Terça-feira, 20 de Setembro de 2016

Excitações

 

No exercício das suas funções, os políticos, sobretudo aqueles com responsabilidades de liderança e mais visibilidade, não devem, por definição, ser pessoas excitadas, precipitadas, estridentes, irritadas ou deslumbradas. É pelo menos este o meu entendimento daquilo que um político nao deve ser. Os políticos nunca devem achar que têm uma missão messiânica ou que são uma espécie de Dom Quixote em que, contra tudo e contra todos, focam-se apenas numa ideia, independentemente das "baixas" ou dos "danos colaterais" que isso possa provocar. E sobretudo, os políticos nunca devem achar que têm sempre a razão do seu lado. Devem estar preparados para aceitar a diferença, ceder, assumir o erro (se for caso disso) e corrigir a trajectória. Brincar à política pode ser um dos exercícios predilectos dos governantes e líderes partidários cá do burgo (e não só), no entanto -- e além do divertimento que isso possa gerar interpares e na classe jornalística/comentadores --, à margem desse espectáculo circense, encontra-se uma vasta massa, o tal Povo, que, apesar de lhe terem dito, em tempos, que era quem mais ordenava, na verdade manda pouco. Não é que tenha que mandar, porque por alguma razão foi inventada a Política e os governos, agora, o que se espera é que essas elites estejam à altura dos seus mandatos, de servir o Povo com o máximo de responsabilidade e bom senso. Não se pede muito mais, pede-se apenas responsabilidade e bom senso. 

 

Publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:43
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Apontamentos históricos

 

Um bom princípio que muitos líderes políticos parecem esquecer...

 

"Um príncipe prudente deve [...] eleger no seu Estado homens sábios e só a eles conceder livre arbítrio para lhe dizerem a verdade, e apenas acerca daquelas coisas que lhes pergunte e não acerca doutras; mas deve interrogá-los acerca de tudo e, depois de lhes ouvir a opinião, deliberar por si, a seu modo; e deve nos conselhos, portar-se de tal modo com cada um deles, que cada um saiba que quanto mais livremente se lhe fale, tanto mais o que assim proceder lhe será aceite: fora dos conselhos não deve querer ouvir ninguém, não deve afrouxar nas decisões tomadas, e deve obstinar-se nas suas resoluções. Quem proceder de outro modo, ou é precipitado pelos aduladores, ou muda amiúde pela variedade dos pareceres."

 

Nicolau Maquiavel in O Príncipe 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:34
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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2016

O despacho...

 

"Sou como você, um jornalista a relatar o que se passa à nossa volta. A única diferença é que eu sou brutalmente directo."

 

O rapper Ice Cube, interpretado por O'Shea Jackson Jr. no filme biográfico Straight Outta Compton, quando se dirige furiosamente ao jornalista durante uma entrevista televisiva, em 1991, para falar sobre o caso Rodney King, um motorista negro que foi agredido por quatro polícias brancos, entretanto, absolvidos, apesar das imagens recolhidas mostrarem um claro abuso de força policial.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:26
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Um retrato de uma certa América

 

Já tinha escrito há uns meses sobre o filme Straight Outta Compton quando saiu nos EUA e desde então que andava para vê-lo. Pois, finalmente vi-o e é um registo incontornável de mais de duas horas para se sentir o ambiente de tensão racial que se viveu na Costa Oeste, nomeadamente na zona de Los Angeles, no final dos anos 80 e início dos anos 90. Além de ser um dramático filme biográfico dos N.W.A, considerado o primeiro grupo "gangsta rap", do qual faziam parte, entre outros, Eazy E, Dr. Dre e Ice Cube, é um intenso filme sobre um lado da sociedade americana, onde o sucesso, a fama, o dinheiro e a violência convivem de modo tão intenso. É um surpreendente e tocante filme sobre as relações humanas entre amigos. Do melhor que tenho visto.

 

 

Publicado por Alexandre Guerra às 11:21
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2016

O despacho...

 

"As soon as you have a communications problem you have a political problem."
 
Quando li esta frase há cerca de três anos, proferida por um grande empresário francês, referia-se às debilidades políticas de François Hollande, as quais, na verdade, nunca conseguiu ultrapassar. O certo é que, quase diariamente, seja em Portugal ou no estrangeiro, se vai reforçando a validade deste princípio. Normalmente, um erro de comunicação gera quase sempre um problema ou um embaraço político, como ainda recentemente se viu com a questão da pneumonia de Hillary Clinton, mas o inverso já não tem necessariamente esse grau de correlação. Ou seja, nem sempre um erro político se transforma num "issue" comunicacional.
 
Publicado por Alexandre Guerra às 16:54
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2016

É quase tudo uma questão de inspiração

Um dos passatempos preferidos dos actuais governantes do Velho Continente é criticar o projecto europeu e reduzi-lo a um monte de burocracia, que está em decadência e que pouco ou nada faz pelos seus povos. Com mais ou menos intensidade, esta é a tónica dominante da retórica de praticamente todos os líderes dos vinte e oito Estados-membros. Seja por convicção, seja para agradar ao seu eleitorado interno, seja até por razões válidas (porque há muitos erros que devem ser corrigidos), são diárias as críticas e os ataques feitos ao projecto de construção europeia. No meio de tudo o que se vai ouvindo, é recorrente o lamento sobre a falta de liderança política na Europa. Ao nível dos Estados-membros, não existem figuras carismáticas que possam assumir esse designio comum e inspirador de levar isto por diante e, no âmbito das instituições comunitárias, percebe-se que as figuras que têm sido escolhidas para assumir tais cargos nos últimos anos não têm gerado o efeito de mobilização e de alavancagem que se precisava. De certa maneira, hoje em dia, fica-se com a sensação de que a construção do edifício europeu entrou em piloto automático a partir do início dos anos 90, acrescentando-se andares sobre andares em cima de "pilares" frágeis, mas sem qualquer farol que apontasse um porto seguro.

 

Não se estranha, por isso, que uma certa ideia romântica de Europa unida e solidária se tenha perdido lá atrás, com a saída de cena de homens como Delors, Kohl, Miterrand, Soares ou González, apenas para dar alguns exemplos. No entanto, se é verdade que Jacques Delors é e será sempre uma figura de referência na construção europeia, tal evidência não deve distorcer a análise comparativa entre os seus dois mandatos na Comissão e os que se lhes seguiram. Porque, de certa maneira, no final dos anos 80 e no início dos anos 90 viveu-se uma euforia europeia, com alguns dos principais líderes europeus da altura, com destaque para Helmut Kohl e Francois Miterrand, a “acelerarem” o projecto europeu para um nível de integração absolutamente inédito. Maastricht é precisamente o resultado, mas também o símbolo, dessa vontade política. Na prática, e até pela realidade ainda bem presente dos traumas de uma Europa dividida, todos eles estavam a lutar pelo mesmo. E isto veio facilitar (e de que maneira) o trabalho de quem estava nas instâncias comunitárias e, ao mesmo tempo, criar uma onda de entusiasmo junto dos cidadãos europeus.

 
Hoje, a euforia deu lugar ao descontentamento e cepticismo no seio dos Vinte e Oito. Os europeus não parecem ver na Europa um projecto aliciante, mas sim uma entidade burocrática, dominada por tecnocratas que se limita a emitir directivas. A juntar-se a esta ideia, muitos dos intervenientes políticos nos vários Estados-membros tecem duras críticas e enveredam por discussões bizantinas sobre questões que, com alguma arte política e inspiração, podiam ser ultrapassadas, tendo sempre presente que este mesmo projecto europeu já ultrapassou períodos bem mais complicados da sua história. A diferença é que nessas alturas lá estavam os líderes carismáticos, a meterem de lado as suas diferenças e egoísmos e a pensarem no bem comum, e, desta forma, a inspirarem os seus povos. 
 
Publicado originalmente no Delito de Opinião.
 
Publicado por Alexandre Guerra às 16:51
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Leituras

 

No editorial, o New York Times, em America's Mr. Diplomacy, salienta o papel que o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, tem desempenhado nos bastidores da diplomacia internacional. 

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 12:42
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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

"A política é um jogo sujo", mesmo quando está ao serviço do Bem

 

All The King’s Men (1949) é um daqueles filmes obrigatórios para quem trabalha em comunicação política. Vencedor de três óscares da Academia, incluindo Melhor Filme, e baseado na obra homónima de Robert Penn Warren, de 1946, laureada com o Pulitzer no ano seguinte, All The King’s Men conta a história da ascensão política de Willie Stark nos anos 30 num Estado pobre dos Estados Unidos que, com a sua base de apoio assente nos “hicks” (provincianos, labregos), conquista o poder e o vai mantendo a todo o custo. Porque, a verdade é que a “política é um jogo sujo”, mesmo que esteja ao serviço do “Bem”. A seu lado, Willie Stark tem Jack Burden, um antigo jornalista, que, acreditando no homem e no político, passa para o “outro lado” e se torna no seu assessor mais próximo.

 

O filme começa precisamente com Jack Burden, ainda repórter político do “Chronicle”, a ser chamado ao gabinete do seu editor. Este pergunta-lhe se já ouviu falar num tal de Willie Stark. Ao que Burden responde não. É então que o editor lhe diz que se trata de um político de Kanoma City, uma capital de comarca “típica, quente, poeirenta e remota”, que se vai candidatar a um cargo público no “county council”. E perante esta informação aparentemente algo inócua e sem interesse jornalístico, Stark pergunta:“E o que tem isso de especial?” 

 

“Dizem que é um homem honesto”, responde o editor.

 

É neste discurso que Willie Stark, falando com paixão e com sinceridade ao povo, inverte a tendência negativa da sua primeira campanha eleitoral para Governador. Acabaria por perder, mas longe de ser a derrota estrondosa que muitos previam. Na altura em que soube os resultados eleitorais, anunciando a sua derrota, Willie Stark sorriu. Alguém perguntou-lhe porquê e ele respondeu: "Agora perdi, mas aprendi como se ganha!"

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:50
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Terça-feira, 13 de Setembro de 2016

A saúde dos candidatos

 

Joseph Stiglitz, que agora pelos vistos também comenta assuntos de política, não deixava de dizer algo com uma certa razão esta manhã na Euronews. Para o Nobel da Economia não faz qualquer sentido que os candidatos presidenciais e os americanos em geral vivam obcecados com os boletins clínicos de Trump e Clinton, quando a exigência da campanha em si é de tal maneira extenuante que poucas pessoas na casa dos 70 sobreviveriam àquele teste. Efectivamente, fazer e aguentar até ao fim uma campanha presidencial nos EUA é, por si só, um atestado inequívoco de resistência física.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 10:04
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Domingo, 11 de Setembro de 2016

Recordar o 9/11

 

Quinze anos depois, estive a reler aquilo que escrevi ao longo dos dois dias que se seguiram aos atentados do 11 de Setembro (uma Terça-feira) e que seria publicado na edição seguinte do SEMANÁRIO, na Sexta-feira (14). Enquanto editor da secção de Internacional daquele jornal, recordo-me perfeitamente que, na altura dos atentados, estava na redacção (naquele edifício cor-de-rosa no Dafundo cheio de história ligada ao jornalismo), o que me permitiu acompanhar todos os desenvolvimentos desde o início. Depois do choque inicial, foi preciso afastar as emoções, perceber o que estava a passar e perspectivar o que iria acontecer. Foram dias de muito trabalho e confusão, mas um privilégio, porque, foram momentos como aqueles que me fizeram desenvolver a paixão que sempre tive pelo jornalismo.   

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Primeira página do SEMANÁRIO de 14 de Setembro de 2001

 

Publicado por Alexandre Guerra às 20:37
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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