Quinta-feira, 12 de Outubro de 2017

Leituras

 

Kyrgyzstan bucks the central Asian trend for rigged elections é um artigo do The Guardian que fala sobre uma "anomalia" eleitoral que está a acontecer naquela antiga república soviética da Ásia Central.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 20:19
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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2017

Paixão e sangue

 

Este texto não pretende identificar os culpados por aquilo que se tem passado em Espanha, mas propõe-se a fazer uma leitura mais fria e racional, porventura, mais cínica e politicamente incorrecta dos acontecimentos em questão. Governo central, de um lado, e Generalitat, do outro, terão, eventualmente, razões várias para justificar os seus actos, o que não quer dizer que sejam legítimas ou até mesmo aceitáveis para um observador externo. Mas o que interesse mesmo é analisar a forma como os seus intervenientes olham para os argumentos apresentados por cada um dos campos em confronto. E, sobretudo, perceber-se até que ponto as ideias em confronto são de tal maneira mobilizadoras para que o povo saia à rua em “armas”, disposto a dar a vida pela independência. A secessão de uma região é nada mais menos do que uma questão de sobrevivência de um Estado, é um assunto literalmente de vida ou de morte. Fazer uma ruptura secessionista pacífica dentro de um Estado de Direito com um quadro institucional instituído é algo, por definição, contraditório. É um contrassenso, porque nenhum Governo aceita perder parte do seu território a não ser que tal solução lhe seja imposta pela persuasão da força. Tem sido assim ao longo da História. A “via negocial” é um eufemismo para aquilo que costuma ser a resignação forçada por parte de um Governo que, em determinada altura da sua história, seja obrigado a abdicar de parte do seu território.

 

O referendo da Catalunha foi uma farsa, não tanto pelo processo em si (totalmente descredibilizado), mas como elemento catalisador de uma independência que, a acontecer, deixaria a Espanha prostrada. Um movimento destes, que infligiria um rude golpe na existência daquele Estado, dificilmente aconteceria sem paixão e sangue. O que aconteceu no Domingo foi mais um espectáculo mediático, numa sociedade ocidental já pouco habituada a fracturas sangrentas no seu seio no que a nacionalismos diz respeito. Falou-se do excesso de violência no dia do referendo, com aquelas imagens sentimentais que hoje em dia facilmente se propagam pelas redes sociais, do polícia a ser abraçado pelo cidadão ou da manifestante a oferecer uma flor a um agente da autoridade. Pelo meio, mostram-se umas cabeças partidas ou uns arranhões e está feita a encenação para as manchetes dos jornais. Pois a leitura que se deve fazer é precisamente a contrária, ou seja, para o caldeirão que estava a ser criado, e tendo em conta o histórico de sangue da história espanhola, a violência foi praticamente inexistente (e ainda bem). A maior parte dos oitocentos feridos ou são ligeiros ou são ataques de ansiedade.

 

A independência de uma região é coisa séria, não vai lá com likes no Facebook, tweets ou “manifs” de jovens urbanos e elites intelectuais que abraçam uma causa que nem eles próprios compreendem o seu alcance. E não vai lá com líderes que não percebem que nem todo o povo está com eles nos intentos secessionistas. Avançar com uma “brincadeira” destas é de uma irresponsabilidade quase criminosa, porque acaba por criar clivagens dentro da própria sociedade, neste caso a catalã. A independência de uma região deve ser sempre um acto civilizacional, de progresso, de crença positivista nos direitos humanos e nunca um processo de burocracias políticas e judiciais ao serviço do capricho de alguns. A independência é o fim último, almejado para que um povo alcance um estádio de libertação com vista ao bem comum. E tal só pode acontecer com muito sacrifício, crença, empenho total e, muito importante, com a inspiração dos seus líderes. Alguém acredita que o senhor Carles Puigdemont estaria disposto a dar a vida pela independência da Catalunha? Poderá ser exagerada esta questão, mas a verdade é que no passado já tantos outros deram as suas vidas para ver os seus territórios independentes (e não se está a falar de um passado assim tão distante, mesmo na Europa). A História tem demonstrado que uma independência só se consegue com paixão e sangue. E isso os catalães demonstraram no Domingo que não estão dispostos a dar.

 

Texto publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:08
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Quinta-feira, 28 de Setembro de 2017

Crianças

 

Tudo tem a sua escala. Quando uma mãe, um pai, está no parque infantil com o seu filho ou filhos, normalmente, deixa-os à vontade, naquele espaço controlado, onde os seus ocupantes têm o mesmo código de “conduta” e lógica de discurso (na verdade, ausência dela) e são livres de fazer as diabruras que lhes são permitidas pela tenríssima idade. Os adultos, de longe, vão “deitando o olho” para assegurar que os disparates não ultrapassam os limites aceitáveis e desculpáveis para aquelas pequeninas amostras de gente. Caso o façam, não tendo bem a noção das consequências, de imediato os pais intercedem e males maiores são evitados. No final, todos vão para casa contentes sem danos a reportar. Com alguma sorte, é precisamente isso que se passa entre Donald Trump e Kim Jong-un, ou seja, duas crianças a disparatar no “recreio”, enquanto os “adultos” (espera-se) vão controlando os comportamentos para que nenhum deles cometa a infantilidade de carregar no “botão”. E quem são esses adultos? O aparelho em Washington, as estruturas e sub-estruturas das instituições americanas e também a gente responsável e com senso que está nas chancelarias de Pequim e Moscovo. E, sabe-se lá, se no meio do esquizofrénico regime de Pyongyang não haja alguém na cúpula do poder dotado de uma clarividência já (pelo menos) na idade juvenil.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:02
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Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

Leituras

 

Max Boot, senior fellow do Council on Foreign Relations e colunista do USA Today, compara, em Trump's 'me first' U.N. speech: He's no Truman, o primeiro discurso feito por um Presidente americano nas Nações Unidas, aquando da sua fundação em 1945, e o de Donald Trump, esta Terça-feira. É um excelente artigo porque demonstra como um homem humilde e de raízes modestas, como Harry Truman era, se revelou um "wise man". Já Trump...
 
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Publicado por Alexandre Guerra às 22:26
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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017

A sala onde todos falam com todos

 

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Panorâmica do anfiteatro da Assembleia Geral da ONU com os famosos murais de Fernando Léger, sobre os quais um dia o Presidente Harry Truman disse parecerem uns ovos estrelados. Foto: REUTERS/ Eduardo Munoz

 

Todos os anos, durante esta semana, Nova Iorque fervilha diplomacia, porque é quando quase todos os líderes do mundo e respectivas delegações ali se deslocam para discursar na abertura anual da Sessão da Assembleia Geral das Nações. Na verdade, é das poucas vezes que aquela imponente sala, renovada há três anos, se enche e cumpre a sua função de fórum multilateral para as 193 nações que fazem parte da ONU. Ter-se o privilégio de se estar naquele anfiteatro vazio e em silêncio, é sentir o peso da história político-diplomática do pós-II GM. Todos os líderes mundiais passam por lá.O primeiro-ministro português, António Costa, por exemplo, fará a sua estreia nestas lides na Quarta-feira, um dia depois de Donald Trump, que fará também a sua inauguração na Assembleia Geral enquanto Presidente dos EUA. Formalmente, a 72ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas iniciou os seus trabalhos no passado dia 12, mas é durante estes dias que os muitos corredores e salas do complexo projectado pelos arquitectos Oscar Niemeyer e Le Corbusier, localizado entre as ruas 42 e 48 na Primeira Avenida, se enchem de movimentações diplomáticas. Tudo acontece lá por estes dias, sobretudo reuniões bilaterais de alto nível entre chefes de Estado e de Governo, já para não falar naquilo que é conhecido como a “diplomacia de corredor” e que, muitas das vezes, faz mais pela paz no mundo do que as grandes cimeiras ou conferências. É certo que muito há a criticar nas Nações Unidas, a sua burocracia, hipocrisia, ineficácia, mas a verdade é que é o único local onde todos podem falar com todos de forma diplomática e isso já é uma grande virtude.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:52
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Quinta-feira, 14 de Setembro de 2017

Da admiração à desilusão

 

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Logo pela manhã desta Quinta-feira na CNN, Peter Pophan, biógrafo de Aung San Suu Kyi, demonstrava a sua desilusão com a Nobel da Paz, um prémio atribuído em 1991 pela sua resistência pacífica ao regime militar de Myanmar (ou Birmânia). Acabaria por ser detida pela junta militar em 1989 e não participaria nas eleições de 1990, que deram a vitória ao seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (NLD). Os militares nunca reconheceram estes resultados e Suu Kyi iniciou uma longa e paciente resistência pacífica durante os muitos anos em que esteve sob prisão domiciliária, até 2010. Durante este período, tornou-se numa referência e inspiração na defesa e luta pelos direitos humanos, revelando muitas semelhanças com Nelson Mandela na forma como fez ouvir o seu protesto de forma pacífica.

 

Cativou o mundo político internacional e granjeou a admiração de muitos, e quando foi libertada em 2010, era a figura mais poderosa de Myanmar, levando a NLD à vitória em 2015. Suu Kyi, que constitucionalmente estava impedida de se tornar Presidente, porque o seu último marido e filhos são estrangeiros, acabou por assumir o cargo de Conselheira do Estado, criado exclusivamente para si.

 

O problema é que o papel que assumiu enquanto activista pelos direitos humanos parece ter dado lugar ao da política, ao das conveniências com o poder e com o seu eleitorado, maioritariamente budista. E só assim se percebe a sua conivência e até apoio que tem dado à actuação das forças militares birmanesas na região de Rakhine, onde vive a minoria rohingya.

 

Dizem as Nações Unidas que, no último mês, quase 380 mil pessoas daquela etnia já fugiram de Rakhine, na parte ocidental de Myanmar, em direcção ao Bangladesh, um Estado muçulmano. A causa desse êxodo? A mesma que a História teima em repetir, ou seja, projectos de poder político assentes no preconceito, intolerância e perseguição, e até mesmo aniquilação, do próximo. Neste caso em concreto, do Estado militarizado de Myanmar, com o apoio da polícia local de Rakhine, contra uma minoria muçulmana (mas podia ser de outra religião ou credo) instalada há gerações naquela região, mas cujas pessoas o Governo insiste em chamar de imigrantes ilegais e negar-lhes a cidadania.

 

Aparentemente, esta onda repressiva do Estado é justificada pela necessidade de resposta a ataques de militantes rohingyas no final de Agosto a postos de polícia. Admita-se que isso é verdade (e que é bem possível), mas a questão é que, à semelhança de tantos outros tristes exemplos da História, as forças do Estado parecem estar a aproveitar aquela situação para uma autêntica campanha de erradicação da minoria rohingya de Rakhine. O Governo defende-se e diz que está a apenas a combater os militantes rohingyas, mas a questão é que as várias informações que vão chegando pelos poucos correspondentes que estão no terreno demonstram uma outra realidade: vilas queimadas, violações, violência indiscriminada por parte das forças militares com o apoio de elementos da maioria budista em Rakhine. António Guterres fala numa “catastrófica” situação humanitária e o Alto-Comissário para os Refugiados foi mais longe e referiu-se mesmo a uma “limpeza étnica” que está a acontecer.

 

Quase um terço da população rohingya já abandonou Rakhine. Os relatos dos jornalistas que estão no local contrariam as versões do Governo de Myanmar e mostram o lado humano do sofrimento, com milhares de pessoas a deslocarem-se, da forma que podem, em direcção ao Bangladesh, para aí se instalarem em campos de refugiados sobrelotados. Há uns dias, quando o assunto ainda não estava no topo da agenda mediática, um jornalista do New York Times tinha feito uma reportagem crua, onde se viam pessoas, num estado faminto, com poucos haveres às costas, a caminharem descalças pelas selvas verdejantes daquela região do globo, sem qualquer esperança espelhada no olhar. E ver agora Suu Kyi, outrora uma inspiradora na defesa dos direitos humanos, indiferente a tudo isto, é mais do que desilusão... É uma dor de alma.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 17:49
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Quinta-feira, 24 de Agosto de 2017

O "antes" e o "depois" da BP

 

Por razões profissionais (já que na altura era o consultor de comunicação da BP Portugal), acompanhei de perto o acidente da Deepwater Horizon e, por isso, tinha bastante curiosidade em ver este filme. Recordo que poucas horas depois do acidente, e com a sede em Londres ainda pouco consciente das repercussões de que aquela "crise" iria ter na companhia, eu poucas dúvidas tive dos milhares de milhões de dólares que a BP iria perder em processos judiciais e indemnizações. Já para não falar nos danos irreparáveis ao nível da sua reputação e imagem e que ficam bem vincados neste filme. Naquelas primeiras horas a seguir ao acidente, fiquei com a sensação de que a sede em Londres estava a subestimar o impacto do acidente e isso percebia-se pela forma como estavam a comunicar com as afiliadas. Da minha parte, e pela informação que chegava dos meios internacionais, já era previsível a dimensão catastrófica em termos ambientais, para além das vidas humanas perdidas. A BP talvez estivesse em negação de uma realidade que lhe iria levar quase à falência, sabendo já, provavelmente, que teria muitas responsabilidades nas origens do acidente. Sempre achei que a BP enquanto "marca", nome, iria desaparecer, mas nesse ponto enganei-me. De qualquer forma, para a companhia há claramente um "antes" e um "depois" do acidente da Deepwater Horizon.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:11
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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2017

Leituras

 

A propósito da polémica em torno do filme Dunkirk, em que não é feita qualquer referência aos soldados indianos que lutaram pelo Império Britânico na II GM, Yasmin Khan, em Dunkirk, the War and the Amnesia of the Empire no New York Times, faz uma pedagógica análise sobre o "esquecimento" da História em relação a alguns dos seus interpretes.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 12:22
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Segunda-feira, 31 de Julho de 2017

O despacho...

 

"Estamos em plena cultura da imagem. Não é de agora, terá vindo do século da fotografia. Foi uma revolução de consequências infinitas e esta é o prolongamento da outra. Hoje podemos estar a vida inteira a ver cinema, televisão ou um ecrã e morrer sem ter entrado na vida. Somos mais do que perecíveis, a todo o instante, mas a ideia de que podemos passar a maior parte da nossa vida ao lado de coisas interessantes para visitar, para nos apossarmos, com que nos interrogarmos ou sermos interrogados... Estarmos morbidamente fixados a esta paixão pela imagem devora-nos vivos."

 

Aos 94 anos, Eduardo Lourenço continua a pensar o mundo e a sociedade com uma clarividência cristalina. Numa entrevista ao jornal Público, o pensador descreve desta forma como o poder da imagem torna refém as pessoas de uma ideia ilusória de vida que passa ao lado das coisas interessantes para visitar.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 14:39
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Sexta-feira, 28 de Julho de 2017

John McCain

 

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Há uns dias Barack Obama referia-se a John McCain como um herói americano e um dos mais corajosos lutadores que conheceu. E num acto de força e encorajamento, o ex-Presidente escrevia no Twitter que o "cancro não sabia com quem se tinha metido", numa alusão ao tumor cerebral diagnosticado a McCain. Eu só posso subscrever as palavras de Obama, sobre um homem e político republicano que tenho acompanhado ao longo dos anos e que, acima de tudo, foi sempre fiel aos seus valores e princípios. Herói de guerra, nunca se deixou enlamear pelas guerras intestinas partidárias do Congresso, em defesa daquilo em que acredita e sempre a pensar no superior interesse dos seus concidadãos. Ontem à noite, McCain voltou a ser um herói e um lutador ao votar ao lado dos democratas contra o desmantelamento do Obamacare, um dos mais importantes saltos civilizacionais da sociedade americana das últimas décadas. Ele e mais as colegas Susan Collins e Lisa Murkowski desafiaram a "disciplina partidária" tão cegamente seguida em Portugal e foram contra o seu próprio Partido Republicano. No final, a votação no Senado ficou 51-49 a favor da manutenção do Obamacare. Coube a McCain o voto decisivo e é nesses momentos em que se definem os bravos lutadores, que se desprendem de interesses e conivências em benefícios egoístas, para assumirem um combate duro, muitas vezes solitário, em prol de um bem maior.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:35
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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