Terça-feira, 4 de Março de 2014

A escalada da Guerra da Crimeia de 1853-56 e as semelhanças com a crise actual

 

Tropas aliadas no Planalto de Sebastopol entre 1855 e 56/Foto: Fenton Roger (1819-1869)

 

O Ocidente e os seus líderes sempre tiveram alguma dificuldade em ler e compreender o espírito russo e as acções dos seus governantes. É uma evidência histórica que tem conduzido a momentos de tensão e, por vezes, de confrontação. Talvez essa dificuldade surja do facto do modelo de análise utilizado não ser o mais correcto para se poder enquadrar ou antecipar comportamentos e decisões de líderes russos. 

 

Na verdade, qualquer olhar sobre a Rússia deve ser feito com uma perspectiva histórica que remonte, pelo menos, ao século XIX. De certa maneira, foi com base nesse modelo que Henry Kissinger fez a sua leitura realista das relações internacionais durante a Guerra Fria. A sua obra "Diplomacia" reflecte precisamente isso, ou seja, compreender as atitudes do império soviético do século XX à luz de um paradigma de actuação da Rússia do século XIX.

 

É verdade que a actual crise na Ucrânia, mais concretamente na Crimeia, irrompeu sem que ninguém a tivesse visto chegar, no entanto, não pode ter surpreendido todos aqueles que têm um conhecimento mínimo da história imperialista russa desde o século XIX e, sobretudo, da alma do seu povo.

 

 

Vejam-se os acontecimentos que levaram à Guerra da Crimeia de 1853-56. O pretexto teve a ver com a distribuição dos lugares santos entre as comunidades católica e ortodoxa do Império Otomano, mas a questão principal era o antagonismo entre as potências ocidentais e a Rússia quanto às zonas de influência a Oriente da Europa. Perante um Império Otomano que o Czar Nicolau I considerava moribundo, a Rússia queria assegurar protectorados sobre os povos cristãos ortodoxos que ainda estavam sob a governação do Sultão. 

 

E para isso, Moscovo procedeu a uma estratégia de pressão e de intromissão forçada nos assuntos religiosos ortodoxos no Império Otomano. A tal ponto que o Sultão, aconselhado pelas potências ocidentais, rejeitou a concessão a Moscovo das competências da Igreja Ortodoxa, porque isto na prática significava que a Rússia ficaria com o controlo dos privilégios espirituais e administrativos de toda a comunidade ortodoxa da Sublime Porta. 

 

Perante isto, o Czar fez um ultimatum a Constantinopla que acabou por escalar a situação, com as potências ocidentais a deslocarem as suas esquadras para o Mar da Mármara. Daí até à declaração de guerra por parte do Sultão à Rússia foi um instante. Um gesto seguido pelas potências ocidentais. Estas, defendiam a integridade do Império Otomano. A Rússia, por seu lado, queria impor os seus protectorados.

 

No palco do conflito, a frota russa do Mar Negro destruía a esquadra Otomona ao largo de Sinope o que levou à movimentação dos navios de guerra europeus para aquele mar. De forma muito resumida, as potências europeias acabaram por cercar Sebastopol (Crimeia), conseguindo a sua "queda" em Setembro de 1855. A 16 de Janeiro de 1856 a Rússia era obrigada a aceitar a paz e a 30 de Março era assinado o Tratado de Paris. 

 

Não se pretende agora analisar as consequências daquele tratado nos destinos da Europa, mas, sim, todo o processo que conduziu ao conflito, já que encontra muitos paralelismos com a situação que se vive nos dias de hoje. Tais como:

 

- Perfil imperialista da Rússia 

- Projecção da influência russa para regiões com povos eslavos e cristãos ortodoxos.

- A exploração de motivos menores para criar um pretexto de intervenção militar ou, até mesmo, um "casus belli".

- Bipolarização do conflito entre a Rússia e potências ocidentais.

- O palco do conflito é normalmente para lá do "espaço vital" dos beligerantes. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 21:45
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