Quinta-feira, 29 de Maio de 2014

O apelo às massas e a ruptura dos paradigmas de sociedade*

 

 

Nestes últimos tempos, muitos têm sido aqueles que, desiludidos, chocados ou revoltados com o paradigma de sociedade vigente, têm apregoado uma revolução (ou revoluções). Na maioria dos casos não se percebe muito bem o que move estas vozes de descontentamento: se é uma convicção ideológica, desespero, irreverência ou, simplesmente, a resposta ao apelo irreflectido para a contestação de “rua”.

 

Uma coisa é certa, as massas têm se feito ouvir de forma ruidosa e, nalguns casos, estrondosa, como a Grécia ilustrou bem há uns meses, ou agora, mais recentemente, o Brasil e a Ucrânia. Já antes, também os países da Primavera Árabe tinham saído para a rua. E em Portugal, nos últimos três anos, foram tantas as manifestações...

 

Mas, por mais que se tente ouvir as pessoas, a falta de sofisticação ideológica (leia-se ideias) no suporte ao seu discurso torna difícil qualquer leitura coerente que permita a construção de um modelo de pensamento que possa servir de referência para as gerações vindouras.

 

Perante isto, poder-se-á dizer que o apelo à revolta (das ideias) é desprovido de consistência intelectual e de profundidade quanto ao seu alcance? Provavelmente, sim.

 

A ausência de pensamento e de reflexão em cada uma das pessoas que faz ouvir a sua voz cinge o seu protesto a um acto de descontentamento pelo seu quotidiano, provocado apenas pelo desconforto material (leia-se, falta de dinheiro) das suas vidas.

 

E já não é pouco, dirão muitos leitores (e com razão), mas não o suficiente para se proceder à tal revolução de paradigma mais abrangente. Porque, essa tem que ir além da “crise” dos mercados e da falta de emprego. Aqui, as pessoas terão que, obrigatoriamente, reflectir sobre elas próprias, sobre o seu papel enquanto “animal” inserido numa sociedade.

 

O problema é que este exercício torna-se de difícil execução, porque pressupõe racionalidade, intelecto, autocrítica, humildade (outros adjectivos haveria).

 

Quantas das milhares de pessoas que ainda há uns meses desfilaram nas ruas de algumas cidades portuguesas ou estrangeiras chegariam à conclusão que, talvez, a sua forma de estar em sociedade possa já não estar adequada aos novos desafios que se impõem no sistema internacional e na realidade nacional?

 

Por isso, antes de erguerem a sua voz na crítica inócua, talvez fosse importante, primeiro, pensarem sobre a forma como educam os seus filhos, como abordam o seu trabalho, o que fazem para serem pessoas informadas, o que fazem para enriquecer intelectualmente, o que contribuem para a sustentabilidade do planeta, o que partilham com o próximo, e por aí diante.

 

E, desculpe o leitor, mas não há revolução de paradigma de sociedade que se faça sem uma reflexão profunda sobre estas e outras questões, porque a “crise” da dívida e do desemprego são problemas sociais graves mas, apesar de tudo, circunscritos em termos de paradigma.

 

Ainda há uns tempos, quando o autor destas linhas via o filme Simpathy For The Devil, de Jean-Luc Godard, de 1968, pensava sobre a grande diferença dos tempos contestatários de hoje e aqueles que se viveram nos anos 60, uma década de pensamento e de ideologia que alterou o modelo de se estar em sociedade no Ocidente.

 

E uma das conclusões a que chegou tem a ver com as motivações e os ideais que “chamaram” as pessoas para as ruas naquela altura. Partindo de fracturas concretas com que as sociedades se deparavam (guerra, discriminação, direitos cívicos, etc), o apelo à revolta das ideias foi sofisticado e consistente. O resultado: dinâmica com forte base ideológica (ideias), grupos organizados e focados, movimentos sociais poderosos, entre outros fenómenos consequentes (para o bem e para o mal).

 

Quando Godard decide centrar o seu filme na gravação em estúdio da música Simpathy For The Devil dos Rolling Stones, acaba por reforçar ainda mais esse apelo à revolta.

 

Além das várias citações de textos revolucionários, das referências ao marxismo, aos Black Panthers e às contradições de uma sociedade que precisava de mudança, que se podem ver ao longo do filme (espelhando o carácter activista e politicamente interventivo de Godard), a música Simpathy for the Devil dá um toque de sofisticação ao chamamento revolucionário.

 

As referências às guerras religiosas da Europa, à violência da Revolução Russa ou à morte dos Kennedy, que se podem ouvir na letra de Simpathy For The Devil fizeram desta música um tónico artístico ao apelo de Godard.

 

*Hoje é dia de Rolling Stones no Rock in Rio Lisboa e, muito provavelmente, de Simpathy for the Devil... E a este propósito, o Diplomata lembrou-se de um texto que tinha escrito há uns tempos sobre esta música e o célebre documentário de Jean-Luc Godard, rodado durante a gravação em estúdio daquela música.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 07:31
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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