Kevin Frayer/Associated Press
Como dizia esta semana o repórter Nic Robertson da CNN, é nas pequenas histórias e nos pormenores dispersos entre os milhares de documentos “classificados”, postos a circular pelo Wikileaks no passado Domingo sobre a guerra no Afeganistão, que se encontra a verdadeira “notícia”.
Tal como o Presidente Barack Obama referiu, a ideia genérica retirada da maior parte da informação divulgada já era do conhecimento público, tendo sido amplamente debatida. Uma posição partilhada também pelos analistas e pelas autoridades de Islamabad, que trataram de desvalorizar algumas das informações contidas nos relatórios.
Porém, os acontecimentos do quotidiano militar no Afeganistão e os detalhes tácticos que nunca vieram a público e que agora se encontram perdidos entre as milhares de páginas à espera de serem lidas, acentuam os contornos dramáticos do conflito e clarificam as implicações políticas do mesmo.
Estes apontamentos são muito importantes porque reflectem de forma crua e objectiva o que se passa no terreno e materializam, de certa maneira, o debate que se tem feito sobre as grandes problemáticas estratégicas inerentes à guerra no Afeganistão.
Porque se é verdade que este assunto tem sido amplamente discutido nos gabinetes ministeriais e na imprensa internacional, é também certo que, por vezes, este discurso se abstrai do “terreno” e fica-se pela componente mais estratégica e política, distanciando-se dos factos sangrentos e comprometedores que o suportam.
Talvez um dos melhores exemplos prende-se com o “papel” que o Paquistão tem desempenhado no conflito. Muito se tem falado sobre o carácter dúbio da actuação das forças paquistanesas no combate ao terrorismo, um tema que o próprio Diplomata já fez referência por diversas ocasiões.
Embora nunca tenha havido um reconhecimento formal por parte de Washington, a verdade é que nos corredores se tem admitido que o Paquistão deveria ser mais convicto nos esforços de guerra. Há quem tenha mesmo adiantado que existe uma certa cumplicidade entre diferentes sectores da estrutura militar e dos serviços de “intelligence” paquistaneses (ISI) com a causa taliban.
Ora, para quem conheça minimamente a complexa realidade paquistanesa no que diz respeito às suas forças de segurança e à sua forma destas se relacionarem com o poder político, e para quem tenha acompanhado de perto os desenvolvimentos no terreno nos últimos anos, facilmente chegará à conclusão que a vontade veemente manifestada pela liderança política em Islamabad de apoio a Washington nem sempre se traduziu em actos efectivos por parte de alguns sectores militares ou de “intelligence”.
Embora já há muito tempo se constate esta realidade, a “fuga” do Wikileaks parece agora confirmar através de actos concretos o tal papel “dúbio” do Paquistão no combate ao terrorismo. De acordo com os documentos, os serviços secretos militares paquistaneses terão prestado auxílio aos taliban na sua estratégia de insurreição. Também o Exército paquistanês terá agido, por um lado, como aliado dos Estados Unidos, por outro, como inimigo.
Os pormenores avançados pelos documentos e que sustentam as suspeições de há muito são a verdadeira “revelação”, tendo causado embaraço e irritação na cúpula política e militar paquistanesa e desconforto nas relações diplomáticas entre Islamabad e Washington. Porque, apesar de ser uma realidade que todos conheciam, só agora foi possível confrontar aqueles dois governos com a realidade crua dos factos no terreno.
Comandos paquistaneses tentam controlar uma das duas mesquistas atacadas hoje em Lahore/Arif Ali/Agence France-Press/Getty Images
Ataques simultâneos em duas mesquistas na cidade paquistanesa de Lahore provocaram hoje mais de 80 mortos. Aproveitando o dia de descanço muçulmano, vários homens armados lançaram granadas e dispararam tiros sobre as pessoas que se encontravam naqueles recintos para as suas orações.
As vítimas destes ataques pertenciam a uma seita minoritária islâmica, os Ahmadis, e terão sido alvo, segundo algumas informações, de uma acção terrorista levada a cabo pelos taliban paquistaneses, também eles muçulmanos.
Tal como o Diplomata já aqui abordou várias vezes, este ataque é revelador da explosiva situação que se vive no Paquistão. Ali Dayan Hassan, da Human Rights Watch, disse à BBC News que estas pessoas eram "alvos fáceis" para os sunitas radicais taliban, que consideram os Ahmadis uns infiéis.
A violência sectária no Paquistão tem sido uma constante nos últimos tempos, sobretudo a partir do momento em que os taliban paquistaneses começaram a ganhar preponderância e autonomia nalgumas regiões tribais e fronteiriças com o Afeganistão. Mas, o problema coloca-se também ao nível do Estado central paquistanês, já que o Exército e outras forças de segurança têm, por vezes, uma posição dúbia em relação aos taliban paquistaneses.
Estes ataques já foram condenados pelas autoridades regionais e nacionais, no entanto, desde há muito que Islamabad tem sido acusado por Washington, muitas vezes de forma informal, de não ter uma política coerente no combate ao radicalismo islâmico no país.
Tal como acontece entre pessoas, também no relacionamento entre Estados a confiança é fundamental para uma política de boa vizinhança. A ausência daquele factor potencia situações de tensão ou de crise, como se constata, por exemplo, entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, entre a China e Taiwan, entre Israel e o Irão, entre os Estados Unidos e a Venezuela, entre a Rússia e a Ucrânia ou entre o Paquistão e a Índia.
Foi aliás a propósito das débeis relações político-diplomáticas entre estes dois países que o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, disse que a falta de confiança era o principal obstáculo para uma aproximação entre Nova Deli e Islamabad.
A Índia e o Paquistão têm revelado uma inimizade histórica, chegando inclusive a um estado de conflito por três vezes (1947-48, 1965 e 1999). A disputada região de Caxemira tem sido o principal foco de instabilidade, prolongando-se há mais de 60 anos uma lógica de discussão de soberania sobre aquela território.
Quando se deram as independências da Índia e do Paquistão, em 1947, o marajá de Caxemira optou pela soberania indiana. No entanto, Islamabad sempre viu aquele território como uma extensão natural do Paquistão, já que maior parte da população é islâmica. Não é por isso de estranhar que Islamabad defenda a realização de um referendo em Caxemira para se decidir o futuro daquele enclave, algo que Nova Deli nem quer ouvir falar.
A Índia tem recorrido aos acordos de 1947, feitos com o Marajá, e de 1972, com o Paquistão, para evitar colocar o assunto sob referendo. Nova Deli tem defendido sempre uma via bilateral para a resolução do problema. Por outro lado, ao Paquistão interessa que o tema assuma contornos internacionais e multilaterais.
Depois de alguns anos de melhoria, em Novembro de 2008 as relações entre os dois países voltaram a deteriorar-se após um ataque feito através de mar por terroristas paquistaneses à cidade indiana de Mombai, matando mais de 174 pessoas.
Este ataque veio minar algumas medidas de confiança que tinham sido implementadas desde 2005, tais como o recomeço de um serviço de autocarro entre os dois lados de fronteira de Caxemira, a reabertura de uma estrada 60 anos depois e a reintrodução de um comboio entre a Caxemira indiana e a paquistanesa.
As declarações agora proferidas pelo primeiro-ministro Singh surgem a sensivelmente dois meses do início de uma nova ronda de negociações ao nível dos ministros dos Negócios Estrangeiros do Paquistão e da Índia, numa tentativa clara de incutir confiança entre os dois países. Porque sem que tal exista, de pouco serve os responsáveis políticos sentarem-se à mesma mesa.
Declarações preocupantes, mas não surpreendentes. É pelo menos esta a leitura que o Diplomata faz das revelações do Procurador-Geral dos Estados Unidos, Eric Holder, ao confirmar que as autoridades têm provas de que por detrás do atentado falhado na Times Square no passado dia 1 estiveram talibans paquistaneses.
Holder informou que militantes terão participado activamente na preparação do atentado, assim como no financiamento à operação. As autoridades americanas já detiveram um cidadão paquistanês nascido nos Estados Unidos, que terá colaborado e conduzido à informação agora revelada pelo Procurador-Geral.
Faisal Shazhad, de 30 anos, terá revelado aos investigadores que foi apoiado no Paquistão, mais concretamente na região do Waziristão Norte, um forte bastião dos talibans paquistaneses.
Esta revelação é muito importante, já que é a primeira vez, pelo menos que haja conhecimento, que os talibans paquistaneses prepararam uma operação terrorista nos Estados Unidos e, aparentemente, autónoma da hierarquia dos talibans afegãos.
O anúncio de Holder é também uma forma da administração do Presidente Barack Obama pressionar o regime de Islamabad para actuar com mais agressividade nas zonas tribais do Paquistão. Washington está cada vez mais preocupado com a situação vivida naquele país.
No início de Abril, o Diplomata escrevia aqui que o Paquistão vivia uma autêntica insurreição islâmica, mas que poucos queriam admitir. No entanto, a ligação entre a tentativa de atentado na Times Square e as estruturas terroristas no Paquistão começam a deixar pouca margem ao regime paquistanês para continuar com uma atitude dúbia em relação à postura do seu Exército face aos talibans.
Polícias paquistaneses junto ao consulado americano após o atentado desta Segunda-feira/Mohammad Sajjad/Associated Press
O Paquistão enfrenta uma autêntica insurreição islâmica. Não tão violenta como a do Iraque ou a do Afeganistão é certo, mas potencialmente mais ameaçadora para o equilíbrio do sistema internacional.
Peshawar, uma cidade localizada próxima das zonas tribais do Paquistão, foi esta Segunda-feira alvo de vários atentados simultâneos junto ao consultado dos Estados Unidos e que provocaram sete mortos e cerca de 20 feridos. Horas antes, um atentado suicida tinha morto 43 pessoas, ferido quase o dobro, apenas a 80 quilómetros a norte de Peshawar.
As autoridades paquistanesas suspeitam tratar-se de acções coordenadas, tendo o porta-voz dos taliban no Paquistão, Azam Tariq, em declarações telefónicas à AFP a partir de um lugar desconhecido, reivindicado para aquele grupo o raide na cidade de Peshawar, dizendo ser uma represália contra os ataques americanos nas zonas tribais junto à fronteira com o Afeganistão. Azam Tariq disse ainda que os taliban paquistaneses têm à sua disposição entre 2800 a 3000 fedayeen (bombistas suicidas).
O New York Times relembrava que este tipo de ataques terroristas demonstra a capacidade dos taliban atacarem alvos importantes no Paquistão e, segundo o analista Hasan Askari, é uma forma de provarem que estão activos e com capacidade operacional.
Washington e Islamabad têm sido reservados quanto a declarações públicas sobre a situação interna do país, mas a verdade é que o Paquistão tem vivido nos últimos anos uma insurreição radical islâmica, provocando centenas de mortos e na qual os taliban são apenas uma parte do problema.
O Presidente Asif Ali Zardari tenta a todo o custo impedir que se instale um clima de medo generalizado, estando por isso empenhado em reforçar os seus poderes. Ao mesmo tempo, o Exército, as forças de segurança e os serviços de “intelligence” travam nas suas próprias fileiras conflitos internos, motivados por diferentes alinhamentos estratégicos.
Num país como o Paquistão o Presidente raramente pode contar com a lealdade total das suas forças, não sendo por isso de estranhar que as alterações constitucionais propostas por Zardari vão no sentido de retirar margem de manobra ao Exército, que esteve sempre bem presente na vida política paquistanesa.
É por isso que nestas circunstâncias os taliban representam apenas uma parte do problema que se vive no Paquistão, um país em que o “prémio” de acesso ao poder é substancialmente mais atractivo que no Iraque ou no Afeganistão: a tecnologia e armamento nuclear.
É aqui que residem os maiores receios de Washington e de Islamabad, assim como das principais chancelarias internacionais, já que vêem na constante instabilidade interna paquistanesa uma ameaça à ordem sistémica potenciada dramaticamente pelo facto do Paquistão ser um Estado nuclear.
Em Setembro último, o Diplomata escrevia neste espaço um texto sobre a sensível situação que se vivia no Iémen, um estado à beira de se fragmentar e de se tornar um santuário de terroristas.
E já na altura, o Diplomata referia que o "Iémen tem sido um dos palcos mais activos nas movimentações terroristas e antiterroristas desde os atentados do 11 de Setembro. Foi aliás neste país que a CIA procedeu pela primeira vez a assassinatos selectivos no âmbito da "guerra ao terrorismo" lançada pelo ex-Presidente George W. Bush".
Mas o mais intrigante no meio disto tudo é que o Diplomata chegou a esta conclusão sem que tivesse acesso a toda a informação de "intelligence" que, certamente, Londres e Washington têm ou às fontes e recursos que os principais meios de comunicação social internacionais dispõem.
À excepção da BBC News, o Iémen tinha estado até há uns dias praticamente ausente das notícias internacionais, apesar se verificar uma agitação terrorista muito preocupante naquele país.
Atendendo à estranha repentina preocupação de Washington e de Londres com aquele país, após o atentado falhado no voo da Delta Airlines no dia de Natal, o Iémen ficou sob os holofotes da imprensa internacional.
Uma das falhas da "guerra ao terrorismo" iniciada após os atentados do 11 de Setembro, prende-se com o facto das atenções terem sido praticamente exclusivamente focadas nos palcos do Iraque e do Afeganistão, remetendo, muitas das vezes, para o esquecimento alguns teatros secundários, sobretudo em África e na Ásia, que têm registado um aumento de actividade terrorista.
O próprio Paquistão, um actor preponderante na guerra ao terrorismo, não tem tido a merecida atenção por parte da imprensa internacional, embora neste caso Washington e Londres parecem estar muito atentos ao que se passa naquele país nuclear.
Milícias tribais em Kanju, 5 de Outubro de 2009/Foto Alex Rodriguez/Los Angeles Times
A propósito da onda de ataques terroristas que têm assolado o Paquistão com particular intensidade neste mês de Outubro e face aos desenvolvimentos militares no Afeganistão, Max Hastings, colunista do Financial Times, questionava num artigo de opinião esta Quinta-feira se os interesses estratégicos do Ocidente na região são vitais.
Para Hastings, esta é uma pergunta para a qual a Casa Branca anda à procura de resposta, e que à luz das dificuldades crescentes faz cada vez mais sentido reflectir sobre a mesma.
Na opinião do famoso jornalista e escritor paquistanês, Ahmed Rashid, os Estados Unidos devem manter o seu empenho e o seu compromisso militar e político na região. Caso contrário, existe um risco real de “talibanização” de toda a região da Ásia Central, alastrando a países remotos como o Tajiquistão, o Turquemenistão, o Uzbequistão ou Quirguistão.
Porque apesar das dificuldades que os soldados americanos têm encontrado no terreno afegão e que as forças da CIA têm enfrentado no Paquistão, todo este envolvimento militar e político serve, de certa forma, como “travão” a uma constante pressão de “talibanização” não só no Afeganistão, mas em várias regiões no Paquistão e noutros países da Ásia Central. O Afeganistão, aliás, é um bom exemplo dessa realidade, quando nos anos 90 se tornou um autêntico “playground” de terroristas, a partir do qual saíram os estrategos e os autores dos atentados de 11 de Setembro.
Polícia paquistanês observa refugiados do Waziristão em Paharpur, 22 de Outubro de 2009/Foto B.K.Bangash)
É reconhecido por todos que o combate ao movimento taliban está cada vez mais difícil no Afeganistão e no Paquistão, sobretudo nalgumas zonas rurais, sendo que um dos grandes objectivos neste momento passa pelo afastamento dos radicais islâmicos dos grandes centros de poder.
É por isso que o pensamento de Rashid assenta numa lógica algo cruel, mas simples e realista: é preferível ter líderes corruptos nos países da Ásia Central do que governantes fundamentalistas islâmicos, cuja sua missão é impor a sharia da forma mais conservadora possível e combater o estilo de vida ímpio de todos aqueles que não seguem a orientação rigorosa e estrita dos preceitos do Corão.
Quanto mais fracos e debilitados forem os governos (e refira-se que naquela região são quase todos, incluindo o de Islamabad), mais tentados pela conquista de poder surgem os movimentos associados aos taliban. Perante este cenário, o apoio político por parte dos Estados Unidos e da Europa a esses mesmos governos assume-se como vital para a sua sobrevivência e resistência aos ataques taliban.
Peshawar, 28 de Outubro de 2009/Foto Mohammad Sajjad/Associated Press
Para já, e a julgar pelos mais recentes sinais enviados pela liderança de Washington, os Estados Unidos parecem continuar empenhados politicamente no Paquistão, tendo a secretário de Estado norte-americana, Hillary Clinton, manifestado apoio ao Paquistão perante o ataque bombista de Peshawar, na Quarta-feira, que fez mais de 100 mortos.
Porém, concomitantemente, Clinton encostou o Governo paquistanês à parede, exigindo explicações pelo falhanço na captura de alguns altos membros da al-Qaeda. Clinton admitiu que desde 2002 que o Paquistão é um “paraíso” para aquela rede.
A BBC News divulgou hoje um importante mapa sobre o conflito que está a assolar a região noroeste do Paquistão. Após vários meses de investigação no terreno, as conclusões são bastante preocupantes, revelando que apenas 38 por cento dos terrítórios da Província Fronteiriça do Noroeste (NWFP) e da Administração Federal das Áreas Tribais (FATA) estão sob controlo das autoridades paquistanesas. O restante território ou já está sob controlo físico e administrativo dos taliban ou então está em vias de o ser.

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