Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

Ontem, todos se comoveram. Hoje, já ninguém quer saber

 

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Mais uma vez o mundo ocidental lá se consternou e emocionou perante o olhar vazio e desalmado de Omar Daqneesh, uma criança de 5 anos que, num estado letárgico quase catatónico, esperava pacientemente pelo salvamento do resto da família (felizmente todos sobreviveram, mas outras cinco crianças morreram), depois do seu prédio, localizado num bairro de Aleppo conotado com os rebeldes, ter sido atingido por um raide aéreo da aviação russa ou síria. Nem um choro ou lamento de Omar, apesar do seu rosto estar coberto de sangue e o seu corpo todo sujo de terra, como quem foi literalmente arrancado das entranhas da terra. Os jornais e as televisões, com o seu tom teatral do costume, mas sem qualquer eficácia na prossecução e pressão para uma solução política-militar, propagaram a fotografia de Mahmoud Raslan, o fotojornalista que estava no local e que captou o momento. As "redes sociais", sempre prontas para apanhar a onda da solidariedade internacional, também se indignaram e, claro está, o tema tornou-se "viral". As sociedades civis comoveram-se e a comunidade política indignou-se. Mas, tudo isto foi ontem, porque, hoje, já passou, a vida continua e já ninguém quer saber.

 

Recordo que há uns meses, em Setembro, esse mesmo mundo ocidental, sempre confortável no seu quotidiano, esses mesmos jornais e televisões, com a sua queda para o dramatismo, essas mesmas redes sociais, sempre voluntaristas, essa mesma sociedade civil, sempre predisposta para a comoção, essa mesma comunidade política, sempre indignada, reagia com lágrimas à chocante fotografia de Aylan Kurdi, um rapazinho de 3 anos, jazido de barriga para baixo, nas areias de uma praia da Turquia. Era um refugiado que, juntamente com a sua família, fugia do conflito da Síria. Na altura, por exemplo, a CNN escrevia: "Some said they hoped the images of the boy lying on the beach and his limp body being scooped up by a rescue worker could be a turning point in the debate over how to handle the surge of people heading toward Europe." O que foi feito desde então? Pouco, muito pouco mesmo, para quem se dizia tão chocado e indignado com tal barbárie.

 

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Publicado originalmente no Delito de Opinião.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:52
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Quarta-feira, 17 de Agosto de 2016

Uma história do pós-guerra na Bósnia que tem tanto de verídica como de hilariante

 

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Ratko Mladic só foi capturado em 2011/Jason Gold/Getty Images

 

A reportagem foi publicada em Outubro de 2000 na revista Esquire, assinada por Scott Anderson, e descreve a aventura delirante de cinco jornalistas na Bósnia-Herzegovina, que meses antes estavam naquele país, num ano em que se assinalava o quinto aniversário do fim da guerra no Balcãs.

 

Anderson foi um dos protagonistas da história que, apesar de ter todos os condimentos para ser uma comédia, com alguns personagens que mais pareciam saídos de um circo, estava centrada no débil processo de estabilização dos Balcãs, no qual o cinismo das potências externas se expressou através dos seus jogos políticos, remetendo os capacetes azuis para uma espécie de função decorativa, sobretudo no que diz respeito à captura de criminosos de guerra.

 

Na altura desta história já tinham passado cinco anos desde o fim da guerra sem que se tivesse notado quaisquer esforços por parte das forças internacionais na captura de alguns dos principais responsáveis por aquele conflito.

 

O nome mais sonante era o de Ratko Mladic, comandante das forças sérvias que dizimaram muçulmanos e croatas na Bósnia, que tinha sido acusado pelo tribunal internacional para ex-Jugoslávia (ICTY), em 1995, por crimes de guerra, genocídio e crimes contra a Humanidade. O mesmo tribunal acusou especificamente Mladic de ter tido uma intervenção directa no massacre de Srebrenica, no qual morreram cerca de 8 mil muçulmanos, no “cerco” a Sarajevo e em campanhas de “deportação, perseguição, tortura e assassinos”.

 

Voltando à história de Scott Anderson. Estava-se na Primavera de 2000 e eram vários os jornalistas internacionais que tinham regressado a Sarajevo, desta vez em tempo de paz, ora para visitar a ex-Jugoslávia ou então para fazer a cobertura do quinto aniversário do fim da guerra.

 

No terreno via-se uma nova realidade, minada pelos interesses políticos e pela hipocrisia das chancelarias internacionais. O processo de paz, pelo menos nos primeiros anos, foi montado de forma a manter um equilíbrio diplomático que pudesse satisfazer diferentes partes.

 

No meio desta teia os criminosos de guerra iam escapando, em muitos casos de forma escandalosa, tendo em conta a área reduzida em que se movimentavam.

 

Hoje, sabe-se que além do apoio e cobertura das populações locais no terreno, muitos dos criminosos de guerra procurados pelo ICTY beneficiaram da complacência de dirigentes políticos, nomeadamente sérvios ou bósnio-sérvios, e da passividade dos capacetes azuis da ONU e da NATO.

 

Para os jornalistas que tinham estado na Jugoslávia durante o período da guerra (1991-95), as atrocidades que tinham visto permaneciam vivas nas suas memórias cinco anos depois. Não tinham esquecido a crueldade dos carniceiros e percebiam que a comunidade internacional não estava a fazer um verdadeiro esforço para capturar todos esses criminosos.

 

É a partir daqui que Scott Anderson, juntamente com dois jornalistas americanos, um holandês e um belga, numa noite de Abril de 2000, decidem em ambiente descontraído, de copos, num café no centro de Sarajevo, capturar Mladic. Obviamente que foi tudo engendrado em tom de brincadeira, mas mal sabiam eles que iriam acabar por ser confundidos com uma equipa de elite da CIA, envolvendo-se numa louca operação pseudo-secreta.

 

A história verídica, contada meses depois na Esquire, é digna de ser lida, com o seu enredo hilariante e personagens alucinados. O filme acabaria por surgir em 2007, um complemento cénico imperdível ao artigo de Scott Anderson.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 13:18
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Domingo, 14 de Agosto de 2016

O despacho...

 

"We cordially believe in the rights of property, but we feel that if in exceptional cases there is any conflict between the rights of property and the rights of man, then we must stand for the rights of man."

 

Muitas vezes se discute até onde deve ir o Estado na esfera privada quando está em causa a defesa do bem comum, nomeadamente no que diz respeito à apropriação administrativa de terrenos cujos seus proprietários não têm capacidade para garantir a sua manutenção. Um princípio espelhado nesta frase de Theodore Roosevelt, proferida em 1910 ainda antes de ser eleito Presidente dos EUA, num discurso para uma audiência de veteranos da Guerra Civil americana, em Osawatomie no Kansas.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 18:17
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Quinta-feira, 11 de Agosto de 2016

Artigo no jornal Público

 

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Hoje, no jornal Público, assino um artigo sobre a problemática dos incêndios e do território nacional, enquanto factor de poder numa lógica de soberania nacional. Para ler aqui.

 

Publicado por Alexandre Guerra às 10:47
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Quarta-feira, 10 de Agosto de 2016

Ironias históricas

 

Díli, 10 de agosto de 2016

 

Comunicado de Imprensa

Reunião do Conselho de Ministros de 10 de agosto de 2016

 

O Conselho de Ministros reuniu-se esta quarta-feira, no Palácio do Governo, em Díli, para avaliar o apoio de Timor-Leste à República Portuguesa no combate aos incêndios que assolam aquele país e que já provocaram uma vítima mortal. Foi aprovada a doação de 2 milhões de euros para reforço da capacidade de resposta no terreno. Deste valor, 1 milhão e 250 mil euros destina-se a apoiar as autoridades portuguesas no combate aos incêndios e 750 mil euros são para socorro direto às populações afetadas.

O Primeiro-Ministro de Portugal, António Costa, alertou para a dificuldade que o país irá atravessar nos próximos dias, devido às previsões meteorológicas que apontam para vento forte e temperaturas elevadas. Anunciou ainda que vai ser acionado o pré-alerta do mecanismo europeu de proteção civil, assim como um acordo de auxílio assinado com a Rússia para apoio em casos de dificuldade.

Segundo a Proteção Civil de Portugal, estão ativos mais de 100 incêndios no território continental e na ilha da Madeira. Estão a ser combatidos por cerca de 3 mil bombeiros, mais de 900 viaturas e 22 meios aéreos.

No Alto Minho, foi acionado o plano distrital de emergência, que permite às autoridades locais solicitar o reforço de meios do Governo. Este plano foi anteriormente acionado em 2005.

O Primeiro-Ministro, Rui Maria de Araújo, considera a situação alarmante, pelo que convocou esta reunião extraordinária de Conselho de Ministros e anunciou a transferência urgente deste apoio financeiro  às autoridades e à população de Portugal. FIM

 

Publicado por Alexandre Guerra às 16:17
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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2016

Apontamentos históricos

 

"On the eve of the [Amerina] Civil War, returns to capital on southern plantations were greater than in northern factories. American slavery was growing rapidly, and it was the only large system of forced labor in modern history that expanded at a high rate by natural increase. By 1860, four million human chattels were the personal property of four hundred thousand masters and mistresses in the southern states. Many of the master class, and others who hoped to join them, were ready to fight and die for this 'peculiar institution', wich they defended in the name of southern honor, states'rights, and liberty to keep a slave. 

 

At the same time,  that slavery was flourishing in the southern states, Americans in the northern states created the world's largest and most dynamic antislavery movement. In 1860, nearly two million people in the northern and western states voted for candidates who condemned slavery and demanded an immediate end to its expansion. Many were deeply offended by the moral wrong of slavery. Some were ready to lay down their lives in the cause of abolation.

 

In 1861, these two great American forces, slavery and antislavery, met in a violent collision that shook the republic to its foundation. The result was the bloodiest war in American history, and someting else that Abraham Lincoln called a new birth of freedom."

 

David Hackett Fischer in Liberty and Freedom - A Visual History of America's Founding Ideas (Oxford University Press, 2015)

 

Publicado por Alexandre Guerra às 12:25
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Sexta-feira, 5 de Agosto de 2016

Leituras

 

Partindo de uma análise à evolução do tecido social e económico dos Estados Unidos nas últimas décadas, Francis Fukuyama explica em American Political Decay or Renewal?, na edição da Foreign Affairs de Julho/Agosto, o que está em causa no combate político e ideológico destas eleições presidenciais.

   

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Publicado por Alexandre Guerra às 15:39
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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2016

Apontamentos históricos

 

"Hoje, temos mais ou menos certo que a Segunda Guerra Mundial foi ganha com sangue russo e dinheiro americano; e embora isso seja verdade até certo ponto, também é verdade que, sem Churchill, Hitler teria certamente vencido. 

O que quero dizer é que os ganhos nazis na Europa podiam muito bem ter sido irreversíveis. Queixamo-nos hoje, com razão, das deficiências da União Europeia, mas esquecemos o horror absoluto desse tão possível mundo, entre os mundos possíveis."

 

Boris Johnson in O Fator Churchill (D.Quixote, 2015)

 

Publicado por Alexandre Guerra às 15:57
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Quinta-feira, 28 de Julho de 2016

Leituras

 

Em U.S. Politics Caught in a 'Russian Trap', no The Moscow Times, Maxim Trudolyubov revela uma outra perspectiva sobre a animosidade entre Hillary e Putin e de que forma isso pode, ou não, ter influência na campanha presidencial.

 

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Publicado por Alexandre Guerra às 16:15
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Quarta-feira, 27 de Julho de 2016

Clinton Cash

 

Estreou no primeiro dia da Convenção Democrata e poderá fazer estragos na campanha de Hillary.

Publicado por Alexandre Guerra às 15:48
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O Diplomata é um blogue individual e foi criado em Fevereiro de 2007, mantendo, desde então, uma actividade regular na blogosfera.

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