Sexta-feira, 4 de Abril de 2014

Mesmo para os padrões africanos, Kumba Ialá era uma autêntica "personagem"

 

 

Figura polémica, algo excêntrica e que se diria uma autêntica "personagem" (mesmo para os padrões africanos), que ficou sobretudo conhecida pelo seu gorro vermelho (um dos elementos identitários da etnia balanta), Kumba Ialá, ex-Presidente da Guiné Bissau, morreu esta Sexta-feira, por motivos de doença cardíaca. Tinha 61 anos.

 

Embora nunca tenha sido um exemplo de liderança nem um modelo político propriamente saudável para ser seguido, Kumba Ialá foi um participante muito activo na vida democrática (se é que se pode chamar isso) guineense desde os anos 90. Além de ter sido o fundador do Partido da Renovação Social (PRS), Kumba saltou para a arena política com bastante entusiasmo e conseguiu cativar o eleitorado. De tal forma, que meteu fim ao domínio do histórico PAIGC, quando em 2000 foi eleito Presidente.   

 

A morte de Kumba está a ser sentida pelo Diplomata com alguma nostalgia, já que, de certa forma, entre 2000 e 2003, o autor destas linhas muito escreveu e ouviu sobre aquela personalidade. Na altura, estava no Semanário e foram muitos os artigos escritos sobre o que se passava na Guiné Bissau. Muitas entrevistas e conversas com "fontes" bem informadas e colocadas. Uma delas foi Carlos Gomes Júnior, que mais tarde viria a ser primeiro-ministro da Guiné Bissau.

 

E desde essa altura que Kumba Ialá era uma figura cativante do ponto de vista jornalístico. Não tanto pelo seu desempenho enquanto político, mas pelo estilo pouco ortodoxo que imprimiu na forma de comunicar com o povo. A acrescentar a isto, havia os inúmeros relatos, alguns inacreditáveis, que iam chegando ao autor destas linhas, sobre os comportamentos de Kumba Ialá para lá dos olhares públicos. 

 

Kumba Ialá era um homem com um sentido político interessante (nem bom nem mau), sustentado com uma ideologia muito própria, em que misturava uma espécie de socialismo (muito característico nas lideranças africanas) com um messianismo de inspiração divina (alguns líderes africanos vincam esta vertente). 

 

Ironicamente, e contrariando o registo que o marcou durante a sua actividade política, Kumba Ialá foi elegante na sua retirada da política. Fê-lo sem confronto e aparentemente sem mágoa em relação aos seus inimigos. Em África, é algo de louvar.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:13
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