Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

Leituras

 

A jornalista Bárbara Reis assina esta Sexta-feira no Público um texto raro nos dias que correm, porque vai contra as ideias feitas da opinião publicada em relação a Trump e ao Papa Francisco. As viúvas de Donald Trump não estão sozinhas demonstra que nem sempre aquilo que parece, é.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 11:43
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Terça-feira, 23 de Maio de 2017

642

 

O terrorismo, sob as suas diversas formas, é um fenómeno que esteve sempre presente na Europa. Se formos a ver bem, o rastilho da I Guerra Mundial é aceso com um acto terrorista. Ao longo das décadas posteriores, o Velho Continente foi assistindo à emergência de vários grupos terroristas, com inspirações ideológicas várias e objectivos circunscritos a uma específica realidade, mas nunca estando em causa a ameaça generalizada a um determinado estilo de sociedade ocidental. Mesmo movimentos terroristas muçulmanos (alguns ligados à causa palestiniana) que surgiram nos anos 70, 80 e 90 tinham nas suas “declarações de guerra” fins muitos bem definidos que pouco ou nada tinham a ver com a destruição do modo de vida ocidental.

 

A Globalização que ganha força no início dos anos 90 após a queda do sistema bipolar das Relações Internacionais veio tornar o mundo mais igual, mais “flat” (pedindo emprestada uma expressão a Thomas Friedman), mas este movimento acaba por criar um paradoxo. Porque, se, por um lado, vai tornando o mundo cada vez mais interdependente e comunicativo entre os países, culturas e religiões, por outro, vai realçando as fracturas dos diferentes paradigmas de sociedade, criando fricções ou, se preferirmos, os tais “choques” de civilizações de que Huntington falava.

 

Se é verdade que Huntington identificava zonas geográficas claras de confronto entre civilizações, o terrorismo global fundado por Osama bin Laden acabaria por levar esse “choque” para as ruas de cidades como Nova Iorque, Paris, Bélgica ou Londres. A al Qaeda é a primeira “multinacional” do terrorismo, com “franchisados” em quase todo o mundo, e a partir desse momento vai inspirando cada vez mais seguidores. Os ataques de 11 de Setembro de 2001 a Nova Iorque e a Washington são uma espécie de “apresentação” hollywoodesca ao “mercado”, sendo que já antes a al Qaeda tinha actividade e era sobejamente conhecida das autoridades, mas totalmente desconhecida do grande público e jornalistas. As imagens dos aviões a embater nas Torres Gémeas a sua consequente queda foram de tal maneira impressivas, com quase três mil mortos, que a al Qaeda ganhou a tal notoriedade que pretendia para poder mobilizar, recrutar e inspirar milhares de militantes radicais em diferentes partes do mundo que estavam “adormecidos”. Tudo o resto, nomeadamente o Estado Islâmico, já é uma consequência disso.

 

Se verificarmos a lista dos principais atentados do terrorismo islâmico na Europa desde 2004, chegamos ao número 642. É o número de pessoas que morreram desde aquele ano até hoje. É certo que a ETA matou mais de 800 pessoas desde a sua fundação em 1959 e o IRA Provisório terá matado cerca de 1800 pessoas entre 1969 e 1997, mas escusado será sublinhar as diferenças evidentes nos tipos de terrorismo em causa e das suas finalidades. Numa análise fria, convenhamos, foram tantas as notícias de mortes em Espanha e no Reino Unido por causa daqueles movimentos e, para lá da comoção momentânea, as pessoas nos vários países europeus nunca sentiram que os seus modelos de sociedade estivessem em causa e muito menos a segurança dos seus estilos de vida. Era um conflito lá “deles”, ou seja, não havia uma sensação de ameaça generalizada na Europa.

 

Ora, ataques como o de ontem em Manchester resultam de uma guerra generalizada e arbitrária à Europa, infligindo o medo e o receio transversais a todos os seus cidadãos, estejam onde estiver, vivam onde viver. E o pior é se cada cidadão começa a pensar que podia fazer parte daquelas 642 pessoas que morreram nos últimos anos em várias cidades europeias, em locais tão comuns, como um mercado ou uma sala de concerto, e isso condicionar a sua liberdade. Se isso vier a acontecer, é a partir desse momento que o terrorismo começa a vencer.

 

Texto publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 19:00
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Quinta-feira, 11 de Maio de 2017

Um imprudente despedimento

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O imprudente despedimento do director do FBI tem todos os contornos para se tornar num daqueles casos em Washington que acabam por fazer história pelas piores razões. Donald Trump justificou a sua decisão com a forma como James Comey conduziu a investigação ao caso dos emails privados de Hillary Clinton e com o facto de ter perdido a confiança dos seus pares e subordinados no FBI. A questão é que esses erros, que, efectivamente, o FBI cometeu, acabaram por beneficiar Trump e prejudicar Hillary Clinton e nada indicava que o Presidente fosse despedir Comey por este ter afectado inadvertidamente a campanha da sua adversária. Os democratas não acreditam na boa fé da medida de Trump e acusam-no de estar a querer fazer um encobrimento da investigação que o mesmo Comey estava a fazer às alegadas polémicas relações entre o círculo próximo de Trump e responsáveis russos. Aliás, neste momento, é essa a ideia que começa a passar para a opinião pública norte-americana. Alguns republicanos mostraram-se contra a decisão de Trump, no entanto, não subscrevem o pedido dos democratas para se nomear um procurador-especial para investigar esta questão. Esta tarde, durante a audição no Comité do Senado para as questões de Intelligence, o director interino do FBI, Andrew McCabe, contrariou a Casa Branca ao revelar que toda a estrutura daquela polícia mantinha o apoio a Comey.

 

Esta história começa a ter contornos perigosos para Donald Trump, com muitos já a recuperar o caso Watergate que levou à demissão de Richard Nixon. Caso se prove que o Presidente demitiu Comey para tentar encobrir a investigação que estava a decorrer sobre as relações entre pessoas próximas de si e figuras russas, pode estar aqui aquilo que muitos queriam: uma razão para iniciar o processo de "impeachment". É por isso que os democratas estão a insistir na nomeação de um procurador-especial, porque se olharmos para a história política recente dos EUA, vemos que sempre que um Presidente tem à perna um desses procuradores, raramente o processo deixa incólume o residente da Casa Branca. Basta recuarmos uns anos e vermos os estragos que o populista Kenneth Starr provocou. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:58
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Domingo, 7 de Maio de 2017

Cinco apontamentos sobre as tarefas do novo Presidente francês

 

1. A França elegeu o Presidente mais novo da V República, com apenas 39 anos, e que vai ter que lidar com três temas principais: segurança, economia e imigração. Neste momento, os franceses elegem a segurança como o primeiro problema, o que é algo inédito desde os tempos da Guerra Fria. François Hollande já tinha deixado o aviso ao seu sucessor, neste caso, Emmanuel Macron, para que não deixe de investir nas forças de segurança.

 

2. O desemprego em França encontra-se neste momento nos 10 por cento, sendo que um em cada quatros jovens com menos de 25 anos está desempregado. Macron quer reduzir o número do desemprego para os 7 por cento, no entanto, a economia não está a ajudar. Os dados mais recentes mostram que a economia francesa só cresceu mais 0,3 por cento nos primeiros três meses deste ano, face aos último trimestre do ano passado. Não é por isso de estranhar que o FMI já tenha vindo dizer que será muito difícil descer o desemprego abaixo dos 8,5 por cento, sobretudo porque existem factores laborais estruturais que tornam aquele mercado menos adaptável às novas realidades e dificulta a contratação de novos empregados. De notar, no entanto, que a França tem elevados índices de produtividade, uma realidade reconhecida pela OCDE, mas tem igualmente altos custos produção e uma grande rigidez laboral. Veja-se, por exemplo, a política das 35 horas semanais que, de facto, vai de encontro aos interesses dos trabalhadores, mas. por outro lado, aumenta a necessidade de horas extraordinárias e, consequentemente, os custos inerentes. Tudo isto somado, talvez ajude a explicar a razão pela qual a França tem uma alta taxa de produtividade, mas um crescimento económico pouco condizente.

3. Macron quer cortar 120 mil funcionários públicos e reduzir em 60 mil milhões de euros a despesa pública. No ano passado, as despesas com o sector público consumiram 56 por cento do PIB, as mais elevadas das economias desenvolvidas. A França tem um sector público gigantesco, com muitos benefícios, o que obriga os restantes trabalhadores do sector privado a pagarem elevados impostos para cobrir todas essas regalias. A reforma do trabalho que Macron pretende fazer será, seguramente, um tema que levará muita gente para as ruas para se manifestarem contra ele, como, aliás, aconteceu com Hollande. Esta reforma pretende, entre outras coisas: "autorizar que uma empresa possa negociar com os seus trabalhadores contratos individuais em vez de ter que se ajustar aos acordos coletivos para todo o setor, sempre que essa empresa consiga provar que está em dificuldades; legalizar a possibilidade de despedimentos nas companhias com menos de 10 empregados, no caso de se verificar que apresentam resultados negativos; vai também apertar os critérios no acesso ao subsídios de desemprego e investir mais na formação profissional dos desempregados."


4. Se em termos económicos, Macron e Le Pen talvez não estão assim tão afastados, já na questão da imigração é imensa a distância que os separa. Para Macron, a França é um país estável nesta matéria e, por isso, o caminho não é a limitação da entrada de imigrantes, mas sim o aprofundamento da integração dos que vivem no país. E nesse sentido vai implementar várias medidas.

5. Em termos políticos, Macron tem que se focar imediatamente nas eleições legislativas de 11 e 18 de Junho, como aliás ficou evidente no seu discurso de vitória, e apresentar o seu candidato a primeiro-ministro, porque será no Parlamento onde algumas das suas medidas terão que ser aprovadas, nomeadamente a lei para a moralização da política, que pretende acabar com o nepotismo e abuso de cargos. A verdade, é que Macron não pode arriscar a ter um parlamento hostil contra si e, por isso, o seu movimento terá que assegurar uma maioria na Assembleia Nacional, ou seja, 289 deputados, provavelmente através de coligações. Porque, ao contrário das presidenciais, nas legislativas cada um vai puxar pelo seu partido. É por isso que o site Politico referia que a verdadeira batalha de Macron vai começar esta Segunda-feira. Macron parece estar confiante que nas próximas semanas conseguirá cativar os eleitores suficientes para que o seu movimento En Marche! consiga um número significativo de lugares na Assembleia, eventualmente, a maioria. Talvez esteja a ser demasiado ambicioso, mas ele está a contar aproveitar a dinâmica de vitória destas presidenciais. E a verdade é que um estudo de opinião realizado esta semana aponta para essa possibilidade. Os Republicanos seriam a outra grande força da Assembleia Nacional. Já a Frente Nacional poderá sair fortemente penalizada por causa do sistema eleitoral francês.
 
Publicado por Alexandre Guerra às 21:46
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Quarta-feira, 26 de Abril de 2017

Um grito constante de sofrimento

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Recordo, há uns anos, em conversa sobre o Guernica, de alguém me dizer que, para um especialista em pintura ou para um aspirante a pintor, mais do que apreciar aquele famoso quadro, o mais emocionante era ver e estudar os 45 esboços e estudos prévios igualmente expostos nas galerias contíguas. Compreendi a lógica. Muitas vezes, e dependendo sempre da perspectiva de quem vê, o mais importante pode ser o processo técnico e artístico que conduz a um determinado fim.

 

Para um simples admirador de pintura, como é o meu caso, é naturalmente a obra final que mais interessa, porque é lá que a arte e a mensagem atingem a sua plenitude, aquelas que o artista queria transmitir, deixar para a Humanidade. E no caso do Guernica, o que vi há uns anos no Museu Reina Sofia, em Madrid, foi a expressão máxima da violência e da destruição, provocada pelo bombardeamento dos aviões da Alemanha Nazi, aliada de Francisco Franco, sobre a pequena aldeia basca perto de Bilbao, precisamente a 26 de Abril de 1937, em plena Guerra Civil Espanhola. Todo o quadro é um retrato premonitório do horror apocalíptico que se viria viver poucos anos depois na II Guerra Mundial e uma antecipação dos bombardeamentos massivos que seriam levados a cabo pela Luftwaffe. Mais mais do que isso, é um grito constante de sofrimento de uma população indefesa. 

 

Além de toda a componente artística, aquilo que me toca tanto neste quadro é o facto de representar uma reacção imediata do pintor aos acontecimentos, uma espécie de “fotografia” em tela... E, sobretudo, a visão e o sofrimento de Picasso, o seu statement contra a perversidade que o Homem consegue infligir ao seu semelhante.

 

Guernica foi criado como um manifesto pacifista ou anti-guerra (ou pelo menos adquiriu esse estatuto) contra as acções políticas que conduzem a um massacre deliberado de homens, mulheres, crianças e até animais. Infelizmente, hoje, ao olharmos para o quadro de Picasso, sabemos que há sempre alguém, algures no mundo, a gritar de sofrimento por causa das motivações perversas do Homem. E nisso, 80 anos depois do génio ter pintado aquela obra prima, o mundo continua igual.

 

Publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 15:22
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Terça-feira, 18 de Abril de 2017

Não é preciso uma bola de cristal

 

Há quem tenha jeito para antecipar crises na bolsa, choques petrolíferos, oscilações nos mercados, se vai ser rapaz ou rapariga, se o Benfica vai ganhar o campeonato ou até se vai chover ou fazer sol no dia seguinte. Nos Estados Unidos, na localidade de Punxsutawney, na Pensilvânia, até há uma marmota que consegue prever o fim do Inverno e o início da Primavera. Reconheço que não tenho qualquer desses dons premonitórios, mas sempre tive algum jeito para antecipar movimentações ou acontecimentos internacionais. Nunca tive acesso a informação particularmente privilegiada e, muito menos, qualquer inspiração divina ou bola de cristal em casa (embora sempre quisesse ter uma daquelas com raios de electricidade). A receita é simples: alguma informação de background; ver com atenção as notícias e asseverar a credibilidade das suas fontes; ir acompanhando os assuntos ao longo dos anos; e alguma perspicácia na análise. Recordo que foi assim que dei uma manchete ao extinto SEMANÁRIO, com a chegada das forças especiais norte-americanas ao Afeganistão, semanas depois do 11 de Setembro, no mesmo dia em que a imprensa americana dava a notícia. Ou, quando fiz outra manchete com a notícia de um golpe de Estado iminiente na Guiné Bissau (aqui, com a ajuda de algumas fontes), o que veio acontecer meses depois, apesar dos protestos de Bissau àquela notícia.

 

Nos útimas semanas, verificaram-se três acontecimentos cuja sua previsão não era assim tão difícil e aos quais fiz referência ainda antes de acontecerem perante um silêncio quase absoluto sobre os mesmos. A 6 de Março, depois da Coreia do Norte ter testado mais quatro mísseis e de ainda ninguém estar minimamente preocupado com o assunto, escrevia que a "comunidade internacional parece estar bastante permissiva perante esta ameaça, dando muito mais atenção a outros assuntos (importantes, é certo), mas que não têm a gravidade do que se está a passar" naquele país. E mais à frente falava na possibilidade de acções "preemptivas" e "preventivas" contra Pyongyang. Duas semanas depois, o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, admitia que essa hipótese estava em "cima da mesa". A partir daí, o tema rapidamente escalou para o topo da agenda internacional, como se tem constatado. O mesmo aconteceu com o referendo turco, que rebentou com estrondo na Europa, apesar de há muito as "cartas" estarem todas em cima da mesa. E a 28 de Março sublinhava precisamente que o que era "preocupante é que no seio das elites políticas e dos iluminados comentadores que por aí andam, instalou-se um histerismo colectivo em relação a alguns senhores e senhoras 'populistas' que têm ido (e vão) a votos nalguns países europeus, mas sobre o que está em jogo no referendo da Turquia, com muitas perspectivas de ver o 'sim' ganhar, nem uma palavra". Mais, já a 9 de Janeiro dizia que Erdogan ia "caminho da entronização". Por fim, esta Terça-feira, Theresa May anunciou "surpreendentemente" eleições antecipadas no Reino Unido. Ora, mas a surpresa seria assim tanta? A 5 de Setembro do ano passado, em jeito de sugestão à senhora May, propunha isto: "Vislumbra-se uma saída para toda esta questão e que, por um lado, permitiria legitimar popularmente o poder de May e, por outro, abrir uma oportunidade democrática para que o processo [Brexit] pudesse parar. E que via seria essa? Simples, a de eleições antecipadas."

 

O exercício que aqui fiz serve apenas para mostar que os acontecimentos internacionais, regra geral, não surgem do nada, numa espécie de combustão espontânea, para grande espanto de todos. Pelo contrário, há sinais, evidências, um processo, um histórico que nos permite prever ou antecipar determinados cenários ou realidades. Se é verdade que não se exige ao comum dos cidadãos que acompanhe estes assuntos com particular empenho, já os políticos e decisores têm a obrigação de andarem um pouco mais atentos, para depois não serem apanhados de surpresa.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:07
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Segunda-feira, 17 de Abril de 2017

O dia em que entrevistei o "Mandela palestiniano"

 

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Ilustração de Marwan Barghouti da autoria de Durar Bacri/Haaretz

 

Marwan Barghouti é, desde há alguns anos, a maior figura palestiniana na liderança da resistência palestiniana. É aquela que mais carisma tem junto da população da Cisjordânia, sobretudo a que está mais identificada com a Fatah. Para muitos, é visto como o sucessor natural de Yasser Arafat, visto que o actual Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, pelo seu perfil moderado e apagado, nunca despertou grandes paixões numa região que vive diariamente inflamada pelo conflito com Israel. É, por isso, normal, que tanto palestinianos, como líderes mundiais, o vejam como o único homem capaz de conduzir a Palestina à independência. O problema é que Barghouti, que liderou as milícias Tanzim, braço armado da Fatah (uma acusação que ele sempre negou), está encarcerado nas prisões israelitas, sentenciado a passar ali o resto dos seus dias. Tendo sido em tempos secretário-geral da Fatah e alvo de inúmeras tentativas de assassinato por parte dos serviços secretos do Exército de Israel (Shin Bet), Barghouti foi um dos principais líderes da Intifada de al-Aqsa, acabando por ser preso em 2002, em Ramallah, pelas Forças de Segurança Israelitas (IDF). Desde então, a sua popularidade e notoriedade aumentaram exponencialmente, passando a ser uma voz activa atrás das grades e um símbolo da resistência palestiniana, o que lhe valeu a alcunha de "Mandela palestiniano".

 

Este Domingo, voltou a promover uma acção pacífica de contestação, ao dar início a uma greve de fome que envolve 700 reclusos palestinianos ligadas à Fatah, que se estendeu também a mais algumas centenas de prisioneiros da Jihad Islâmica e do Hamas. Esta iniciativa poderá reacender a tensão nas ruas das principais cidades da Cisjordânia e recentrar a problemática israelo-palestiniana no topo da agenda internacional, já que Barghouti tem hoje mais influência política do que tinha há 15 anos. Alguns governantes, como Ehud Barak, e responsáveis militares israelitas, estão conscientes desse facto. Aliás, o próprio Barak, aquando da detenção de Barghouti, ligou para Shaul Mofaz, na altura chefe do Estado-Maior das IDF, e disse-lhe o seguinte: “Have you lost your mind? What’s the story with Barghouti? If it’s part of your struggle against terrorism, it’s meaningless. But if it’s part of a grand plan to make him a future national leader of the Palestinians, then it’s a brilliant scheme, because what’s really missing in his résumé is direct affiliation with terrorism. He will fight for the leadership from inside prison, not having to prove a thing. The myth will grow constantly by itself.”

 

Conheci Barghouti um ano antes, quando ele era secretário-geral da Fatah. Fui entrevistá-lo. No seu escritório em Ramallah, lá estava ele, uma figura de pequena estatura, com ar amistoso e com o seu famoso bigode (hoje anda de barba). Cordial e acessível, embora não exibisse uma simpatia excessiva, o militante da Fatah demonstrou desde logo uma convicção política firme. A entrevista foi partilhada com um jornalista da agência de notícias alemã, e apesar das insistências, Barghouti nunca admitiu que era o líder das milícias Tanzim, responsáveis por vários atentados terroristas contra Israel. Recordo que ele se serpenteava como um verdadeiro político na forma como respondia às perguntas mais sensíveis que lhe eram colocadas, chegando mesmo a dizer que acreditava que a Palestina ia ser independente “dentro de cinco anos” (foi este o título da entrevista depois publicada no jornal Público. No entanto, a História viria demonstrar que Barghouti estava errado). Relembro que dias antes, Barghouti tinha escapado a um atentado selectivo das IDF contra o carro onde viajava. Um ano mais tarde, os soldados israelitas acabariam por deter Barghouti, sendo condenado posteriormente a cinco penas perpétuas. Quando,10 anos depois, foi tornado público um importante acordo de troca de prisioneiros que estava a ser forjado entre o Governo israelita e o Hamas, uma centelha de esperança reacendeu-se para milhares de palestinianos, que viram ali uma oportunidade para fazer regressar a casa o carismático Barghouti. Mas, rapidamente essa esperança se esvaneceu. Sabendo do prestígio e da notoriedade do ex-líder das Tanzim, as autoridades israelitas tiveram o cuidado de deixar bem claro desde o início desse processo de troca de prisioneiros, que Barghouti não estava incluído nas listas dos palestinianos a serem libertados. Mas, a questão é que Ehud Barak foi certeiro quando ligou a Mofaz, porque quanto mais tempo Barghouti estiver preso, mais o seu carisma e a sua capacidade de mobilização popular vão aumentando. É muito provável que, para Israel, Barghouti se torne cada vez mais um problema atrás das grades do que em liberdade. Para já, o "Mandela palestiniano", com apenas 57 anos, vai fazendo a sua resistência pacífica, que lhe poderá vir a ser muito mais eficaz do que os anos de violência que perpetrou na tal luta pela independência que sempre almejou.

 

Publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:47
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Quinta-feira, 13 de Abril de 2017

A compaixão feminina na Via Dolorosa

 

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Uma pintura de Giovanni Cariani (1490-1547) que retrata Verónica a ir de encontro a Jesus Cristo, quando este percorria a Via Dolorosa em direcção ao Calvário, para, com o seu véu, lhe limpar o sangue e suor do rosto, que ficou estampado no tecido. E assim terá ficado eternamente, tendo o "Véu de Verónica" se tornado numa das mais famosas "relíquias" do Cristianismo.

 

"No meio da multidão que O segue, há um grupo de mulheres de Jerusalém: conhecem-No. Vendo-O naquelas condições, misturam-se com a multidão e sobem para o Calvário. Choram. 

 

Jesus vê-as, entende o seu sentimento de compaixão. E, mesmo num momento trágico como aquele, quer deixar uma palavra que ultrapasse a simples compaixão. Deseja que nelas, que em nós não haja apenas comiseração mas conversão do coração. [...]

 

Muitas vezes as situações não melhoram, porque não nos empenhámos em fazê-las mudar. Retiramo-nos sem fazer mal a ninguém, mas também sem fazer o bem que poderíamos e deveríamos fazer. E talvez alguém esteja a sofrer por isso, pela nossa evasão."  

Do Evangelho segundo Lucas 23, 27-28

 

A Semana Santa, além do seu significado religioso, representa um dos acontecimentos políticos e sociais mais importantes da Humanidade: a chegada de Jesus Cristo, o "rei" dos judeus revoltosos contra o domínio de Roma, a Jerusalém. Os dias que se seguiram foram conturbados, de autênticas manobras políticas, conspirações e traições. No fim, a condenação de Jesus Cristo, não sem antes sofrer na caminhada pela Via Dolorosa com a cruz às costas, perante uma sociedade instrumentalizada e instigada. O percurso final de Jesus Cristo para o Calvário, na altura situado numa colina fora da cidade velha de Jerusalém, começa no local onde Pilatos terá "lavado as mãos", desresponsabilizando-se do destino do "rei" dos judeus. A partir daí, a Via Dolorosa vai atravessando parte da cidade velha de Jerusalém, prolongando-se até à Igreja do Santo Sepulcro. 

 

É sem dúvida uma experiência única e de um interesse admirável. Percorri-a algumas vezes, primeiro no Verão de 2001 e depois em 2002, anos marcados pela violência da intifada de al Aqsa (de Setembro de 2000 a 2005), que afastaram por completo os turistas da Cidade Santa. Se é verdade que esse facto provocou um enorme rombo no comércio local, por outro lado, proporcionou-me uma experiência rara, ao permitir a um estrangeiro andar pelas muralhas da cidade de Jerusalém apenas em convívio exclusivo com os (poucos) locais. É muito emocionante percorrer as várias estações que compõem a Via Dolorosa e que assinalam diferentes momentos bíblicos dessa caminhada de Jesus Cristo, realizada nesta altura do ano há cerca de 2000 anos. É um exercício interior e introspectivo, que nos confronta com o mal e sofrimento humano, mas também com a solidariedade e o amor do próximo. Pensando um pouco naqueles acontecimentos, percebemos que são sobretudo as mulheres que vão em auxílio de Jesus Cristo na sua caminhada em sofrimento. Maria, Verónica e depois as "mulheres de Jerusalém", choram pelo filho de Deus e acompanham-No com toda a sua compaixão ao Calvário.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:17
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Segunda-feira, 10 de Abril de 2017

Carme Chacón

 

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Quando este Domingo soube da morte de Carme Chacón, relembrei de imediato aquela icónica imagem de 14 de Abril de 2008 da então ministra da Defesa espanhola a passar revista às suas tropas. Recordo que na altura aquela imagem me tocou de uma forma estranha e nunca mais a esqueci, não apenas por ter sido a primeira mulher a ocupar aquele cargo em Espanha (2008-2011), mas por ter tido a coragem de se apresentar às suas tropas grávida de sete meses, num claro desafio aos preconceitos e conservadorismo da sociedade. Dias depois partia para o Afeganistão, porque, como Chacón disse, grávida ou não, era claro para ela que a sua "primeira obrigação era visitar aqueles que são capazes de pôr a sua vida em risco por valores superiores: a liberdade de outros". Mostrou sempre orgulho nas Forças Armadas espanholas e foi uma lutadora pelos direitos das mulheres em todo o mundo. O seu filho, que naquele dia ainda carregava consigo, só pode sentir orgulho nos valores e princípios que a mãe defendeu e protagonizou.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:39
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Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

Ser presidencial

 

Donald Trump esta noite foi presidencial. Quando a diplomacia falha e o Conselho de Segurança da ONU entra num lamentável impasse, o Presidente americano assumiu as responsabilidades de liderança da nação mais poderosa do planeta. Num mundo ideal, tudo se resolveria à volta de uma mesa entre chefes de Estado, mas num mundo ideal, também não morreriam homens e mulheres inocentes, crianças, intoxicadas com armas químicas.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 10:07
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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