Terça-feira, 22 de Março de 2016

O privilégio de percorrer a Via Dolorosa

 

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Uma pintura de Giovanni Cariani (1490-1547) que retrata Verónica a ir de encontro a Jesus Cristo, quando este percorria a Via Dolorosa em direcção ao Calvário, para, com o seu véu, lhe limpar o sangue e suor do rosto, que ficou estampado no tecido. E assim terá ficado, tendo o "Véu de Verónica" se tornado numa das mais famosas "relíquias" do Cristianismo.

 

A Semana Santa, além do seu significado religioso, representa um dos acontecimentos políticos mais importantes da Humanidade: a chegada de Jesus Cristo, o "rei" dos judeus revoltosos contra o domínio de Roma, a Jerusalém. Os dias que se seguiram foram conturbados, de autênticas manobras políticas, conspirações e traições. No fim, a condenação de Jesus Cristo, não sem antes sofrer na caminhada pela Via Dolorosa com a cruz às costas, perante uma sociedade instrumentalizada e instigada. 

 

O percurso final de Jesus Cristo para o Calvário, na altura situado numa colina fora da cidade velha de Jerusalém, começa no local onde Pilatos terá "lavado as mãos" e desresponsabilizado-se do destino do "rei" dos judeus. A partir daí, a Via Dolorosa vai atravessando parte da cidade velha de Jerusalém, prolongando-se até à Igreja do Santo Sepulcro. É sem dúvida uma experiência única e de um interesse admirável. Já o fiz várias vezes, mas em dois anos seguidos conturbados, marcados pela violência da intifada de al Aqsa (de Setembro de 2000 a 2005), que afastaram por completo os turistas da Cidade Santa. Se é verdade que esse facto provocou um enorme rombo no comércio local, por outro lado, proporcionou uma experiência rara, ao permitir a um estrangeiro andar pelas muralhas da cidade de Jerusalém apenas em convívio exclusivo com os autóctones.

 

Efectivamente, andar horas pelas ruelas e vielas dentro das muralhas sem encontrar um único estrangeiro era algo impossível nos anos 90, quando se assistiu a uma revitalização do turismo em Jerusalém, fruto de um clima de desanuviamento entre palestinianos e israelitas. Mas, tudo mudou com o início da intifada de al Aqsa. E, foram tantas as vezes que estive na Igreja do Santo Sepulcro ou no Muro das Lamentações sem um único turista à vista. Esta situação prolongou-se por vários anos, e só até há poucos anos os visitantes começaram a regressar ao Médio Oriente.

 

Regressando à Via Dolorosa, é particularmente emocionante percorrer as várias estações que compõem aquele percurso e que assinalam diferentes momentos bíblicos dessa caminhada de Jesus Cristo, realizada nesta altura do ano há cerca de 2000 anos. É quase como que um exercício interior e introspectivo, aquele de encontrar as placas com as etapas da passagem de Jesus Cristo. Recordo que sem turistas e guias, lá fui descobrindo os vários pontos nas inúmeras vezes que caminhei pelas ruas da Via Dolorosa. Na altura, não deixei de pensar que a violência da intifada de al Aqsa teve consequências trágicas para israelitas e palestinianos, mas, ironicamente, foi essa mesma violência que acabou por criar um ambiente totalmente hostil ao turismo de massa, e que acabou por revelar aquilo que faz de Jerusalém um local especial na história da Humanidade.

 

Para mim, foi um privilégio visitar Jerusalém e percorrer a Via Dolorosa nesses tempos.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:42
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