Quinta-feira, 20 de Março de 2014

Czares da Rússia, o primeiro e o actual

 

Retrato de Ivan III, conhecido como Ivan, o "Grande" (esq.) e o actual Presidente da Rússia, Vladimir Putin

 

Para entender e compreender o espírito dos líderes russos, ou seja, a forma de como estes vêem a Rússia num contexto hostil e projectam o poder para dominar aquilo que consideram ser o seu “espaço vital” ou a sua área natural de influência, é necessário recuar até aos primórdios da formação daquele Estado enquanto tal.

 

Quando na primeira metade do século XV Moscovo era ainda uma espécie de principado, o grão-príncipe Ivan III (1440-1505) foi o primeiro líder russo a adoptar uma política clara de agregação de vários territórios no sentido de unificar um Estado grande e poderoso. Influenciado pela tradição política mongol, e à semelhança do que iria acontecer com todos os governantes russos até aos dias de hoje, Ivan III impôs um estilo autocrático na prossecução dos seus objectivos.

 

Embora não fosse propriamente um líder sanguinário, nunca deixou de recorrer à violência sempre que não conseguia alcançar os seus objectivos pela via negocial. É através de uma lógica agressiva que vai conquistando alguns territórios para a Rússia que estavam sob o jugo mongol-tártaro.

 

Para aquele líder, Moscovo tinha que se assumir cada vez mais como um pólo imperial. E, para isso, era preciso tornar aquele principado num centro metropolitano da Igreja, ou seja, a “Terceira Roma”. O estilo autocrático dos poderes de Roma e de Constantinopla foram uma inspiração para Ivan, inspiração essa que se tornou uma marca no estilo de liderança russa.

 

Para Ivan III, Moscovo passava a ser o centro da Igreja Ortodoxa e esta assumia-se como um instrumento fundamental para a sua legitimação junto do povo e como correia de transmissão entre o poder e a sociedade feudal. Basta ver a forma como todos os líderes russos, incluindo Vladimir Putin, se relacionam com os patriarcas ortodoxos e percebe-se a proximidade entre a Igreja e o Estado.

 

Quando morreu, Ivan III deixou um Estado russo independente, centralizado e poderoso, tendo Moscovo como capital e um vasto território. Introduziu a cerimónia da coroação e foi o primeiro a denominar-se czar da Rússia. Hoje, e apesar da tal título ter desaparecido do léxico russo com a Revolução de 1917, os líderes russos continuam a personificar o espírito dessa figura autoritária, poderosa e quase semi-divina.  

 

Em muitos aspectos, poucas diferenças há entre Ivan III e Vladimir Putin. Na verdade, ao longo dos séculos, os traços de autoritarismo e, por vezes, de algum totalitarismo aliado a uma violência extrema, estiveram sempre presentes na forma de governar dos líderes russos. Putin não é mais do que um czar dos tempos modernos.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:23
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