Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

Nem tudo é mau

 

Há uns dias acompanhei a audição de confirmação no Senado do novo secretário de Defesa norte-americano, o General James Mattis, e, não o considerando propriamente bem preparado para as perguntas que o senador John McCain lhe ia colocando, achei-o calmo e ponderado nas afirmações que ia proferindo, nomeadamente no que dizia respeito ao relacionamento dos EUA com os aliados e organizações internacionais. Já esta Quinta-feira estive com atenção à primeira conferência de imprensa do novo "press secretary" de Trump e, não tendo uma presença propriamente simpática, penso que Sean Spicer, além de se mostrar moderado nas suas palavras, esteve bastante seguro e bem preparado na resposta aos jornalistas.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:35
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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2017

O adeus de Obama

 

Quando já se anda há algum tempo nos bastidores da comunicação política e, ainda há mais tempo, atento às figuras políticas nacionais e internacionais que nos rodeiam, percebe-se que o “produto genuíno” é escasso, é um bem raro… Aquele homem ou mulher que admiramos, que nos inspira como pessoa e como líder, que queremos servir ou seguir, pela qual nos sacrificamos em prol de uma causa maior.

 

Personagens e actores políticos, há muitos, aqueles que desempenham um papel em seu benefício ou interesse próprio, que pensam apenas numa lógica de poder. Verdadeiros líderes, há poucos, os que pensam primeiro nos outros e só depois em si, os que inspiram e transmitem uma confiança, os que dão esperança e elevam a auto-estima das pessoas, os que defendem os seus e os que consideram que a democracia é sobretudo para servir o povo.

 

Podemos passar uma vida a procurar esse “produto genuíno” e não encontrá-lo, como também podemos ter a sorte de um dia nos cruzarmos com ele quando menos esperamos. Por vezes, é tudo uma questão de circunstância e oportunidade, como aconteceu há oito anos, quando os americanos elegeram Barack Obama. Ao longo destes anos vi nele uma inspiração, fui escrevendo sobre a aventura única desta administração vivida por alguns membros da sua equipa, dos seus assessores, dos seus homens de confiança, tais como David Plouffe ou David Axelrod. Do que fui lendo e vendo, era a personificação do político que nos faz lembrar por que é que às vezes optamos por um determinado estilo de vida profissional e até pessoal.

 

Nesta Terça-feira à noite, Barack Obama regressou a Chicago, cidade que o viu nascer para a política, para se despedir num tom emotivo e poderoso. Ouvi-o e vi-o com muita atenção e foi quase uma hora de discurso brilhante, porque, numa altura em que os EUA e o mundo atravessam crises de valores e desumanizam-se, Obama veio sublinhar a importância do reforço contínuo da democracia e do papel do povo na construção das suas sociedades.

 

É um daqueles discursos que se sonha um dia poder ajudar a escrever para momentos tão marcantes. Só posso imaginar o privilégio que deve ter sido para Cody Keenan, “speechwriter” de Obama, que foi até ao quarto draft e que ainda teve de introduzir as alterações do Presidente na Terça-feira à tarde. É todo um processo de criação e de convicção que só é possível quando acreditamos verdadeiramente.

 

Ouvi Obama reconhecer que, depois destes oitos anos, se tornou um melhor Presidente mas, sobretudo, um melhor homem. Agradeceu ao seu povo, à sua mulher e filhas, ao seu vice, mas também apelou aos concidadãos para que lutem pela sua democracia e pelos seus interesses. Obama disse que vai estar ao lado das pessoas e incentivou-as a acreditarem nelas próprias. É isso mesmo, acreditar em nós próprios e ter esperança nas sociedades que vamos construindo.

 

Na hora do adeus, Obama verteu uma lágrima… acredito que muitos outros o tenham feito.  

 

Publicado por Alexandre Guerra às 14:41
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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

Erdogan a caminho da entronização

 

Recep Tayyip Erdogan inicia hoje a tramitação formal para a sua entronização no poder. O Parlamento da Turquia vai discutir durante as próximas duas semanas um pacote de reformas constitucionais que tem como objectivo presidencializar o sistema político daquele país, um processo que o chefe de Estado turco há muito vem ensaiando, com a adopção de inúmeras medidas, nomeadamente, ao nível da restrição de liberdades e garantias e do afastamento de milhares de funcionários públicos com ligações à oposição do regime. O fim das negociações entre Ancara e Bruxelas com vista a adesão à UE reforçaram ainda mais o distanciamento da Turquia em relação aos valores e princípios europeus. Erdogan já deu claros sinais do caminho que pretende seguir e, hoje, percebe-se que a Turquia vai desligar-se do seu lado mais europeu e cosmopolita para abraçar com mais entusiasmo o seu lado euroasiático.

 

O conjunto de reformas que começa agora a ser discutido vai reforçar, em muito, os poderes de Erdogan e espera-se que seja aprovado sem problemas pelo Parlamento, já que o AKP, partido do poder, conta com uma larga maioria naquela câmara. O vice-primeiro-ministro, Nurittin Canikli, disse esta Segunda-feira que, posteriormente, o projecto de alteração da Constituição deverá ser referendado em Abril. E será neste momento que os turcos, um povo dividido entre a modernidade ocidental e o medievalismo asiático, terão um teste muito importante para o futuro do seu país e das suas vidas. Se votarem favoravelmente às alterações constitucionais, Erdogan assumir-se-á como uma espécie de sultão moderno, mas, se rejeitarem as ambições de Erdogan, então a Turquia ainda poderá reencontrar o seu caminho em direcção à Europa.

      

Publicado por Alexandre Guerra às 11:28
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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2017

2017, o ano do renascimento do Czar Putin

 

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A eleição de Donald Trump veio colocar Vladimir Putin numa posição de enorme relevância no sistema internacional, talvez como nunca tenha tido antes, porque, pela primeira vez, tem em Washington um interlocutor que lhe parece reconhecer o seu poder czarista e autoritário sem qualquer constrangimento ou julgamento moral. Mais, Trump parece estar disposto a aceitar e a respeitar as regras do jogo definidas por Putin, naquilo que poderá ser um paradigma com algumas semelhanças ao sistema de Guerra Fria em matéria de delimitação de zonas de influência. Perante isto, e à luz daquilo que se tem vindo a saber, é muito provável que Putin venha novamente a estar num plano de igualdade com o seu homólogo norte-americano. Trump parece querer conceder-lhe esse privilégio, já que não o deverá fazer a mais nenhum chefe de Estado. Além disso, do que se vai percebendo, Trump acreditará que o mundo pode ser gerido novamente pelas duas potências, numa divisão de influências, onde a China e outros Estados emergentes não lhe merecem grande atenção (quantas vezes ouvimos Trump falar do Brasil, da Índia ou até mesmo do Reino Unido ou da Alemanha???). Hoje, mais do que nunca, é importante perceber quem é Putin, como pensa e como age.

Acompanho com atenção o percurso de Vladimir Putin ainda antes de ter sido eleito Presidente da Rússia pela primeira vez em 2000. Quando a 9 de Agosto de 1999 o então já falecido Presidente Boris Yeltsin demitia o seu Governo e apresentava ao mundo uma nova figura na vida política russa, poucos eram aqueles que conheciam Vladimir Putin. Aos 46 anos, Putin, ligado ao círculo de São Petersburgo, e antigo oficial do KGB (serviços secretos), assumia a chefia do novo Executivo, com a motivação manifestada por Yeltsin de que gostaria de vê-lo como seu sucessor nas eleições presidenciais de 2000. Segundo alguns registos, Putin nunca terá tido a intenção de seguir uma carreira política, no entanto, teve sempre um alto sentido de servidão ao Estado, como aliás fica bem evidente na recente biografia de Steven Lee Myers, "O Novo Cazar" (2015, Edições 70). Na altura, terá confessado que jamais tinha pensado no Kremlin, mas outros valores se erguiam: “We are military men, and we will implement the decision that has been made”, disse Putin. Muitos viram na decisão de Yeltsin o corolário de uma carreira recheada de erros e que conduzira o país a um estado de sítio. A ascensão de Putin era vista como mais um erro. Citado pelo The Moscow Times, Boris Nemtsov, na altura um dos líderes do bloco dos "jovens reformistas" na Duma e que viria a ser assassinado em Fevereiro de 2015, disse que Putin causou uma fraca impressão na primeira intervenção naquela câmara. "Não era carismático. Era fraco." Também ao mesmo jornal, Nikolai Petrov, do Carnegie Moscow Center, relembrava que Putin deixou uma "patética imagem", sendo um desconhecido dos grandes círculos políticos, e que demonstrava ter pouco à vontade com aparições públicas, chegando mesmo a ter alguns comportamentos provincianos.

Apesar disso, a Duma acabaria por aprovar a sua nomeação para a liderança do Governo, embora por uma margem mínima. É preciso não esquecer que Putin reunia apoio nalguns sectores, nomeadamente naqueles ligados aos serviços de segurança, que o viam como um homem inteligente e com grandes qualidades pessoais. E, efectivamente, após ter assumido os desígnios do Governo, Putin começou de imediato a colmatar algumas das suas falhas, nomeadamente ao nível de comunicação, e a desenvolver capacidades que se viriam a revelar fundamentais na sua vida política. É o próprio Nemtsov que reconheceu o facto de Putin se ter tornado mais agressivo e carismático, dando às pessoas a imagem do governante que os russos prezam. Características que se encaixaram na perfeição ao estilo musculado necessário para responder às explosões que ocorreram em blocos de apartamentos de três cidades russas, incluindo Moscovo, em Setembro de 1999, vitimando sensivelmente 300 pessoas, colocando o tema da segurança no topo da agenda da vida política russa, para nunca mais sair de lá. Em Outubro desse ano, como resposta, Putin dava ordem para o envio de tropas para a Chechénia.

Nas eleições presidenciais de 2000, Putin obteve 53 por cento dos votos, contrastando com os 71 por cento conquistados quatro anos mais tarde. Por motivos de imposição constitucional que o impedia de concorrer a um terceiro mandato presidencial, Putin teve que fazer uma passagem pela chefia do Gvoerno entre 2008 e 2012, mas era claro que nunca teve verdadeiras intenções de deixar os desígnios da nação nas mãos do novo ocupante do Kremlin. Conhecendo-se um pouco da história política russa e da sua liderança, facilmente se chegaria à conclusão de que Putin era o homem por detrás do poder, enquanto o novo Presidente em exercício, Dimitri Medvedev, seria apenas um "fantoche". Medvedev compreendeu bem o seu papel nesta lógica de coabitação, remetendo-se praticamente a uma mera representação institucional, sem ousar discutir com Putin a liderança da política russa. Como na altura se constatou, a forma seria apenas um pormenor porque o que estava em causa era a substância da decisão. Ouvido pela rádio Ekho Moskvy, na altura, o analista russo Gleb Pavlovsky ia directo à questão central: "We can forget our favourite cliche that the president is tsar in Russia." E neste caso o Czar é Vladimir Putin que tanto o poderia ser na presidência, na chefia do Governo ou noutro cargo qualquer, desde que fizesse as devidas alterações constitucionais e que continuasse acompanhado dos seus "siloviki".

Aparentemente, Putin tem em Washington um parceiro que não o recriminará e que respeitará a sua liderança, desde que o Presidente russo não mexa com os interesses norte-americanos que, diga-se, nem será assim um exercício tão difícil de aplicar. Actualmente, Moscovo joga algumas das suas prioridades geoestratégicas e geopolíticas em tabuleiros que Trump já deu a entender não estar interessado. Agora, é ver a partir de dia 20 de Janeiro como o Czar Putin e o populista Trump se vão entender.

 

Publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:01
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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2016

Dama de Da Vinci enche de orgulho a Polónia

 

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"Dama com Arminho" de Leonardo Da Vinci’s/Foto: Carl Court/Agence France-Presse — Getty Images

 

Um país que só dependa do seu "hard power" para se posicionar no sistema internacional terá grandes dificuldades para se afirmar como um referencial de valores e princípios que suscitem a admiração e o respeito pelos demais Estados. É por isso que, sobretudo depois do fim da Guerra Fria e com o espoletar da globalização, os governantes virtuosos começaram a dar mais atenção àquilo que é denominado por "soft power". Negócios como aquele que o Governo polaco acabou de fazer, ao comprar por 100 milhões de euros a famosa Colecção Czartoryski, onde se inclui o raríssimo retrato de Leonardo Da Vinci, "Dama com Arminho" (um dos quatro retratos que fez com mulheres), vão cada vez mais além de uma mera questão Cultural, para se tornar uma matéria de poder e prestígio. Aliás, para o conservador Partido Lei e Justiça que está à frente do Governo polaco, esta aquisição é vista como uma matéria de orgulho nacional.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:33
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Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2016

Líderes, uns e outros

 

Quando se fala de líderes nunca esqueço que existem aqueles cuja autoridade provém meramente do seu poder institucional e há os outros, os que na verdade ficam na História, cuja influência vem da sua capacidade de inspirar e motivar os outros.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:19
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

O nascimento de Jesus Cristo e a política

 

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The Adoration of the Magi  
ANTONIO VIVARINI (Murano, 1440-1480) 
Gemäldegalerie, Berlin

 

O Natal é vivido pela maioria das pessoas como um acontecimento "familiar", no qual se celebra o nascimento do Rei dos Judeus (embora nas actuais sociedades pós-modernas já muito poucos façam essa associação). Nesta lógica de pensamento, a época natalícia é sobretudo um fenómeno social com um brutal impacto económico. No entanto, e remontando às origens do Natal, na pequena cidade de Belém, vislumbrava-se algo mais do que a componente familiar/social. Efectivamente, não foi preciso muito tempo para que o nascimento de Jesus Cristo fosse assumindo um carácter político e para que lhe tivesse sido atribuído uma dimensão para lá da manifestação familiar/social.

 

O Império Romano acabaria por constatar essa tendência nos seus terrítórios, ao ver transformado um fenómeno social e religioso numa questão política. A fundação da Igreja de Roma por São Pedro, o Pescador, e o respectivo "aval" do Império acabou por ser uma resposta política a um problema que extravasava as esferas social e religiosa. Porém, esta componente política raramente é associada ao nascimento de Jesus Cristo e ao Natal na altura das pessoas se reunirem na noite da Consoada. Aqui, sobressai sempre o espírito familiar daquela noite de Belém. Mas, repare-se que mesmo nesse ambiente surgiu o primeiro sinal político, com a presença de emissários (Três Reis Magos) que, vindos do Próximo Oriente, deslocaram-se à Cisjordânia para ver o recém nascido "rei" dos judeus. Aliás, este acontecimento gerou de imediato preocupações políticas na corte do Rei Herodes, sentindo-se este ameaçado com o nascimento de Jesus Cristo.

 

Tal como se veio a verificar mais tarde, as preocupações de Herodes adensaram-se, tendo o nascimento de Jesus Cristo transformado-se numa problemática de poder para a corte hebraica, originando as mais vis e perversas tácticas de propaganda e contra-informação, de forma a fragilizar o novo "Rei dos Judeus" perante o Império e mais tarde face ao Sinédrio. Apesar disto, a verdade é que o Natal é unicamente associado a uma noite idílica de criação, esquecendo-se quase sempre os ventos turbulentos que tal acto trouxe consigo. Por isso, seria um exercício interessante e curioso se as famílias aproveitassem esta época festiva para se reunirem à mesa não apenas para comer e trocar oferendas, mas para discutir e debater a sociedade que os rodeia, os seus problemas e desafios. Estariam a celebrar verdadeiramente o nascimento de Jesus Cristo.

 

Publicado originalmente a 23 de Dezembro de 2015

 

Publicado por Alexandre Guerra às 09:36
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Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2016

Recordar Belém no Natal...

 

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Em cima, a tradicional árvore de Natal no centro de Belém, Palestina, com a Basílica da Natividade e a Igreja de Santa Catarina em plano de fundo. Em baixo, duas jovens palestinianas muçulmanas entusiasmadas com a chegada do Natal.

 

Nesta altura do ano recordo sempre Belém, não em Lisboa, mas na Cisjordânia, onde nasceu Jesus Cristo. E recordo, não propriamente pela sua beleza, e muito menos pela sua sofisticação, mas porque ali vive a maior comunidade católica da Palestina. Fiz vários amigos de lá, católicos, com quem perdi contacto ao longo dos anos. E lembro-me sempre que, apesar de ser um "enclave" católico no meio de terras muçulmanas (e também judaicas), as gentes de Belém nunca tiveram medo de mostrar o seu Natal, com a célebre árvore bem no centro e as ruas devidamente engalanadas. Ao mesmo tempo, os muçulmanos sempre conviveram bem com esse facto, vendo até aí uma fonte de receitas para aquele município. E o corolário desta convivência inter-religiosa, mas sem que ninguém abdicasse dos seus credos e rituais, verificava-se na Missa do Galo, onde todos os anos víamos pela televisão uma das imagens mais icónicas daquilo que podia ser visto como pragmatismo confessional, sem preconceitos ou intolerâncias: Yasser Arafat sentado na fila da frente da Igreja da Santa Catarina. O antigo líder histórico palestinano poucos problemas tinha em aceitar o catolicismo dentro das fronteiras da Cisjordânia, na verdade, para ele, a questão da religião foi sempre secundária, sendo que o que lhe interessava mesmo era a afirmação do poder da Autoridade Palestiniana em relação a Israel.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 19:03
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Domingo, 18 de Dezembro de 2016

Um assunto que devia incomodar...

 

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O que se está a passar em Aleppo é já um drama humanitário, mas tem todas as condições para se tornar numa tragédia sangrenta (é bom nunca esquecer acontecimentos como o de Srebrenica em Julho de 1995). Há uns dias, as Nações Unidas alertaram para o facto de cerca de 100 mil pessoas estarem encurraladas em pequenas áreas na zona oriental de Aleppo. Supostamente, está em curso um plano de evacuação, mas os poucos relatos fidedignos que nos chegam do terreno é de que está o caos instalado, com as forças governamentais sírias de um lado, apoiadas pela Rússia e milícias xiitas (que vieram do Irão, Paquistão, Líbano e Afeganistão), e os rebeldes sunitas do outro, que contam com a ajuda da Arábia Saudita, Turquia e EUA. Pelo meio, ainda estão vários grupos islamistas radicais, que não hesitarão em derramar sangue se a situação se precipitar em violência. Esta é uma daquelas alturas em que uma força de interposição multinacional, fosse da ONU ou da NATO, faria todo o sentido.

 

Estas duas fotos foram tiradas nos últimos dois/três dias e dão que pensar. As imagens que têm chegada de Aleppo são de uma intensidade tocante, numa altura em que as pessoas neste nosso mundo civilizado andam na normalidade das suas compras natalícias para os familiares, filhos e amigos. E é assim que devia ser em qualquer parte do mundo, mas, infelizmente, o contraste é brutal com algumas regiões e isso devia incomodar cada vez mais as lideranças mundiais. Mas pelos vistos...

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 16:42
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Domingo, 11 de Dezembro de 2016

Um país sem rumo

 

No site da BBC News o correspondente em Istambul, Mark Lowen, escreveu a propósito dos atentados deste Sábado, sendo que aquilo que ele mais sentia era a raiva e o descontentamento dos turcos perante a violência crescente no seu quotidiano. 2016 foi um dos anos mais turbulentos desde a fundação da Turquia moderna por Kemal Ataturk. Neste ano tudo aconteceu naquele país. Foram os atentados do PKK e do Estado Islâmico, a crise dos refugiados, o reforço do pendor presidencial do regime e a tentativa de golpe de Estado que conduziu a um contra-golpe que cimentou, ainda mais, o poder do Presidente Recep Tayyip Erdogan e levou a um asfixiamento de alguns direitos e liberdades. Como resposta, a União Europeia praticamente condenou de "morte" o processo de adesão da Turquia. Por isto tudo, Lowen dizia que neste momento o sentimento entre os turcos é de raiva, desilusão, medo, uma "mistura tóxica" para um país que parece ter perdido o seu rumo.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 14:33
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