Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

Leituras

 

Este é o tempo do Euro-conservadorismo e de um Ano Europeu do silêncio, um artigo de opinião no Observador, que espelha a visão do historiador Timothy Garton Ash sobre o projecto de construção europeia.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 13:39
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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

Os "jogadores" da política

 

“Todos os políticos são, em certa medida, jogadores em relação aos acontecimentos. Tentam prever o que vai acontecer para se posicionarem do lado certo da história.” A frase é de Boris Johnson, antigo mayor de Londres e actual ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, que, numa entrevista recente à Fox News, considerou o Presidente americano uma "grande marca mundial" em termos políticos, enaltecendo as capacidades de comunicação de Donald Trump e a eficácia dos seus tweets matinais, por mais “indisciplinados” que possam ser. E se há alguém que percebe de indisciplina enquanto ferramenta de comunicação, é precisamente Boris Johnson, que fez sempre dessa característica um factor poderoso na sua afirmação enquanto político dentro do próprio sistema. Indisciplinado, irreverente, turbulento, Johnson tem feito do choque constante, da provocação permanente, a sua forma de estar na política.

 

Aquele seu cabelo desgrenhado não é um acaso, é um activo comunicacional que “casa” com a imagem que pretende que a opinião pública percepcione dele. Da mesma forma que o charuto de Churchill (de quem Johnson é admirador e a quem dedicou uma excelente biografia de onde foi retirada a citação do início) foi mais um elemento importante na construção da sua imagem enquanto estadista, já que aquele “adereço” representava o espírito do aventureirismo romântico, quase ingénuo, associado aos tempos gloriosos passados na Guerra da Independência de Cuba, em 1895. E à medida que os anos evoluíram, o charuto passou a ser também um símbolo de poder e autoridade. São, aliás, raras as vezes em que o antigo primeiro-ministro aparecia publicamente sem o charuto. A este propósito, algumas histórias que se contam à volta das exigências de Churchill para poder satisfazer o seu vício (também comunicacional) são totalmente disparatadas, mesmo para os tempos da altura. Provavelmente, umas serão mito, outras nem tanto. Seja o charuto de Churchill, o cabelo de Johnson ou as meias de Justin Trudeau (que, intencionalmente, reflectem a jovialidade quase infantil do primeiro-ministro canadiano), são elementos que resultam, em parte, de uma combinação entre aquilo que é genuíno nos políticos e uma dimensão encenada, fazendo parte de uma certa liturgia comunicacional e que parece cativar, cada vez mais, os eleitores.

 

Verdade seja dita que muito antes da ascensão ao estrelato político desta nova vaga de líderes “pop” e populistas, que se enquadram nas novas tendências sociais de um público-alvo cada vez mais urbano e em "rede", já Boris Johnson cultivava a imagem de um político disruptivo na forma de se apresentar, fazendo questão de se fazer transportar em bicicleta pelas ruas de Londres, naquele seu ar de aparente descontração, numa cena tipo hipster, ainda muito antes do revivalismo desta tendência. Quando se tornou mayor da City, há quase dez anos, a sua imagem rompia com tudo aquilo a que estávamos habituados a ver num político de topo. Quase que parecia um ser exótico, para não dizer excêntrico, embora estivesse longe de ter a exposição mediática internacional que alcançaria mais tarde.

 

Se, hoje em dia, o "número" da bicicleta é irrelevante e as meias coloridas de Justine Trudeau já são quase um acontecimento mainstream na comunicação política, há uns anos poucos seriam os políticos que ousariam fugir ao figurino instituído para os chefes de Estado e de Governo. Aliás, até há bem pouco tempo, quem, no seu perfeito juízo, ousaria prognosticar que a França viria a ter um Presidente abaixo dos 40 anos? Ou que a Áustria elegeria o jovem Sebastian Kurz, com apenas 31 anos, para a chefia do Governo, onde, numa imagem de campanha, apareceu sentado em cima de um espalhafatoso todo-o-terreno Hummer numa pose que faria inveja a qualquer rapper de Compton? Ou que Trump, o multimilionário da melena ridícula que apresentava o “The Apprentice”, viria a sentar-se na Sala Oval? Ou que em Portugal um Presidente pudesse vir a ser quase tão popular como Cristiano Ronaldo?

 

São figuras de liderança que, de uma maneira ou de outra, são disruptivas. Não necessariamente na forma de fazer política, mas na maneira de comunicar e “enfeitar” essa política. Nalguns casos, o conteúdo até pode não trazer nada de novo, porém, o “embrulho” em que a mensagem é oferecida à opinião pública é completamente diferente, é apelativo, é vendável (a tal “brand” de que Boris Johnson fala).

 

A experiência diz que parte dessa forma de estar em política tem origem na natureza intrínseca de cada um, mas a outra parte é fruto de um trabalho orientado para determinados fins comunicacionais. Virtuosos ou não. O problema é que quanto melhor é o “jogador” político, mais dificuldades o cidadão terá em perceber o que é genuíno e o que é encenação. Esses dois factores estão sempre presentes e o que as pessoas vêem é um produto final, um personagem político que lhes despertará determinados sentimentos e emoções, porque em comunicação política é a percepção (e não a realidade) o que mais importa.

 

Texto publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:59
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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

As portas do Inferno

 

Conheço relativamente bem Israel e a Palestina. Estive lá por duas temporadas durante a intifada de al-Aqsa, numa altura em que turistas ou peregrinos não se atreviam ir à Terra Santa. Numa altura em que Jerusalém era a cidade com mais correspondentes a seguir a Washington, numa altura em que os atentados suicidas eram uma constante nas principais cidades israelitas. No lado palestiniano, os check points das Forças de Segurança Israelitas (IDF) eram cada vez mais intrusivos, os ataques aéreos sucediam-se, a construção de colonatos judeus avançava de forma intensa, os palestinianos deixaram de poder circular em Israel, nomeadamente entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. O Hamas e a Jihad Islâmica afirmavam-se, tal como as milíciasTanzim, uma espécie de braço terrorista da Fatah, liderada entāo por Yasser Arafat. O clima que se vivia foi dos mais violentos e sufocantes desde a última guerra israelo-árabe. A maior parte das infraestruturas palestinianas ficou reduzida a entulho. Na Faixa de Gaza, fosse na cidade de Gaza ou em Rafa, no sul, vi escombros sobre escombros, o porto e o aeroporto totalmente destruídos, projectos que tinham sido financiados pela UE. Israel também sofreu na sua economia, no seu turismo, na sua imagem internacional. Entre 2000 e 2005, terão morrido mais de 3000 palestinianos e cerca de 1000 israelitas. A violência tinha voltado a assolar aquela região e tudo porque Ariel Sharon, na altura líder do Likud na oposição, decidira fazer uma visita aparatosa, em jeito de provocação, à Esplanada das Mesquitas, um dos locais mais sagrados para os muçulmanos. Agora, é só imaginar o que poderá novamente acontecer com esta decisão de Donald Trump. O Hamas já veio dizer que se abriram as "portas do Inferno" e sobre isso não tenho qualquer dúvida.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:20
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Terça-feira, 28 de Novembro de 2017

O despacho...

 

"Houve alguém que disse que o combate é 99 por cento de tédio absoluto e 1 por cento de terror absoluto. Mas quem disse isso não estava na Polícia Militar no Iraque. Sempre que andava na estrada, eu ficava aterrorizado. Talvez não fosse terror absoluto. Isso é quando explode uma bomba. Mas era uma espécie de terror em segundo grau misturado com tédio. Portanto, é 50 por cento de tédio e 49 por cento de terror normal, que é a sensação de que podemos morrer a qualquer momento e que toda a gente daquele país quer matar-nos. E, claro, depois há 1 por cento de terror absoluto, quando o coração dispara, deixamos de ver, ficamos com as mãos brancas e o corpo todo a tinir. Não se consegue pensar. Somos animais que fazemos o que nos treinaram para fazermos. E, depois, voltamos ao terror normal e voltamos a ser humanos e voltamos a pensar."

 

Palavras do personagem primeiro-cabo Suba no livro "Desmobilizados" (Elsinore, 2015) de Phil Klay, o "melhor já escrito sobre o que a guerra faz à alma das pessoas", segundo o The New York Times Book Review.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 15:40
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Segunda-feira, 27 de Novembro de 2017

Darkest Hour

 

 

Uma das cenas iniciais captou logo a minha atenção... Uma jovem dactilógrafa, nervosa e assustada, momentos antes de entrar no quarto de Winston Churchill, ouve alguns conselhos de um assessor, que lhe diz que ela tem que ter a máxima atenção e frieza porque se percebe mal o que ele diz quando dita os textos, já para não falar nos ataques de fúria.

 

Simpaticamente convidado pela NOS, juntamente com mais alguns jornalistas, cronistas e um politólogo, fui ver o Darkest Hour na noite de encerramento do Lisbon & Sintra Film Festival (LEFFEST) no Monumental. Fora da competição, o filme de Joe Wright e com um Gary Oldman avassalador, desenrola-se à volta do processo de nomeação de Winston Churchill para a chefia do Governo e da sua afirmação no poder nos dias seguintes, numa altura em que os panzers alemães avançavam para França e cerca de 300 mil soldados britânicos estavam encurralados em Dunquerque. Em Londres, Churchill era um homem isolado, sem apoio parlamentar e com um Rei hesitante, sendo mesmo obrigado a duvidar do caminho a seguir: negociar com os alemães ou assumir o conflito. Mas, como lhe disse a sua mulher, era a sua imperfeição que o tornava forte e as suas dúvidas que lhe davam a sabedoria. O Rei, perante a determinação de Churchill na luta pela liberdade e democracia, acabaria por lhe dar o apoio vital, não sem antes de lhe retribuir um conselho: antes de tomar a decisão, ouça o povo. E lá foi Churchill para o metro ouvir o povo, que lhe disse aquilo que ele sempre sentiu: 'Nunca' a Inglaterra negociará com a Alemanha. Nessa tarde, no Parlamento, Churchill inflama aquela câmara e "conquista-a". Nas bancadas alguém pergunta a Lord Halifax (retratado neste vídeo), um defensor acérrimo das negociações com a Alemanha, o que acabara de se passar. Halifax, que viu goradas as sua possibilidades de poder liderar um Governo, responde: Churchill mobilizou a retórica inglesa e partiu para a guerra.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:27
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Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017

Leituras

"Las mujeres son el más numeroso de oprimidos del planeta", uma entrevista a ler no El País pelos vários ângulos de interesse, tanto na óptica da educação dos filhos ou da gestão de empresas, como na perspectiva de fenómenos sociais, como a pobreza e a desigualdade de género. Bernardo Kliksberg é considerado um guru do desenvolvimento sustentável e da ética empresarial, tendo sido o percursor da responsabilidade social corporativa.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 18:03
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Terça-feira, 14 de Novembro de 2017

Desleixo ou desinteresse

 

Vinte e três Estados-membro da UE assinaram ontem a notificação conjunta para a instituição da Cooperação Estruturada Permanente (PESCO), um passo muito importante na tua almejada política de Segurança e Defesa europeia comum e pela qual Portugal se tem batido. Mas, com bastante surpresa, constatou-se que o nosso País não esteve no grupo fundador, ainda por cima sendo este um instrumento previsto pelo Tratado de Lisboa. É certo que se pode juntar mais tarde e que para já estamos apenas a falar de uma notificação, mas a verdade é que para a História, Portugal não esteve no grupo da frente, rompendo com a boa tradição da diplomacia portuguesa, de ter sabido sempre posicionar-se na vanguarda do projecto europeu. E que ilações se pode tirar disto? Das duas uma: ou desleixo nacional, por não se terem cumprido uns prazos quaisquer (segundo as justificações do próprio chefe da diplomacia nacional), ou desinteresse. Em qualquer dos casos, é lamentável que a diplomacia portuguesa, historicamente sempre de grande qualidade, desta vez não tenha percebido onde Portugal devia estar.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 10:11
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Domingo, 12 de Novembro de 2017

Catalunha, uma reflexão sistémica

 

A questão da Catalunha tem suscitado inúmeras análises, muitas delas com pertinência e qualidade, outras, nem tanto, visto serem motivadas por preconceitos ideológicos, onde se esgrimam argumentos cuja validade pouco interessa para a compreensão daquele problema. Então o que há a acrescentar ao que se tem escrito e dito? Na verdade, não é tanto aquilo que se pode acrescentar em termos de informação, mas sim a forma como se pode ler tudo o que está em causa, partindo-se de uma abordagem sistémica à luz da história. Muitas vezes, fazendo-se esse exercício, que é uma prática comum para quem estuda Relações Internacionais, chegam-se a modelos que nos permitem, dentro de um certo limite, encontrar algumas respostas ou antecipar dinâmicas de um conflito ou de uma crise. De pouco serve recuar um, dois ou até cinco anos para se chegar a um racional sólido. Esse, aliás, tem sido um dos vícios na forma como a questão da Catalunha tem sido abordada, gerando, por vezes, equívocos. Neste caso, é importante recuar um pouco mais atrás, à altura em que surge a consciência política das massas trazida pela Revolução Francesa, depositando no Povo e na Nação a legitimidade do Estado. Essas sementes florescem em força com os nacionalismos do século XIX, apesar da tentativa de controlo sistémico promovido no célebre Congresso de Viena de 1815 (que marca politicamente o início do século XIX), no qual se definiu o “direito das nações se organizarem politicamente como Estados soberanos (embora sempre sob a vigilância dos grandes impérios)”.

 

É importante notar que o nacionalismo catalão nunca fez parte deste jogo dos nacionalismos exacerbados europeus. No entanto, um pouco por toda a Europa, com mais ou menos intensidade, o choque entre os resquícios do absolutismo do antigo regime e as sementes da Revolução Francesa faziam-se sentir no confronto entre Estado absoluto versus Estado nação. E, de certa forma, com contornos específicos, foi a isso que se assistiu durante o século XIX também em Espanha. E aqui, a história dos nacionalismos acaba por surgir no final do século XIX, altura em que se assiste à emergência dos chamados nacionalismos periféricos, assentes, sobretudo, no desenvolvimento económico, mas também nas nuances étnicas, culturais e linguísticas de algumas regiões espanholas face a Castela. O País Basco e a Catalunha, as duas regiões mais avançadas no final do século XIX em Espanha, são os projectos mais evidentes, no entanto, com vocações completamente diferentes. Aqui, neste texto, interesse apenas o nacionalismo catalão, claramente “o arauto da modernização e do progresso contra o conservadorismo do regime de Madrid”, escreveu Maria Regina Marchueta na obra “Os Nacionalismos Periféricos em Espanha (Edições Duarte Reis, Lisboa 2002. Pref. Adriano Moreira)”, a sua tese de doutoramento do ISCSP e de leitura obrigatória para quem gosta deste tema.

 

A verdade é que até finais do século XIX, e ao contrário do que muito se tem escrito e dito, a questão dosnacionalismos em Espanha não existia, quer em termos conceptuais, quer em termos políticos. Madrid iniciou esse papel, já que a Catalunha perdeu muito do seu poder com a decadência do comércio no Mediterrâneo, ao mesmo tempo que Castela assumiu a “sua função directora, de perfil militar e religioso”, orientando o seu projecto histórico numa lógica religiosa de Reconquista. “O nacionalismo espanhol, ainda inexistente esta época, seria o resultado de um processo gradual, que se ia completando à medida que recebia as contribuições da implantação do sistema nacional de educação primária, da ampliação territorial do recrutamento militar, da extensão dos meios de comunicação e do próprio desenvolvimento da organização do Estado”, lê-se no livro de Marchueta.

 

Neste quadro e receando tornar-se “um mero apêndice de França”, a Catalunha “aposta então pela Espanha imperial, oferecendo-lhe, como contrapartida, uma armadura ideológica ao seu deficitário conceito e nação, ainda demasiado preso, quer de uma concepção política teológica, quer da visão racionalista dos direitos naturais”. Se, por um lado, Madrid vai construindo uma ideia de Nação “através da captação das forças vivas das províncias”, por outro, vê reforçada essa construção com a reacção acérrima às invasões napoleónicas por parte das regiões. É importante constatar que a independência nunca foi um objectivo da Catalunha, que optou sempre por gerir os seus interesses sempre dentro do Estado espanhol. Porém, que não haja ilusões, esta construção da nação espanhola é forçada, precisamente, pelos interesses, o que não quer dizer que não seja concreta nem efectiva. E também não quer dizer que as diferentes sensibilidades não subsistam. É precisamente neste período que a esquerda republicana se começa a instalar na Catalunha, claramente defensora de um federalismo regional, muito por oposição ao carlismo conservador enraizado nas populações mais rurais (ideias que irão, décadas mais tarde, estar em confronto na sangrenta Guerra Civil).

 

Maria Regina Marchueta identifica a “independência de Cuba, a rebelião das Filipinas e a derrota frente aos EUA” como factores “reveladores da extrema debilidade de Espanha” e que “supuseram um rude golpe na consciência colectiva do país”. Além disso, “a Catalunha, firme na convicção de ser a sede da riqueza nacional, denunciará o falhanço da política centralizadora de Madrid”. E é precisamente nos finais do século XIX que surgem os primeiros teóricos que dão corpo doutrinário ao nacionalismo catalão. Talvez o mais importante seja Eric Prat de La Riba, que no seu livro “La Nacionalitat Catalana” formulou o catalanismo como a afirmação da identidade histórica, cultural e económica da Catalunha, mas sempre dentro do Estado espanhol. O catalanismo propôs-se também a ser um movimento regenerador face ao poder conservador de Madrid.

 

Não obstante os devaneios de um ou outro aventureiro (e Carles Puigdemont pode ser incluído nessa categoria), se olharmos para a história política da Catalunha, constata-se que a independência nunca foi a questão central nem reclamada por aquela região, mas sim a autonomia ou o federalismo. Muito se tem falado na Constituição de 1978 e no Estatuto de Autonomia, mas, na verdade, foi a Constituição espanhola de 1931, com a implantação da curta e turbulenta II República, que abre caminho para a solução do problema regional. “A Constituição da II República constituía, assim, o original precedente da organização territorial do Estado, mercê do reconhecimento da realidade histórico-cultural da Espanha”, escreve Marchueta. É aqui que se institui a Generalitat e que em 1978 é recuperada. Entretanto, em 1932 era aprovado o Estatuto catalão, em 1933 o basco e em 1936 o galego. O que aconteceu a seguir, com a Guerra Civil e o franquismo, acabou por oprimir os nacionalismos periféricos e adormecer a esquerda republicana. A própria ideia de nacionalidade espanhola ficou associada ao projecto do Estado franquista.

 

A Constituição de 1978 pode ser vista, de certa forma, como uma solução inevitável para descomprimir a pressão exercida durante décadas sobre os nacionalismos periféricos. Poderá nunca ter criado as expectativas que a Constituição de 1931 provocara nos movimentos nacionalistas, já que estávamos perante um documento progressista elaborado num regime republicano, mas a verdade é que a Lei constitucional de 78 permitiu arrumar os nacionalismos periféricos dentro do Estado espanhol até hoje e, diga-se, sempre com uma certa ordem sistémica. E no que à Catalunha diz respeito, Jordi Pujol foi uma figura central na gestão desse equilíbrio, entre o projecto nacionalista moderado e conservador e o Estado espanhol. Pujol personalizou aquilo que tantos outros líderes catalães foram fazendo ao longo da história daquela região: gerindo os interesses e cinismos de uma nação, que nunca se viu verdadeiramente empenhada em lutar por ser um Estado independente, mas também que nunca aceitou ser um elemento passivo na construção do Estado nação espanhol. Uma das virtudes do actual modelo de autonomia é que tem permitido, precisamente, a coabitação entre diferentes correntes nacionalistas na Catalunha e o relacionamento estável com Madrid. E isso, com mais ou menos questão pelo meio, tem funcionado dentro daquilo que seria expectável num país como a Espanha.

 

Perante o que aqui foi escrito, ou Carles Puigdemont não fez a devida leitura histórica ou assumiu que o “seu” povo lhe iria dar o projecto de nação independente. Ora, o que hoje já se pode assumir com toda a certeza (e era óbvio), é que o povo catalão, no seu todo, não se revê nesse projecto de nação protagonizado por Puidgemont. Nem de perto nem de longe e quando assim é, não há processo de auto-determinação que chegue a bom porto. O princípio da nação independente assenta, antes de mais, numa vontade popular imensa e massificada em partilhar uma ideia comum. Esse desejo ardente e quase irracional do povo assumir os desígnios do seu futuro, ao ponto de dar a vida por isso, é uma espécie de combustível para qualquer processo disruptivo e de independência. A questão é que os ímpetos independentistas nacionalistas nunca pulsaram com essa intensidade na história catalã, mesmo em períodos difíceis e turbulentos. Se assim foi – e sem que as relações de força entre Madrid e Barcelona estivessem a viver momentos particularmente especiais –, por que razão achou Carles Puigdemont que a História lhe teria concedido o privilégio de estar a viver um tempo especial? Uma coisa é certa, são muitos aqueles que, consumidos pelo seu ego ou até mesmo delírio, se consideraram predestinados para fazer algo de grandioso e acabaram na sarjeta da História… ou em manicómios.

 

Texto publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 21:02
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017

O regresso dos jihadistas aos países de origem

 

Os ganhos conquistados no terreno pelas várias frentes de combate contra o Estado Islâmico (IS), e que levaram à reconquista de Raqqa (até aqui, o reduto daquele movimento terrorista), é, naturalmente, um motivo de satisfação, já que confirma a tendência que se tem vindo a verificar desde 2015, com o encolhimento do território que tem estado sob o domínio terrorista no Iraque e na Síria. O problema é que muitos dos terroristas que estavam nesses territórios estão agora a regressar aos seus países de origem, muitos deles na Europa. Os números avançados pelo think tank Soufan Center falam em cerca de 5600 jihadistas que agora estão de regresso e que representarão uma ameaça para os próximos anos. Ao todo, são 33 países que confirmaram as chegadas destes militantes islâmicos, sendo que, por exemplo, só no Reino Unido foram registadas 850 entradas. Este número equivale mais ou menos a metade dos cidadãos britânicos que se estima terem ido para os países do Médio Oriente para se juntarem às fileiras do EI. De acordo com os dados compilados neste relatório, desde a criação do EI em 2013, perto de 40 mil estrangeiros de 110 países juntaram-se àquele movimento. Até ao momento, o Soufan Center conseguiu confirmar as identidades de 19 mil jihadista, um número impressionante e que prova a capacidade de mobilização e recrutamento do Estado Islâmico. Dos 5600 militantes islâmicos que regressaram aos seus países de origem desde 2015, 400 são russos, 760 são sauditas, 800 são tunisinos e 271 são franceses, além dos 850 acima referidos que voltaram ao Reino Unido. 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:13
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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017

Xi Jinping, uma agenda a pensar na China de 2049

 

Na China o tempo tem outro tempo. Os líderes chineses pensam a longo prazo, não em termos de ciclos eleitorais de quatro ou cinco anos, mas numa lógica de décadas. Xi Jinping, o Presidente chinês e secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCC), tem uma estratégia de “modernização socialista” definida para 2049, ano em que aquele país celebra o centenário da instauração da República Popular. Na chefia do Estado desde 2012, dizem os analistas que nunca nenhum outro líder chinês acumulou tanto poder desde Mao Tse Tsung. Efectivamente, Jinping tem revelado uma agenda de imposição de autoridade dentro do próprio PCC, levando a cabo uma autêntica purga no seio das estruturas e subestruturas do partido, quer a nível central, quer a nível local. A corrupção entre os quadros do partido tornou-se um vírus, que Xi Jinping não hesitou em erradicar. Ao mesmo tempo que a economia continuou a crescer e o país a modernizar-se, o regime tem apostado forte numa agenda militar, reforçando ano após ano o orçamento da Defesa, estando neste momento em construção um segundo porta-aviões, num claro sinal de que a China, a par do seu Exército, quer ter argumentos para a disputa dos mares. E por falar em mares, tem sido no Mar da China que Pequim tem revelado tendências expansionistas, algo que não tem sido propriamente característico na sua longa história.

 

Toda esta estratégia entronca no discurso de Xi Jinping na abertura do 19º Congresso do PCC, no qual proclamou uma “nova era” para a China, tendo chegado a altura daquela potência “ocupar o palco central no mundo”. O Congresso do PCC, neste momento reunido em Pequim com mais de 2300 delegados, é o principal órgão do partido, porém, só é convocado apenas de cinco em cinco anos. Entre outras coisas, tem a função de eleger os membros do poderoso Comité Central, cerca de 250 membros, que, por sua vez, nomeiam os elementos do Politburo, perto de 25. E é daqui que saem os sete poderosos homens que governam a China, o chamado Politburo Standing Committee, no qual está o Presidente e secretário-geral do partido (de notar, que cabe ao Comité Central a escolha do nome para secretário-geral e posterior Presidente, sendo que nesta matéria nada de novo acontecerá).

 

A questão que se coloca neste Congresso é saber até onde vai o poder de Xi Jinping e que orientações ditará para os próximos anos, nomeadamente, no que diz respeito à apresentação de novos nomes que possam um dia suceder-lhe na liderança do PCC. Tradicionalmente, é isso que costuma acontecer, mas existem dúvidas de que Xi Jinping queira, para já, perfilar potenciais sucessores, para não emitir sinais de que, num horizonte próximo, a sua saída poderia estar a ser equacionada. Além disso, é inegável que está claramente em curso um reforço do poder do Presidente. Por exemplo, aquilo que é conhecido como “Pensamento de Xi Jinping” ou “Teoria de Xi Jinping”, que na prática consubstancia a ideologia do líder chinês, poderá ficar inscrito na Constituição, já que o Congresso tem poderes para alterar aquele documento. A acontecer, será o primeiro líder, desde Mao, a ver a sua doutrina incorporada na Constituição com referência directa ao seu nome.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 19:37
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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