americanos após a tomada da Embaixada dos Estados Unidos em Teerão, um acontecimento tão fielmente retratado no filme Argo de Ben Affleck.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:28
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Quinta-feira, 12 de Setembro de 2013

Oxfam alerta para o aumento das desigualdades na Europa

 

Muito a propósito do texto que o Diplomata aqui ontem escreveu, a Oxfam divulgou esta Quinta-feira um relatório em que alerta para o aumento das desigualdades em alguns países europeus, provocado pelas medidas de austeridade em curso. Portugal, Grécia, Irlanda, Itália e o Reino Unido podem rapidamente ser os países mais desiguais da Europa, caso as políticas não sejam alteradas.

 

O relatório "A Cautionary Tale: The true cost of austerity and inequality in Europe" refere ainda que as actuais políticas de austeridade podem colocar em risco de pobreza mais 15 a 25 milhões de cidadãos europeus em 2025. Segundo este estudo, só os 10 por cento dos europeus mais ricos estão a beneficiar com as medidas de austeridade. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:36
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Segunda-feira, 10 de Junho de 2013

O socialismo mesmo aqui ao lado

 

Um leitor do Diplomata do Brasil atento ao que se passa no Velho Continente, chamou a atenção para um projecto comunitário de inspiração socialista para combater a crise, mesmo aqui ao lado, na vizinha Espanha. É ver a reportagem da BBC News. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:07
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2012

Tão simples...

 

Na última edição da revista Fortune lê-se, num artigo assinado por Pankaj Ghemawat (um dos gurus da “moda” na área da estratégia empresarial) e por Stijn Vanormelingen, que a “produtividade laboral espanhola (produção real por trabalhador) aumentou apenas 15 por cento entre 1990 e 2010”.

 

Dirá o leitor: “Nem é um número propriamente mau”. Talvez não seja se não continuar a ler o resto do texto.

 

Veja-se então o seguinte: No mesmo período de vinte anos, nos países do Norte da Europa essa mesma produtividade por trabalhador aumentou 25 por cento. Mas há mais. “Ao mesmo tempo, os custos espanhóis por trabalhador aumentaram 120 por cento.” No Norte da Europa, o aumento ficou-se pelos 60 por cento.

 

Perante estes indicadores, Pankaj Ghemawat e Stijn Vanormelingen concluem que “os custos laborais por unidade produzida em Espanha aumentaram três vezes mais rápido do que no Norte da Europa”.

 

Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 22:27
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2012

Como estão errados aqueles que pensam que vivem tempos extraordinariamente singulares

 

 

"There's something wrong with the world today." Uma frase que, certamente, qualquer contemporâneo, na crença de que vive tempos extraordinariamente maus, não se coibirá de dizer. Efectivamente, essa presunção de cada homem (nomeadamente os mais iluminados) sobre a singularidade dos seus tempos é um traço comum ao longo da História. Veja-se, por exemplo, todos aqueles que anunciaram o seu tempo como o “Fim da História” (Francis Fukuyama foi apenas o último de uma longa lista que, eventualmente, terá começado com Políbio).  

 

Também as chamadas “massas”, ou se o leitor preferir, o “povo”, identificam o seu tempo como o pior de todos os “tempos”. Fale-se com um velho que rapidamente lhe dirá que “no meu tempo é que eram elas”. Já um jovem dirá que as verdadeiras dificuldades são as de “hoje”, porque os pais e os avós conseguiram empregos para toda a vida.

 

O tempo contemporâneo de cada um é sempre o pior. E todos, seja em que tempo for e em que sociedade for, facilmente esquecem a perspectiva histórica. Tal como Cristo, sofrem nos dias de hoje como se caminhassem na Via Sacra para o Calvário.

 

E nos tempos que correm, seja neste burgo atlântico ou por essa Europa fora, o fim do mundo está aí, ao virar da esquina, acham muitos. Parece que por causa do uma crise da divida soberana, dizem. Enfim, parece que estes pensadores acreditam mesmo que estes são tempos extraordinariamente singulares da História.

 

Neste capítulo, Eric Hobsbawm teve a subtileza intelectual de falar em “tempos interessantes”. Mas, como serão muito poucos aqueles que estão dotados dessa clarividência, os contemporâneos insistirão na tragédia do seu tempo. Esquecem-se, no entanto, que outros já tiveram a mesma ideia.

 

Na verdade, aquela é uma ideia recorrente, ou seja, é uma espécie de psicose colectiva em que há sempre "algo de errado no mundo" no tempo em que se vive.

 

Há sensivelmente vinte anos, mais concretamente em 1993, os Aerosmith lançavam o seu extraordinário Get a Grip, tendo como principal single a música Livin’ on the Edge. Um dos temas mais socialmente interventivos daquela banda e que surge na ressaca dos motins de Los Angeles, resultantes da absolvição dos quatro polícias que espancaram Rodney King, encontrado morto há dias.

 

Livin’ on the Edge começa precisamente com a frase "There's something wrong with the world today". Um “statement” sobre a deterioração da sociedade da altura, bem retratado na letra e reforçado no cinematográfico vídeoclip, no qual são abordados vários temas sociais, tais como vandalismo, comportamentos sexuais de risco entre jovens, desenquadramento social dos jovens, violências nas escolas, incompreensão por parte das gerações mais velhas em aceitar nova tendências urbanas, racismo, entre outros.

 

Perante isto, há uma ideia simples a reter: Se o leitor recuar outros 20 anos vai encontrar precisamente o registo de uma sociedade que achava que havia “algo de errado no mundo”. E voltará a encontrar a mesma convicção colectiva se recuar outros 20 anos e assim sucessivamente.

 

Hoje em dia, muitas receitas têm sido prescritas pelos sábios para resolver esta crise que assola o Velho Continente, a pior de sempre no projecto europeu, dizem. Mas, o melhor mesmo é que os iluminados desta e doutras praças europeias deixem de ter a presunção que vivem tempos extraordinários e se façam à vida, como se costuma dizer num português popular.

 

*Texto publicado originalmente no Forte Apache.


Publicado por Alexandre Guerra às 00:01
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