Domingo, 12 de Novembro de 2017

Catalunha, uma reflexão sistémica

 

A questão da Catalunha tem suscitado inúmeras análises, muitas delas com pertinência e qualidade, outras, nem tanto, visto serem motivadas por preconceitos ideológicos, onde se esgrimam argumentos cuja validade pouco interessa para a compreensão daquele problema. Então o que há a acrescentar ao que se tem escrito e dito? Na verdade, não é tanto aquilo que se pode acrescentar em termos de informação, mas sim a forma como se pode ler tudo o que está em causa, partindo-se de uma abordagem sistémica à luz da história. Muitas vezes, fazendo-se esse exercício, que é uma prática comum para quem estuda Relações Internacionais, chegam-se a modelos que nos permitem, dentro de um certo limite, encontrar algumas respostas ou antecipar dinâmicas de um conflito ou de uma crise. De pouco serve recuar um, dois ou até cinco anos para se chegar a um racional sólido. Esse, aliás, tem sido um dos vícios na forma como a questão da Catalunha tem sido abordada, gerando, por vezes, equívocos. Neste caso, é importante recuar um pouco mais atrás, à altura em que surge a consciência política das massas trazida pela Revolução Francesa, depositando no Povo e na Nação a legitimidade do Estado. Essas sementes florescem em força com os nacionalismos do século XIX, apesar da tentativa de controlo sistémico promovido no célebre Congresso de Viena de 1815 (que marca politicamente o início do século XIX), no qual se definiu o “direito das nações se organizarem politicamente como Estados soberanos (embora sempre sob a vigilância dos grandes impérios)”.

 

É importante notar que o nacionalismo catalão nunca fez parte deste jogo dos nacionalismos exacerbados europeus. No entanto, um pouco por toda a Europa, com mais ou menos intensidade, o choque entre os resquícios do absolutismo do antigo regime e as sementes da Revolução Francesa faziam-se sentir no confronto entre Estado absoluto versus Estado nação. E, de certa forma, com contornos específicos, foi a isso que se assistiu durante o século XIX também em Espanha. E aqui, a história dos nacionalismos acaba por surgir no final do século XIX, altura em que se assiste à emergência dos chamados nacionalismos periféricos, assentes, sobretudo, no desenvolvimento económico, mas também nas nuances étnicas, culturais e linguísticas de algumas regiões espanholas face a Castela. O País Basco e a Catalunha, as duas regiões mais avançadas no final do século XIX em Espanha, são os projectos mais evidentes, no entanto, com vocações completamente diferentes. Aqui, neste texto, interesse apenas o nacionalismo catalão, claramente “o arauto da modernização e do progresso contra o conservadorismo do regime de Madrid”, escreveu Maria Regina Marchueta na obra “Os Nacionalismos Periféricos em Espanha (Edições Duarte Reis, Lisboa 2002. Pref. Adriano Moreira)”, a sua tese de doutoramento do ISCSP e de leitura obrigatória para quem gosta deste tema.

 

A verdade é que até finais do século XIX, e ao contrário do que muito se tem escrito e dito, a questão dosnacionalismos em Espanha não existia, quer em termos conceptuais, quer em termos políticos. Madrid iniciou esse papel, já que a Catalunha perdeu muito do seu poder com a decadência do comércio no Mediterrâneo, ao mesmo tempo que Castela assumiu a “sua função directora, de perfil militar e religioso”, orientando o seu projecto histórico numa lógica religiosa de Reconquista. “O nacionalismo espanhol, ainda inexistente esta época, seria o resultado de um processo gradual, que se ia completando à medida que recebia as contribuições da implantação do sistema nacional de educação primária, da ampliação territorial do recrutamento militar, da extensão dos meios de comunicação e do próprio desenvolvimento da organização do Estado”, lê-se no livro de Marchueta.

 

Neste quadro e receando tornar-se “um mero apêndice de França”, a Catalunha “aposta então pela Espanha imperial, oferecendo-lhe, como contrapartida, uma armadura ideológica ao seu deficitário conceito e nação, ainda demasiado preso, quer de uma concepção política teológica, quer da visão racionalista dos direitos naturais”. Se, por um lado, Madrid vai construindo uma ideia de Nação “através da captação das forças vivas das províncias”, por outro, vê reforçada essa construção com a reacção acérrima às invasões napoleónicas por parte das regiões. É importante constatar que a independência nunca foi um objectivo da Catalunha, que optou sempre por gerir os seus interesses sempre dentro do Estado espanhol. Porém, que não haja ilusões, esta construção da nação espanhola é forçada, precisamente, pelos interesses, o que não quer dizer que não seja concreta nem efectiva. E também não quer dizer que as diferentes sensibilidades não subsistam. É precisamente neste período que a esquerda republicana se começa a instalar na Catalunha, claramente defensora de um federalismo regional, muito por oposição ao carlismo conservador enraizado nas populações mais rurais (ideias que irão, décadas mais tarde, estar em confronto na sangrenta Guerra Civil).

 

Maria Regina Marchueta identifica a “independência de Cuba, a rebelião das Filipinas e a derrota frente aos EUA” como factores “reveladores da extrema debilidade de Espanha” e que “supuseram um rude golpe na consciência colectiva do país”. Além disso, “a Catalunha, firme na convicção de ser a sede da riqueza nacional, denunciará o falhanço da política centralizadora de Madrid”. E é precisamente nos finais do século XIX que surgem os primeiros teóricos que dão corpo doutrinário ao nacionalismo catalão. Talvez o mais importante seja Eric Prat de La Riba, que no seu livro “La Nacionalitat Catalana” formulou o catalanismo como a afirmação da identidade histórica, cultural e económica da Catalunha, mas sempre dentro do Estado espanhol. O catalanismo propôs-se também a ser um movimento regenerador face ao poder conservador de Madrid.

 

Não obstante os devaneios de um ou outro aventureiro (e Carles Puigdemont pode ser incluído nessa categoria), se olharmos para a história política da Catalunha, constata-se que a independência nunca foi a questão central nem reclamada por aquela região, mas sim a autonomia ou o federalismo. Muito se tem falado na Constituição de 1978 e no Estatuto de Autonomia, mas, na verdade, foi a Constituição espanhola de 1931, com a implantação da curta e turbulenta II República, que abre caminho para a solução do problema regional. “A Constituição da II República constituía, assim, o original precedente da organização territorial do Estado, mercê do reconhecimento da realidade histórico-cultural da Espanha”, escreve Marchueta. É aqui que se institui a Generalitat e que em 1978 é recuperada. Entretanto, em 1932 era aprovado o Estatuto catalão, em 1933 o basco e em 1936 o galego. O que aconteceu a seguir, com a Guerra Civil e o franquismo, acabou por oprimir os nacionalismos periféricos e adormecer a esquerda republicana. A própria ideia de nacionalidade espanhola ficou associada ao projecto do Estado franquista.

 

A Constituição de 1978 pode ser vista, de certa forma, como uma solução inevitável para descomprimir a pressão exercida durante décadas sobre os nacionalismos periféricos. Poderá nunca ter criado as expectativas que a Constituição de 1931 provocara nos movimentos nacionalistas, já que estávamos perante um documento progressista elaborado num regime republicano, mas a verdade é que a Lei constitucional de 78 permitiu arrumar os nacionalismos periféricos dentro do Estado espanhol até hoje e, diga-se, sempre com uma certa ordem sistémica. E no que à Catalunha diz respeito, Jordi Pujol foi uma figura central na gestão desse equilíbrio, entre o projecto nacionalista moderado e conservador e o Estado espanhol. Pujol personalizou aquilo que tantos outros líderes catalães foram fazendo ao longo da história daquela região: gerindo os interesses e cinismos de uma nação, que nunca se viu verdadeiramente empenhada em lutar por ser um Estado independente, mas também que nunca aceitou ser um elemento passivo na construção do Estado nação espanhol. Uma das virtudes do actual modelo de autonomia é que tem permitido, precisamente, a coabitação entre diferentes correntes nacionalistas na Catalunha e o relacionamento estável com Madrid. E isso, com mais ou menos questão pelo meio, tem funcionado dentro daquilo que seria expectável num país como a Espanha.

 

Perante o que aqui foi escrito, ou Carles Puigdemont não fez a devida leitura histórica ou assumiu que o “seu” povo lhe iria dar o projecto de nação independente. Ora, o que hoje já se pode assumir com toda a certeza (e era óbvio), é que o povo catalão, no seu todo, não se revê nesse projecto de nação protagonizado por Puidgemont. Nem de perto nem de longe e quando assim é, não há processo de auto-determinação que chegue a bom porto. O princípio da nação independente assenta, antes de mais, numa vontade popular imensa e massificada em partilhar uma ideia comum. Esse desejo ardente e quase irracional do povo assumir os desígnios do seu futuro, ao ponto de dar a vida por isso, é uma espécie de combustível para qualquer processo disruptivo e de independência. A questão é que os ímpetos independentistas nacionalistas nunca pulsaram com essa intensidade na história catalã, mesmo em períodos difíceis e turbulentos. Se assim foi – e sem que as relações de força entre Madrid e Barcelona estivessem a viver momentos particularmente especiais –, por que razão achou Carles Puigdemont que a História lhe teria concedido o privilégio de estar a viver um tempo especial? Uma coisa é certa, são muitos aqueles que, consumidos pelo seu ego ou até mesmo delírio, se consideraram predestinados para fazer algo de grandioso e acabaram na sarjeta da História… ou em manicómios.

 

Texto publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 21:02
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017

O regresso dos jihadistas aos países de origem

 

Os ganhos conquistados no terreno pelas várias frentes de combate contra o Estado Islâmico (IS), e que levaram à reconquista de Raqqa (até aqui, o reduto daquele movimento terrorista), é, naturalmente, um motivo de satisfação, já que confirma a tendência que se tem vindo a verificar desde 2015, com o encolhimento do território que tem estado sob o domínio terrorista no Iraque e na Síria. O problema é que muitos dos terroristas que estavam nesses territórios estão agora a regressar aos seus países de origem, muitos deles na Europa. Os números avançados pelo think tank Soufan Center falam em cerca de 5600 jihadistas que agora estão de regresso e que representarão uma ameaça para os próximos anos. Ao todo, são 33 países que confirmaram as chegadas destes militantes islâmicos, sendo que, por exemplo, só no Reino Unido foram registadas 850 entradas. Este número equivale mais ou menos a metade dos cidadãos britânicos que se estima terem ido para os países do Médio Oriente para se juntarem às fileiras do EI. De acordo com os dados compilados neste relatório, desde a criação do EI em 2013, perto de 40 mil estrangeiros de 110 países juntaram-se àquele movimento. Até ao momento, o Soufan Center conseguiu confirmar as identidades de 19 mil jihadista, um número impressionante e que prova a capacidade de mobilização e recrutamento do Estado Islâmico. Dos 5600 militantes islâmicos que regressaram aos seus países de origem desde 2015, 400 são russos, 760 são sauditas, 800 são tunisinos e 271 são franceses, além dos 850 acima referidos que voltaram ao Reino Unido. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:13
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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017

Xi Jinping, uma agenda a pensar na China de 2049

 

Na China o tempo tem outro tempo. Os líderes chineses pensam a longo prazo, não em termos de ciclos eleitorais de quatro ou cinco anos, mas numa lógica de décadas. Xi Jinping, o Presidente chinês e secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCC), tem uma estratégia de “modernização socialista” definida para 2049, ano em que aquele país celebra o centenário da instauração da República Popular. Na chefia do Estado desde 2012, dizem os analistas que nunca nenhum outro líder chinês acumulou tanto poder desde Mao Tse Tsung. Efectivamente, Jinping tem revelado uma agenda de imposição de autoridade dentro do próprio PCC, levando a cabo uma autêntica purga no seio das estruturas e subestruturas do partido, quer a nível central, quer a nível local. A corrupção entre os quadros do partido tornou-se um vírus, que Xi Jinping não hesitou em erradicar. Ao mesmo tempo que a economia continuou a crescer e o país a modernizar-se, o regime tem apostado forte numa agenda militar, reforçando ano após ano o orçamento da Defesa, estando neste momento em construção um segundo porta-aviões, num claro sinal de que a China, a par do seu Exército, quer ter argumentos para a disputa dos mares. E por falar em mares, tem sido no Mar da China que Pequim tem revelado tendências expansionistas, algo que não tem sido propriamente característico na sua longa história.

 

Toda esta estratégia entronca no discurso de Xi Jinping na abertura do 19º Congresso do PCC, no qual proclamou uma “nova era” para a China, tendo chegado a altura daquela potência “ocupar o palco central no mundo”. O Congresso do PCC, neste momento reunido em Pequim com mais de 2300 delegados, é o principal órgão do partido, porém, só é convocado apenas de cinco em cinco anos. Entre outras coisas, tem a função de eleger os membros do poderoso Comité Central, cerca de 250 membros, que, por sua vez, nomeiam os elementos do Politburo, perto de 25. E é daqui que saem os sete poderosos homens que governam a China, o chamado Politburo Standing Committee, no qual está o Presidente e secretário-geral do partido (de notar, que cabe ao Comité Central a escolha do nome para secretário-geral e posterior Presidente, sendo que nesta matéria nada de novo acontecerá).

 

A questão que se coloca neste Congresso é saber até onde vai o poder de Xi Jinping e que orientações ditará para os próximos anos, nomeadamente, no que diz respeito à apresentação de novos nomes que possam um dia suceder-lhe na liderança do PCC. Tradicionalmente, é isso que costuma acontecer, mas existem dúvidas de que Xi Jinping queira, para já, perfilar potenciais sucessores, para não emitir sinais de que, num horizonte próximo, a sua saída poderia estar a ser equacionada. Além disso, é inegável que está claramente em curso um reforço do poder do Presidente. Por exemplo, aquilo que é conhecido como “Pensamento de Xi Jinping” ou “Teoria de Xi Jinping”, que na prática consubstancia a ideologia do líder chinês, poderá ficar inscrito na Constituição, já que o Congresso tem poderes para alterar aquele documento. A acontecer, será o primeiro líder, desde Mao, a ver a sua doutrina incorporada na Constituição com referência directa ao seu nome.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 19:37
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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

O camponês da Ventosa

 

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Foto de Adriano Miranda/Público

 

Não está a chorar, mas parece que já chorou. E muito. Talvez as lágrimas já se tenham evaporado com o calor infernal das chamas. O seu olhar nada espelha. A alma deve estar vazia… É o olhar de um homem devastado, não pela vida, porque estes são homens duros, habituados às agruras da terra, e muito menos pela Mãe Natureza, com quem deverá ter tido uma relação feliz de muitas décadas. Não, quem o prostrou fomos todos nós, enquanto sociedade, enquanto colectivo social, enquanto Estado, enquanto Nação, enquanto Governo. Fomos nós quem quebrou o espírito daquele camponês da Ventosa e o fez chorar.


A vida foi-lhe poupada pelo capricho cínico das chamas, mas sobre si abateu-se um céu dantesco, como que a lembrar ao camponês que de nada lhe serve a prece que parece estar a fazer, porque ninguém vem em seu auxílio. Está entregue ao seu triste destino, condenado a vaguear e a morrer, um dia, esquecido e sem nada. Até lá, vai sendo traído pelas memórias felizes dos tempos das lides nas suas terras, no trato dos animais, na sua casa, nas suas humildes posses que durante uma vida tentou juntar. Quanto mais a dor se vai instalando no espírito do camponês, mais nós, todos, vamos esquecendo que um dia aconteceram duas calamidades extraordinárias no mesmo Verão, que ceifaram mais de 100 vidas e destruíram literalmente parte de um país. Vamos esquecendo que, por acção ou omissão, acabámos por ser responsáveis pelo “duplo atentado” terrorista que auto-infligimos ao nosso país. E vamos contemporizando com todos aqueles que, pelas inerências das suas funções, mais obrigações têm na resposta de conforto e ajuda àqueles que mais sofreram com tudo o que se passou.

 

O olhar do camponês da Ventosa, que nos é trazido pela lente do Adriano Miranda no Público, atinge-nos no âmago dos nossos valores e princípios civilizacionais, porque nos lembra que, afinal, aquele Portugal que está na moda, aquele Portugal sofisticado e que é uma "estrela" internacional, é o mesmo Portugal que se deixou destruir, que deixou os seus cidadãos desprotegidos, morrerem barbaramente nas estradas, nas aldeias e vilas. E que vergonha tenho deste Portugal...

 

Publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:37
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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2017

Leituras

 

Kyrgyzstan bucks the central Asian trend for rigged elections é um artigo do The Guardian que fala sobre uma "anomalia" eleitoral que está a acontecer naquela antiga república soviética da Ásia Central.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 20:19
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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2017

Paixão e sangue

 

Este texto não pretende identificar os culpados por aquilo que se tem passado em Espanha, mas propõe-se a fazer uma leitura mais fria e racional, porventura, mais cínica e politicamente incorrecta dos acontecimentos em questão. Governo central, de um lado, e Generalitat, do outro, terão, eventualmente, razões várias para justificar os seus actos, o que não quer dizer que sejam legítimas ou até mesmo aceitáveis para um observador externo. Mas o que interesse mesmo é analisar a forma como os seus intervenientes olham para os argumentos apresentados por cada um dos campos em confronto. E, sobretudo, perceber-se até que ponto as ideias em confronto são de tal maneira mobilizadoras para que o povo saia à rua em “armas”, disposto a dar a vida pela independência. A secessão de uma região é nada mais menos do que uma questão de sobrevivência de um Estado, é um assunto literalmente de vida ou de morte. Fazer uma ruptura secessionista pacífica dentro de um Estado de Direito com um quadro institucional instituído é algo, por definição, contraditório. É um contrassenso, porque nenhum Governo aceita perder parte do seu território a não ser que tal solução lhe seja imposta pela persuasão da força. Tem sido assim ao longo da História. A “via negocial” é um eufemismo para aquilo que costuma ser a resignação forçada por parte de um Governo que, em determinada altura da sua história, seja obrigado a abdicar de parte do seu território.

 

O referendo da Catalunha foi uma farsa, não tanto pelo processo em si (totalmente descredibilizado), mas como elemento catalisador de uma independência que, a acontecer, deixaria a Espanha prostrada. Um movimento destes, que infligiria um rude golpe na existência daquele Estado, dificilmente aconteceria sem paixão e sangue. O que aconteceu no Domingo foi mais um espectáculo mediático, numa sociedade ocidental já pouco habituada a fracturas sangrentas no seu seio no que a nacionalismos diz respeito. Falou-se do excesso de violência no dia do referendo, com aquelas imagens sentimentais que hoje em dia facilmente se propagam pelas redes sociais, do polícia a ser abraçado pelo cidadão ou da manifestante a oferecer uma flor a um agente da autoridade. Pelo meio, mostram-se umas cabeças partidas ou uns arranhões e está feita a encenação para as manchetes dos jornais. Pois a leitura que se deve fazer é precisamente a contrária, ou seja, para o caldeirão que estava a ser criado, e tendo em conta o histórico de sangue da história espanhola, a violência foi praticamente inexistente (e ainda bem). A maior parte dos oitocentos feridos ou são ligeiros ou são ataques de ansiedade.

 

A independência de uma região é coisa séria, não vai lá com likes no Facebook, tweets ou “manifs” de jovens urbanos e elites intelectuais que abraçam uma causa que nem eles próprios compreendem o seu alcance. E não vai lá com líderes que não percebem que nem todo o povo está com eles nos intentos secessionistas. Avançar com uma “brincadeira” destas é de uma irresponsabilidade quase criminosa, porque acaba por criar clivagens dentro da própria sociedade, neste caso a catalã. A independência de uma região deve ser sempre um acto civilizacional, de progresso, de crença positivista nos direitos humanos e nunca um processo de burocracias políticas e judiciais ao serviço do capricho de alguns. A independência é o fim último, almejado para que um povo alcance um estádio de libertação com vista ao bem comum. E tal só pode acontecer com muito sacrifício, crença, empenho total e, muito importante, com a inspiração dos seus líderes. Alguém acredita que o senhor Carles Puigdemont estaria disposto a dar a vida pela independência da Catalunha? Poderá ser exagerada esta questão, mas a verdade é que no passado já tantos outros deram as suas vidas para ver os seus territórios independentes (e não se está a falar de um passado assim tão distante, mesmo na Europa). A História tem demonstrado que uma independência só se consegue com paixão e sangue. E isso os catalães demonstraram no Domingo que não estão dispostos a dar.

 

Texto publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:08
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Quinta-feira, 28 de Setembro de 2017

Crianças

 

Tudo tem a sua escala. Quando uma mãe, um pai, está no parque infantil com o seu filho ou filhos, normalmente, deixa-os à vontade, naquele espaço controlado, onde os seus ocupantes têm o mesmo código de “conduta” e lógica de discurso (na verdade, ausência dela) e são livres de fazer as diabruras que lhes são permitidas pela tenríssima idade. Os adultos, de longe, vão “deitando o olho” para assegurar que os disparates não ultrapassam os limites aceitáveis e desculpáveis para aquelas pequeninas amostras de gente. Caso o façam, não tendo bem a noção das consequências, de imediato os pais intercedem e males maiores são evitados. No final, todos vão para casa contentes sem danos a reportar. Com alguma sorte, é precisamente isso que se passa entre Donald Trump e Kim Jong-un, ou seja, duas crianças a disparatar no “recreio”, enquanto os “adultos” (espera-se) vão controlando os comportamentos para que nenhum deles cometa a infantilidade de carregar no “botão”. E quem são esses adultos? O aparelho em Washington, as estruturas e sub-estruturas das instituições americanas e também a gente responsável e com senso que está nas chancelarias de Pequim e Moscovo. E, sabe-se lá, se no meio do esquizofrénico regime de Pyongyang não haja alguém na cúpula do poder dotado de uma clarividência já (pelo menos) na idade juvenil.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:02
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Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

Leituras

 

Max Boot, senior fellow do Council on Foreign Relations e colunista do USA Today, compara, em Trump's 'me first' U.N. speech: He's no Truman, o primeiro discurso feito por um Presidente americano nas Nações Unidas, aquando da sua fundação em 1945, e o de Donald Trump, esta Terça-feira. É um excelente artigo porque demonstra como um homem humilde e de raízes modestas, como Harry Truman era, se revelou um "wise man". Já Trump...
 
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Publicado por Alexandre Guerra às 22:26
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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017

A sala onde todos falam com todos

 

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Panorâmica do anfiteatro da Assembleia Geral da ONU com os famosos murais de Fernando Léger, sobre os quais um dia o Presidente Harry Truman disse parecerem uns ovos estrelados. Foto: REUTERS/ Eduardo Munoz

 

Todos os anos, durante esta semana, Nova Iorque fervilha diplomacia, porque é quando quase todos os líderes do mundo e respectivas delegações ali se deslocam para discursar na abertura anual da Sessão da Assembleia Geral das Nações. Na verdade, é das poucas vezes que aquela imponente sala, renovada há três anos, se enche e cumpre a sua função de fórum multilateral para as 193 nações que fazem parte da ONU. Ter-se o privilégio de se estar naquele anfiteatro vazio e em silêncio, é sentir o peso da história político-diplomática do pós-II GM. Todos os líderes mundiais passam por lá.O primeiro-ministro português, António Costa, por exemplo, fará a sua estreia nestas lides na Quarta-feira, um dia depois de Donald Trump, que fará também a sua inauguração na Assembleia Geral enquanto Presidente dos EUA. Formalmente, a 72ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas iniciou os seus trabalhos no passado dia 12, mas é durante estes dias que os muitos corredores e salas do complexo projectado pelos arquitectos Oscar Niemeyer e Le Corbusier, localizado entre as ruas 42 e 48 na Primeira Avenida, se enchem de movimentações diplomáticas. Tudo acontece lá por estes dias, sobretudo reuniões bilaterais de alto nível entre chefes de Estado e de Governo, já para não falar naquilo que é conhecido como a “diplomacia de corredor” e que, muitas das vezes, faz mais pela paz no mundo do que as grandes cimeiras ou conferências. É certo que muito há a criticar nas Nações Unidas, a sua burocracia, hipocrisia, ineficácia, mas a verdade é que é o único local onde todos podem falar com todos de forma diplomática e isso já é uma grande virtude.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:52
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Quinta-feira, 14 de Setembro de 2017

Da admiração à desilusão

 

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Logo pela manhã desta Quinta-feira na CNN, Peter Pophan, biógrafo de Aung San Suu Kyi, demonstrava a sua desilusão com a Nobel da Paz, um prémio atribuído em 1991 pela sua resistência pacífica ao regime militar de Myanmar (ou Birmânia). Acabaria por ser detida pela junta militar em 1989 e não participaria nas eleições de 1990, que deram a vitória ao seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (NLD). Os militares nunca reconheceram estes resultados e Suu Kyi iniciou uma longa e paciente resistência pacífica durante os muitos anos em que esteve sob prisão domiciliária, até 2010. Durante este período, tornou-se numa referência e inspiração na defesa e luta pelos direitos humanos, revelando muitas semelhanças com Nelson Mandela na forma como fez ouvir o seu protesto de forma pacífica.

 

Cativou o mundo político internacional e granjeou a admiração de muitos, e quando foi libertada em 2010, era a figura mais poderosa de Myanmar, levando a NLD à vitória em 2015. Suu Kyi, que constitucionalmente estava impedida de se tornar Presidente, porque o seu último marido e filhos são estrangeiros, acabou por assumir o cargo de Conselheira do Estado, criado exclusivamente para si.

 

O problema é que o papel que assumiu enquanto activista pelos direitos humanos parece ter dado lugar ao da política, ao das conveniências com o poder e com o seu eleitorado, maioritariamente budista. E só assim se percebe a sua conivência e até apoio que tem dado à actuação das forças militares birmanesas na região de Rakhine, onde vive a minoria rohingya.

 

Dizem as Nações Unidas que, no último mês, quase 380 mil pessoas daquela etnia já fugiram de Rakhine, na parte ocidental de Myanmar, em direcção ao Bangladesh, um Estado muçulmano. A causa desse êxodo? A mesma que a História teima em repetir, ou seja, projectos de poder político assentes no preconceito, intolerância e perseguição, e até mesmo aniquilação, do próximo. Neste caso em concreto, do Estado militarizado de Myanmar, com o apoio da polícia local de Rakhine, contra uma minoria muçulmana (mas podia ser de outra religião ou credo) instalada há gerações naquela região, mas cujas pessoas o Governo insiste em chamar de imigrantes ilegais e negar-lhes a cidadania.

 

Aparentemente, esta onda repressiva do Estado é justificada pela necessidade de resposta a ataques de militantes rohingyas no final de Agosto a postos de polícia. Admita-se que isso é verdade (e que é bem possível), mas a questão é que, à semelhança de tantos outros tristes exemplos da História, as forças do Estado parecem estar a aproveitar aquela situação para uma autêntica campanha de erradicação da minoria rohingya de Rakhine. O Governo defende-se e diz que está a apenas a combater os militantes rohingyas, mas a questão é que as várias informações que vão chegando pelos poucos correspondentes que estão no terreno demonstram uma outra realidade: vilas queimadas, violações, violência indiscriminada por parte das forças militares com o apoio de elementos da maioria budista em Rakhine. António Guterres fala numa “catastrófica” situação humanitária e o Alto-Comissário para os Refugiados foi mais longe e referiu-se mesmo a uma “limpeza étnica” que está a acontecer.

 

Quase um terço da população rohingya já abandonou Rakhine. Os relatos dos jornalistas que estão no local contrariam as versões do Governo de Myanmar e mostram o lado humano do sofrimento, com milhares de pessoas a deslocarem-se, da forma que podem, em direcção ao Bangladesh, para aí se instalarem em campos de refugiados sobrelotados. Há uns dias, quando o assunto ainda não estava no topo da agenda mediática, um jornalista do New York Times tinha feito uma reportagem crua, onde se viam pessoas, num estado faminto, com poucos haveres às costas, a caminharem descalças pelas selvas verdejantes daquela região do globo, sem qualquer esperança espelhada no olhar. E ver agora Suu Kyi, outrora uma inspiradora na defesa dos direitos humanos, indiferente a tudo isto, é mais do que desilusão... É uma dor de alma.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:49
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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