Quarta-feira, 4 de Junho de 2014

A música que os assessores de Ronald Reagan nunca perceberam

 

  

Faz hoje 30 anos que foi lançado o álbum "Born in the USA", o primeiro grande sucesso comercial de Bruce Springsteen e que o catapultou para um outro nível de notoriedade. Estava-se em plena campanha presidencial e Ronald Reagan preparava a sua reeleição para a Casa Branca, através de um discurso em que apelava aos valores conservadores e republicanos da América. 

 

Com uma icónica capa (fotografia de Annie Leibovitz) e um espírito menos "dark" de que o anterior álbum "Nebraska", rapidamente houve quem visse naquele álbum, e sobretudo na música Born in the USA, uma espécie de ode ao "american way of life" na sua vertente mais tradicionalista.

 

Alguns círculos mais conservadores e membros do próprio staff de Reagan não hesitaram em fazer uma "colagem" dos valores defendidos pelo Presidente à mensagem transmitida pela música. Reagan chegou mesmo a materializar essa estratégia numa declaração pública proferida durante um acção de campanha, em que dava a entender que poderia haver alguma proximidade entre o que o Presidente defendia e aquilo que o "Boss" escreveu nas suas canções.

 

De certa forma, essa ideia resistiu aos tempos e muitas pessoas olham para a música "Born in the USA" como uma espécie de hino patriótico. Mas, efectivamente não é. Não só Bruce Springsteen nunca teve qualquer proximidade a Ronald Reagen, como a letra daquela música está longe de representar aquilo que muitos pensam que representa.   

 

Ainda hoje a BBC News referia-se à música "Born in the USA" com uma das letras pior interpretadas de sempre. E de facto, a música é sobre o regresso de um soldado americano aos EUA após ter estado na guerra do Vietname, e retrata as dificuldades que enfrenta na reintegração na sociedade.

 

Além de todos aqueles que nunca voltaram do Vietname, a música chama a atenção para a forma dramática como os veteranos de guerra regressaram a casa, encontrando um país que parecia não ter lugar para eles. A maioria eram pessoas da classe operária que tinham abandonado os seus trabalhos para integrarem as forças armadas e irem combater numa guerra em nome da sua pátria. No regresso aos EUA apenas encontram desemprego e desespero.

 

Há quem veja esta música como um lamento profundo da crise da classe operária dos EUA, que desde a década de 70 começou a sofrer as consequências da desindustrialização da América, nomeadamente no sector automóvel.

 

O problema de alguns conservadores e dos assessores de Reagan que retiraram leituras desta música é que se agarraram apenas ao refrão do Born in the USA.

 

Walter Mondale, o candidato rival presidencial, ainda tentou aproveitar-se da situação ao atacar Reagan, e afirmando que era ele que contava que o apoio de Bruce Springsteen. Algo que foi de imediato desmentido pelos "public relations" de Bruce.

 

Em Novembro desse ano, Reagan vencia as presidenciais de forma avassaladora para um segundo mandato na Casa Branca.

 

Texto publicado originalmente no PiaR.
Publicado por Alexandre Guerra às 15:34
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